O PSDB surgiu em 1988 como resultado de uma cisão coletiva de parlamentares do PMDB que se reconheciam como a ala mais progressista e à esquerda deste partido. Embora se intitulasse como um partido social-democrata, diferentemente dos partidos social-democratas clássicos europeus, que se originaram articulados às massas trabalhadoras e aos sindicatos, o PSDB teve uma origem exclusivamente parlamentar, já tendo, portanto, em sua composição inicial, políticos bastante influentes no cenário político nacional (ROMA, 2002).
Segundo os estudos que analisaram a origem do PSDB, três fatores teriam motivado a criação do partido. O primeiro seria relativo às distensões internas na bancada parlamentar do PMDB durante os trabalhos na Assembléia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988, principalmente nas questões sobre sistema de governo – presidencialismo versus parlamentarismo – e da duração do mandato do presidente José Sarney – quatro ou cinco anos (KINZO, 1993).
O segundo fator seria o predomínio do grupo quercista em São Paulo que disputava posições de poder no interior do PMDB. Orestes Quércia, que controlava a organização peemedebista, venceu esses políticos influentes, deixando-os sem espaço de atuação no interior do partido. Já o terceiro seria a apresentação da
candidatura de João Leiva para a prefeitura de São Paulo, articulada no interior do PMDB paulista a partir de uma aliança entre políticos conservadores do PFL e o prefeito de São Paulo, Jânio Quadros. A composição dessa candidatura, aliás, foi considerada o motivo final que impulsionou a ruptura dos fundadores peessedebistas com o PMDB (ROMA, 2002).
O desenvolvimento partidário depende, antes de qualquer coisa de condições estruturais e institucionais favoráveis, mas também da sua liderança. No início da Nova República, os líderes do PMDB foram, de certo modo, responsáveis pelo que aconteceu com o partido. Fizeram escolhas que trouxeram descrédito ao partido, e à pratica democrática. Optaram pela formação de coalizões eleitorais muito heterogêneas nas eleições de 1986; apoiaram Sarney, quando poderiam ter criticado o Governo, aceitaram a manipulação do Plano Cruzado e demonstraram um apetite voraz por verbas e cargos políticos (MAINWARING, 2001, p. 143).
Nos dias 24 e 25 de junho de 1988, em reuniões que contaram com a participação de 1.178 pessoas, foram amplamente debatidos os atos constitutivos do novo Partido Social Democrata, que nasceu do consenso e liderança de políticos de expressão nacional. Entre as lideranças estavam o Senador Mário Covas, ex-líder da maioria na Constituinte; o ex-Governador Franco Montoro; o Senador José Richa e o Senador Fernando Henrique Cardoso, que renunciava à liderança do partido majoritário no Senado. O manifesto de fundação do PSDB foi subscrito por 40 Deputados e oito Senadores (O PARTIDO..., 2007).
Abaixo trecho do Manifesto de Fundação do PSDBn (1988)
Convencidos de que, a despeito dos avanços institucionais havidos a partir do trabalho da Assembléia Nacional Constituinte, o povo brasileiro permanece:
• frustrado, porque até hoje não foi cumprida a promessa de mudança social e econômica;
• angustiado com a falta de solução para a crise econômica, que empobrece a Nação;
• chocado com o espetáculo do fisiologismo político e da corrupção impune;
• desiludido com o Governo que deixou de se constituir no primeiro da Nova República, preferindo fazer-se o último da velha República; • descrente de partidos políticos que não correspondem ao voto de
Anunciamos a fundação do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e convocamos o povo brasileiro para prosseguir a luta pelas mudanças com energia redobrada, através da via democrática e não do populismo personalista e do autoritarismo concentrador do poder e da riqueza.
Por decisão da Comissão fundadora do partido, a sua presidência seria exercida em sistema de rodízio, tendo sido ocupada sucessivamente pelo Senador Mário Covas, Senador José Richa, Senador Fernando Henrique Cardoso e Franco Montoro. A Secretaria-Geral ficou a cargo do deputado Euclides Scalco e a Tesouraria sob responsabilidade do deputado Jayme Santana. Na Assembléia de fundação foi aprovada a designação, nos termos da lei, das Comissões Diretoras Regionais Provisórias para sete Estados, sendo eles São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná , Santa Catarina, Distrito Federal, Rondônia, Pernambuco, Minas Gerais e Paraíba (O PARTIDO..., 2007).
