a Casa de Assistência Filadélfia desenvolvesse um trabalho significativo, ele não era conhecido e por isso, as pessoas não demonstravam um interesse imediato. Era necessário construir a imagem da Casa de Assistência Filadélfia para as pessoas de fora dela.
Equilibrar o trabalho de gestão, divulgação e captação com as prioridades da fundadora foi um exercício administrativo para a nova coordenadora. Aos poucos, o mesmo clima de instabilidade e de quase amadorismo nas relações organizacionais começava a se instalar gerando informações distorcidas. Não era possível envolver a fundadora nas visitas a alguns possíveis parceiros, pois, ela discutia elementos que só eram concernentes à própria organização, deixando transparecer certo amadorismo e isto inclusive prejudicava a sua própria imagem perante a pessoa visitada.
Assim, ao mesmo tempo em que a coordenadora se empenhava em encontrar novos colaboradores, tinha que proteger a imagem da fundadora, impedindo que aquela mulher corajosa desconstruísse sua própria imagem, pautada numa história de auto-superação.
8.3 CONHECENDO OS BENEFICIÁRIOS
Quando a coordenadora comunicou aos beneficiários que todos eles precisariam se apresentar para uma conversa, o sentimento foi bastante mesclado. Alguns chegavam visivelmente preocupados, vendo naquela entrevista uma ameaça, para a qual não saberiam referir uma causa. Como eles só eram chamados à sala do andar superior quando havia algum motivo maior, quando precisavam “ganhar uma bronca” o que, normalmente só tinha peso quando vinha da antiga vice-diretora, a entrevista foi encarada com muita desconfiança pelos beneficiários.
Outros se apresentavam para a entrevista com prazer, ávidos por colaborar, querendo contar suas histórias e querendo perguntar sobre que mudanças a presença de um
coordenador traria. Invariavelmente, havia uma preocupação sobre a continuidade de Dona Nadir.
As mulheres vinham com seus filhos e enquanto elas eram atendidas, as crianças brincavam junto às outras numa sala ao lado. O espaço reservado para as crianças era um cubículo onde ficava uma pequena televisão e uma caixa de papelão com brinquedos, a maioria quebrados por elas mesmas. As mulheres iam aos poucos respondendo as perguntas como se fosse um processo de seleção, procurando uma resposta que fosse mais adequada, sem errar. Mesmo que o motivo das entrevistas fosse explicado no inicio da conversa, permanecia um ambiente formal, as pessoas se sentiam intimidadas ao falar.
O próprio tamanho da sala impedia uma disposição menos formal, a coordenadora estava sentada atrás da mesa enquanto as mulheres ou os casais se sentavam nas cadeiras à frente, um posicionamento que por si, impunha distanciamento, quando na verdade o intuito era possibilitar um espaço com maior liberdade e privacidade para que aquelas pessoas falassem sobre si, contassem suas histórias, suas aspirações, perguntassem o que fosse necessário.
Para facilitar o processo, as perguntas eram feitas sem que houvesse um registro das respostas, mantendo o ritmo de uma conversa informal, o intuito era iniciar uma aproximação. As falas e as palavras mais importantes eram guardadas na mente para somente após a saída das pessoas ser registrada numa folha à parte. Para os beneficiários, desacostumados que eram de ser ouvidos naquele tipo de situação, parecia haver um outro motivo.
Vinham também homens solteiros, chegavam da mesma forma, desconfiados de uma possível reprovação. Falavam de suas vidas, de como haviam conhecido a Casa de Assistência Filadélfia e Dona Nadir, algo que naquela época significava a mesma coisa.
Após a seção de entrevistas, a coordenadora passou às visitas às famílias. Em geral, eram casais que moravam em algum cortiço ou em cômodos cedidos por familiares, as historias versavam situações muito parecidas: o conhecimento da doença, o adoecimento, a perda do emprego e a desesperança, um amigo que ajudou, um familiar que acolheu, como conheceram a Casa de Assistência Filadélfia, a repulsa dos amigos ou familiares, o afastamento, a busca por novas formas de enfrentar a realidade e de socorrer os filhos.
Muitas famílias eram formadas apenas pela mulher e os filhos, o marido já havia falecido, estava na prisão ou simplesmente havia deixado a casa. Muitas delas relatavam os diferentes mecanismos utilizados para esconder dos familiares que tinham o vírus. Escondiam medicamentos e não os estocavam na geladeira para não chamar a atenção, com risco inclusive de inutilizá-los e também o seu efeito. Submetiam-se a vários inconvenientes para poder com muita bravura abrigar os filhos, que cresciam num ambiente de preconceito velado.
Visitar os beneficiários era um exercício de duplo resultado, geralmente, isso possibilitava que se conhecesse um pouco mais sobre o seu perfil, onde moravam, condições de higiene, como era a organização familiar e a relação com vizinhos e parentes, as necessidades mais evidentes, mas, além disso, possibilitava que se conhecesse o caminho percorrido por essas pessoas para chegarem à Casa de Assistência Filadélfia bem como a outros locais comuns entre os soropositivos, ou seja, os hospitais e centros de referencia.
Para a maioria, era uma verdadeira jornada entre trens, ônibus, metro e roteiros a pé por dentro dos bairros e das favelas, o que indica que, sem a medida que possibilitou o “passe livre”, ou, a condução grátis em metros e ônibus municipais, uma grande parte da população vivendo com HIV não poderia ter comparecido ao tratamento médico, pois o custo de transporte seria um impedimento direto à aderência ao tratamento.
Atualmente, quando esse recurso é destinado apenas aos pacientes com doenças oportunistas, uma parte considerável dos gastos de ONGs é com a condução dos beneficiários. Se a ONG não providencia a passagem não há como esperar que eles compareçam a cursos, palestras, reuniões de auto-ajuda ou para reuniões de conscientização.
Muitas visitas não foram realizadas por que os endereços não eram encontrados, na maioria das vezes as pessoas diziam um endereço errado, ou porque não sabiam dizer corretamente o próprio endereço ou, porque não havia mesmo um endereço oficial ou legal. FALCÃO (2004) ilustra a realidade social de pessoas excluídas e sua condição de “pessoas ilegais”, por não terem carteira assinada, não pagarem impostos, não receberem educação fundamental, cuja energia elétrica de seu barraco ser feita em sistema de “gato”, como pessoas que vivem na ilegalidade ou, mais que isso, sendo elas próprias, pessoas “ilegais”. A maioria dos beneficiários se enquadrava nessa condição.
Em geral a visita da coordenadora era bem esperada, eles se sentiam felizes em receber as pessoas da Casa de Assistência Filadélfia e faziam de tudo para oferecer um café ou um refresco para demonstrar gratidão. Os vizinhos eram avisados, os familiares mais próximos vinham para conferir. Em muitos casos a coordenadora e sua auxiliar disputavam o espaço com os animais domésticos e com os móveis todos bem compactados num pequeno cômodo. Por mais que a impressão do local fosse afetada pela visão do desconforto e pelas condições inadequadas de higiene e privacidade, eles passavam parte do tempo contando como haviam conseguido o local e como estavam gratos por aquela “benção”.
À parte dessas ocasiões específicas, a relação dentro da organização, nas reuniões oficiais e nos atendimentos feitos durante toda a semana possibilitou que aquelas pessoas passassem a ter nome e aquelas histórias, ser uma referência para a coordenadora. A realidade que dona Nadir conheceu ao longo dos anos e dominava com muita tranqüilidade, teve que ser aprendida em caráter de urgência pela
coordenadora e posteriormente pelos demais membros da equipe que aos poucos ia sendo formada.