No primeiro quarto do século XX, o analfabetismo popular foi um grande obstáculo no desenvolvimento de Portugal. As reformas na educação eram uma tarefa muito importante e árdua do governo republicano para desenvolver a cultura. Nas instruções infantil e primária, criaram-se alguns jardins-escola, onde se aplicavam princípios modernos de pedagogia, assentes no conceito de desenvolvimento integral da criança. O número de escolas primárias subiu expressivamente. A legislação de 1911 estabeleceu a instrução oficial e livre para todas as crianças aos níveis infantil e primário, e a escolaridade obrigatória entre as idades de sete e dez anos. Na instrução secundária, aumentou substancialmente o número de professores. E houve mais reformas importantes no ensino técnico, resultando na existência, em Portugal, de 54 escolas técnicas de nível secundário, em 1923. A instrução superior mereceu grande atenção. A Universidade de Lisboa e a Universidade do Porto, estabelecidas das escolas superiores locais já existentes e reunidas pelo Governo Provisório, puseram fim ao monopólio centenário da Universidade de Coimbra. A Faculdade de Letras de Coimbra substituiu a extinta Faculdade de Teologia. Os ensinos eclesiásticos foram substituídos pelos civis e morais. Houve outras reformas e políticas na instrução superior de acordo com a ideologia republicana. Efetuaram-se outras reformas no ensino de adultos e no ensino popular e livre. Desenvolveram-se também as bibliotecas e as publicações de jornal e revista. A República decretou a primeira reforma ortográfica da língua portuguesa. Contudo, como a difícil situação económica e a instabilidade política e social resultaram na escassez dos apoios financeiros, sendo sempre o ponto fraco das reformas educacionais republicanas, a taxa de analfabetismo baixou relativamente pouco: 69,7% em 1911, para 61,8%, em 1930, o que foi bem longe do que as expetativas da opinião pública. Mais de metade da população portuguesa compunha-se
de analfabetos, o que foi realmente um grave problema da educação de massas.199
O pendor político fomentou o debate livre e a argumentação sem entraves no novo ambiente liberal, em que se podiam aceitar as diferentes correntes literárias e artísticas. Movimentos literários e artísticos, que possuíam normalmente as caraterísticas mais óbvias da cultura, tinham sempre o seu lado político. “A mais válida literatura portuguesa do tempo caraterizou-se em geral por uma tendência nacionalista que reagia
contra o realismo cosmopolita de finais do século XIX.”200. Esse nacionalismo
mostrou-se de vários modos nostálgicos, quer por temas e heróis históricos, quer pelo culto dos elementos tipicamente portugueses tais como os valores, os modos e as paisagens. Destacado nas ideias dos escritores do saudosismo, cujo mentor foi Teixeira de Pascoais, o espírito nacionalista, defendendo o conceito "cá-dentro", foi duma fação
do movimento de Renascença Portuguesa, cujo órgão, A Águia201, foi o seu meio
privilegiado para divulgar os seus pensamentos culturais.
Havia sempre divergências nos movimentos culturais. O nacionalismo foi atacado por uma corrente racionalista, mais cosmopolita, sujeita à influência francesa, mostrando mais a vontade de europeização. Defendendo a ideia de “lá-fora” e visando desenvolver a consciência crítica para dar mais progresso ao país, o movimento Seara
Nova criou a revista Seara Nova202, em 1921, que divulgou corajosamente as novas
ideias da época.
A Primeira Guerra Mundial influenciava profundamente o meio literário e artístico, que trouxe o horror ao ser humano e fez com que os intelectuais pensassem nos problemas entre o desastre dos avanços científicos e a destruição da humanidade. Neste contexto, a corrente modernista, iniciada por volta de 1915, exercia diminuta
influência na sociedade portuguesa do tempo. A revista, Orpheu203, embora existisse
por um tempo efémero, logrou maior divulgação das propostas modernistas, que
200 Idem, ibidem, p. 295.
201 A Águia foi uma revista bimensal, e depois mensal, de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social, que se publicou no Porto,
entre 1910 e 1932.
202 Seara Nova foi uma revista fundada em Lisboa, no ano de 1921, por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais
portugueses da época.
203 Orpheu foi uma Revista Trimestral de Literatura editada em Lisboa. Apenas teve dois números publicados, correspondentes aos
tentaram uma renovação cultural que punha em xeque os próprios alicerces da sociedade burguesa. No entanto, com os seus ataques ao senso comum e à moral convencional, a corrente, sendo uma vanguarda, não foi amplamente aceite na
sociedade204. O mais famoso exemplo na literatura foi de Fernando Pessoa, que foi
apenas “descoberto” durante e após a Segunda Guerra Mundial, com o grosso da sua obra publicado postumamente.
Perante o anarquismo da política e a instabilidade da sociedade, ascendeu o Integralismo Lusitano, que foi um movimento mais político, sendo diretamente a reação ao anticlericalismo da República. O movimento tinha o seu órgão, Nação
Portuguesa205, cuja doutrina foi o tradicionalismo, a descentralização de poder, o municipalismo, o nacional-sindicalismo, a Igreja Católica e a Monarquia orgânica, contra o parlamentarismo. Geralmente, as ideias deste movimento consideram-se como extrema-direita e ligam-se com a origem do salazarismo posterior.
Ilustração 4 – As revistas: A Águia, Seara Nova, Orpheu e Nação Portuguesa206
No espaço literário, o artigo e o folhetim jornalístico predominaram sobre o romance, o poema ou a monografia porque a preocupação geral das obras nos primeiros
anos da República ficou em alcançar um público vasto e popular207. Com certeza, as
204 Veja-se o estilo do Manifesto Anti-Dantas, do poeta José de Almada-Negreiros.
205 Revista publicada entre 1914 e 1938. Cf. http://www.infopedia.pt/$nacao-portuguesa, consultado em 2 de julho de 2013. 206 Fontes: http://iporto.amp.pt/eventos/a-revista-a-aguia-e-a-renascenca-portuguesa-no-contexto-da-republica,
http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/2007/10/?page=19, http://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Orpheu1915.jpg, http://www.infopedia.pt/$capa-da-revista-nacao-portuguesa-publicada, consultados em 16 de julho de 2013.
influências das correntes culturais não só permaneciam nas áreas literárias e musicais, mas também nas artes plásticas. As tendências de futurismo e modernismo caraterizaram-se na época, mas o naturalismo e outras correntes tradicionais continuavam a ser o gosto dominante. A aplicação das novas tecnologias contribuiu
muito para o desenvolvimento da arquitetura, da música e do cinema.208