Recém-formado, o PSDB participou das eleições municipais de 15 de novembro de 1988. Com candidaturas próprias consegue vitórias importantes em Minas Gerais, assumindo a prefeitura de Belo Horizonte com Pimenta da Veiga. Ao todo, o PSDB elegeu 18 Prefeitos, sendo sete em Minas Gerais, cinco em São Paulo, três no Espírito Santo, um em Pernambuco, um no Mato Grosso do Sul e um no Rio Grande do Sul.
Segundo Roma (2002), existem três elementos importantes que influenciaram na decisão de fundar o PSDB e que ainda não foram devidamente considerados.
O primeiro é o pouquíssimo espaço político que o governo Sarney concedeu aos políticos fundadores deste partido. O segundo é a exclusão destes políticos do processo sucessório à presidência da República. Já o terceiro elemento articula-se, de forma estratégica, com os anteriores, pois consiste na abertura de um mercado de eleitores de centro descontentes com o governo federal.
Ainda segundo Roma (2002), com relação ao primeiro elemento, é fácil constatar, no governo Sarney, a ausência dos principais fundadores do PSDB. Alijados dos espaços de poder do Executivo e dos recursos de governo, estes políticos de longa experiência em cargos representativos, tanto no poder Executivo como no Legislativo, viram-se com oportunidades reduzidas de concorrer, dentro do partido, ao governo federal, especialmente com a postura favorável de Sarney ao presidencialismo e à prorrogação do seu mandato para cinco anos. A permanência desse grupo fundador do PSDB no PMDB, significava pouca oportunidade de
acesso às pastas ministeriais ou aos demais cargos governamentais. Em parte, só é possível entender o comportamento estratégico da liderança do PSDB na arena legislativa – com uma postura inicial de críticas dirigidas ao PMDB e ao PFL em seu manifesto de fundação, em 1988 –, devido ao reduzido acesso aos postos de governo naquele contexto.
Os outros dois elementos devem ser considerados e que envolviam uma a estratégia eleitoral para o jogo político da eleição presidencial de 1989. Nesse caso, uma vez constatado que a única forma viável de acesso ao governo federal seria por meio de outro partido que não o PMDB, devido à rejeição que se fazia na sociedade em relação ao nome de Sarney, a estratégia adotada para a fundação do PSDB levou em consideração a abertura de um nicho de mercado eleitoral, aproveitando a massa de eleitores que se identificavam com o centro. Assim, a insatisfação quanto à atuação do PMDB no governo, agravada com a atitude do partido na aprovação do mandato de cinco anos para o presidente Sarney, abria um mercado eleitoral para a atuação de um novo partido que, em contrapartida, congregasse a ala mais progressista do PMDB, buscando preservar a posição ideológica de centro, e que, estrategicamente, compartilhasse o descontentamento dos eleitores em relação à atuação do governo.
Dessa forma, a origem do PSDB pode ser explicada com maior consistência por sua orientação mais pragmático-eleitoral do que ideológica. Tratou-se da cisão de um grupo de deputados federais e senadores que acreditavam somente ter possibilidade de conquistar cargos no governo federal, principalmente a presidência da República, aproveitando-se do capital político acumulado pelo e no PMDB, mas por meio de outro partido (ROMA, 2002, p. 74).
Nesse contexto, as lideranças peessedebistas apresentaram-se detentoras de um discurso de centro-esquerda, diferenciando-se do governo José Sarney, do qual estavam excluídos, e da sua base de sustentação formada por parlamentares de centro-direita, filiados ao PMDB e PFL.
No entanto, o PSDB trouxe, desde a sua fundação propostas que buscavam um projeto de modernização capaz de unificar as frações da classe dominante, que atravessavam uma crise orgânica durante a década de 1980. Significou o avanço do projeto liberal-corporativo formulado em várias organizações das classes dominantes, para contrapor-se ao modelo de democracia de massa de cunho estatizante almejadas pelas organizações dos setores populares especialmente a CUT e o PT.55
No Espírito Santo a disputa interna entre Gerson Camata e Max Mauro crescia a cada dia e Camata anunciava a sua saída do partido, enquanto o Governador tentava acalmar os ânimos, garantindo a permanência dos principais quadros do PMDB.
Um grande conflito de lideranças marca o surgimento do PSDB no Estado. De uma lado está o senador José Ignácio Ferreira, rompido nacionalmente com o Presidente Sarney e com a direção do PMDB, mas aliado ao governador Max Mauro. Esta aliança ameaçava o novo partido a se tornar uma “sublegenda peemedebista” garantindo uma aliança do novo partido com o Palácio Anchieta, visando a candidatura do senador ao Governo em 1990. Do outro lado, o deputado Vasco Alves, também um dos fundadores locais do PSDB, fazendo oposição ao governador Max Mauro, que igualmente nutria intenções ao governo. Vasco Alves foi responsável por atrair políticos de oposição ao Palácio Anchieta como os ex- secretários Joaquim Beato, Luiz Moulin e Ricardo Santos (PSDB..., 1988, p. 5-7). Hartung (2007) narra a articulação inicial do PSDB:
Eu fiquei no PMDB até o Sarney na Presidência. Eu fui delegado do colégio eleitoral, representei o ES, votei no Tancredo Neves. O Tancredo se elegeu pelo Colégio Eleitoral e morreu imediatamente e o Sarney veio presidir o País. Neste período veio a Constituinte com Covas, Fernando Henrique, com Serra, com as figuras do PMDB, que foram no debate da Constituinte se desgarrando. Houve um momento que criou uma certa incompatibilidade e isso virou um movimento para criar um partido e eu fui chamado a participar da fundação deste partido e participei. Basicamente os convidados nesta época foram eu e o Zé Ignácio. E nós fomos os fundadores. Nós chamamos muita gente para vir com a gente.
55
GUIOT, A.P. Um “moderno príncipe” para a burguesia brasileira: O PSDB (1988-2002): História Contemporânea. 2006. 197 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós graduação em História, Universidade federal Fluminense, Niterói, 2006
Conforme GUIOT o PSDB foi um instrumento que se propunha a fazer a mediação entre o projeto do neoliberalismo de terceira via formulado no âmbito das associações da sociedade civil burguesa e o aparelho estatal o que se enquadrava como o perfil do grupo em estudo. A filiação em massa de seus membros figurava como uma oportunidade de ingressar em uma nova proposta e a desvinculação de um partido desgastado perante a opinião pública. O relato de COLNAGO resume o significado dessa passagem que foi resultado do consenso do grupo:
Sou um dos 300 fundadores. Na verdade, nós estávamos no PMDB e a discussão que a gente começou em relação com algumas lideranças que o Paulo trazia de São Paulo. Começamos a discordar e achar que nós tínhamos que ir pra um partido que desse um passo a frente...A social democracia que a gente acreditava, que o socialismo seria um processo.. E fomos apoiar a social democracia, até pela formação da gente, mais de centro esquerda... E fizemos uma discussão interna já que estava no mandato do Paulo no PMDB. E fizemos a opção de filiar. Nós filiamos gente rapidamente, um grupo de pessoas aqui... Fomos os primeiros a fundar o PSDB. O Paulo caiu com uma turma na ficha do PSBD. (COLNAGO, 2008)
A origem do PSDB no Espírito Santo teve características próprias, longe de ser um autêntico partido de esquerda, as primeiras filiações, incluindo o senador José Ignácio Ferreira e os deputados federais Rose de Freitas e Lézio Sathler, mostram a diversidade ideológica. Enquanto nacionalmente o PSDB surgia da aferição do painel da Constituinte dos que não conseguiam se caracterizar em termos de identidade, no momento de tomar posições, no Estado nasceu mais em função da eleição para o Governo do Estado. Aparentemente, a intenção do senador José Ignácio Ferreira, ao fundar o PDSB no Espírito Santo, era ocupar o vácuo existente entre os grupos Max e Camata. Segundo Vieira (1992, p. 96) o perfil das adesões ao novo partido era bastante heterogênea:
Políticos como Rose de Freitas, Vasco Alves, Jorge Anders, Paulo Hartung e Levi Aguiar, todos vindos do PMDB e que se identificavam mais com José Ignácio o acompanharam. Houveram tentativas para atrair Helio Carlos Manhães e Nelson Aguiar, mas não obtiveram êxito. Frustrada a tentativa de obter o ingresso de Max Mauro, o PSDB buscou atrair Rita Camata, que chegou a assinar a ficha. O senador Fernando Henrique Cardoso foi o articulador da adesão de Rita, bem como do marido Gerson Camata.
A primeira comissão diretora regional, em caráter ainda provisório, foi formada por Paulo Hartung, Waldir Klug, José Ignácio Ferreira, Paulo Amparo, Luzia Alves Toledo, Vasco Alves de Oliveira Junior, Cilso Ribeiro, Rose de Freitas, Josmar
Butikowski Pereira e Jorge Anders. Com base formada em 88, o PSDB conseguiu ainda disputar as eleições municipais em boa parte do Estado, obtendo resultados expressivos como a eleição de Vasco Alves em Cariacica, Erivelto Porto Meirelles em Itapemirim, Jorge Anders em Vila Velha e José Tadeu Batista em Bom Jesus do Norte.
CAPITULO 4
A CONQUISTA DO PODER
A hora agora é de Paulo Hartung. Temos que reconhecer isso (ADELSON..., 1992, p. 2)