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Como já foi referido o Método de Avaliação Contingente procura simular um mercado hipotético, que embora seja flexível pode produzir estimativas pouco fiáveis se os inquiridos não estiverem bem esclarecidos, não apresentarem um bom espírito de colaboração e se os responsáveis/coordenadores pelo estudo não tiverem em linha de conta um conjunto de

regras e de cuidados durante o decorrer das entrevistas de forma a evitar enviesamentos que podem comprometer o inquérito.

Neste estudo, para cada questão DAP e DAR foram sempre colocados juntos dos inquiridos, cenários diferentes. É de referir que é determinante para o sucesso de um inquérito que os entrevistados entendam e aceitem os diferentes cenários propostos.

Assim, na primeira questão DAP foi sugerido como cenário o estado actual da Praia de Faro e o actual estado de utilização desta praia, questionando os entrevistados sobre a disponibilidade de contribuir, por cada visita efectuada à Praia de Faro, para a melhoria gradual das condições oferecidas por esta praia, ao nível da limpeza, do Ordenamento, do estacionamento da qualidade e da lotação.

Quanto à segunda questão DAP, o cenário hipotético proposto foi a queda da ponte de acesso à Praia e de um forte assoreamento no canal de navegação da Ria (que permite o acesso à Praia de Faro), inviabilizando assim o seu acesso por via terrestre e marítima. Mediante o pagamento de uma determinada quantia à Câmara Municipal, estariam reunidas as condições para proceder à reconstrução da ponte e proceder ao desassoreamento do canal de navegação permitindo assim o acesso das pessoas novamente à Praia de Faro. Na terceira questão DAP, o cenário proposto foi solicitar ao entrevistado que imaginasse ser possuidor de uma casa de férias na Praia de Faro e assim sendo quanto estaria disposto a contribuir para a melhoria gradual das condições oferecidas por esta praia, ao nível da limpeza, do Ordenamento, do estacionamento da qualidade e da lotação.

A quarta questão (única questão DAR deste questionário), pretende reflectir a disponibilidade para aceitar. Consequentemente, a hipótese colocada adopta numa perspectiva inversa em relação às outras questões, ou seja, um cenário em que o entrevistado é dono da parcela de areal que habitualmente utiliza na Praia de Faro, interrogando posteriormente a disponibilidade para aceitar determinada indemnização para prescindir dessa propriedade.

Em relação a esta situação foi apresentado como cenário uma grande tempestade que originou um acidente com um petroleiro em frente à Praia de Faro que provocou um derramamento de uma quantidade avultada de crude e uma forte erosão costeira no areal da Praia de Faro, obrigando a Câmara Municipal a interditar a titulo definitivo esta praia. Perante esta situação, é questionada a indemnização que o utilizador iria exigir como compensação pelo facto de ter de abandonar a praia.

Qualquer que seja o cenário proposto, são admitidos seis possíveis tipos de enviesamento: comportamento estratégico, forma de pagamento, hipotético, operacional, Limitações Orçamentais, ponto de partida e informação.

Para o comportamento estratégico houve o cuidado do entrevistador de tentar conduzir a entrevista para que o entrevistado ao atribuir valores tomasse uma decisão a nível social e não uma decisão puramente individual.

Neste sentido, na primeira e terceira questão DAP alertou-se os entrevistados que caso os valores sugeridos não correspondessem ao expectável para proceder às melhorias necessárias da Praia, simplesmente este projecto (proceder às melhorias) era abandonado. Na segunda questão DAP, foi acrescentada à pergunta que bastava que o valor a ser proposto por um dos utentes não correspondesse à previsão orçamentada pela Câmara Municipal para que esta suspendesse as intervenções que iriam permitir a reabertura da praia ao público. Também na quarta questão (DAR) foi utilizada esta metodologia, alegando que bastaria que o valor de indemnização sugerido por um dos utentes da Praia ultrapassasse o máximo admissível considerado pela Câmara Municipal para que esta abortasse toda e qualquer intenção de indemnizar as pessoas afectadas.

Para o enviesamento forma de pagamento, recorreu-se a um meio de pagamento realístico e fácil de aplicar. Assim, foi proposto para a primeira pergunta DAP a existência de uma portagem junto à ponte de acesso à Praia que procederia à cobrança do acesso às pessoas que se deslocariam de automóvel, moto, bicicleta ou a pé. Para o autocarro ou barco o pagamento estaria já incluído no preço do bilhete.

Para a segunda questão foi proposto o pagamento via multibanco enviado a todos os interessados em usufruírem da Praia de Faro, a que lhes seria posteriormente atribuído um cartão que permitiria o acesso à Praia de Faro. Para a terceira questão DAP a taxa a ser aplicada viria junta com a conta da água do mês de Julho e na questão DAR a indemnização seria paga por transferência bancária, sendo esta forma de pagamento razoavelmente familiar juntos dos inquiridos. De facto, o pagamento de indemnizações por abandono de determinado local, resultante de expropriações de obras públicas ou por acidentes e catástrofes ambientais, constitui actualmente um tipo de pagamento já muito conhecido e vulgarizado.

Aliás, a familiaridade do veículo de pagamento, juntamente com a consistência dos cenários propostos para todas as questões, contribuíram de forma efectiva para o controlo dos enviesamentos hipotético e operacional. Esta constatação resulta da semelhança do

mercado hipotético, onde se desenvolvem as ofertas e escolhas contingentes, com o mercado real, onde os consumidores permanentemente decidem sobre os preços e quantidades.

Para as limitações orçamentais, foi sempre alertado em todas as questões para que o inquirido sugerisse valores de acordo com as suas disponibilidades financeiras. No fim do questionário perguntou-se o valor da remuneração mensal de cada entrevistado que depois de cruzar com os valores sugeridos por estes, verificou-se um conjunto de respostas consistentes e coerentes.

O sexto enviesamento refere-se ao ponto de partida, que foi muito pouco utilizado neste inquérito, um vez que a maioria das respostas foi dada por formato aberto. Quando se utilizou o formato referendo teve-se o cuidado de o preparar com um conjunto de inquéritos prévios em formato aberto que permitiu determinar os valores “tipo” que estavam a ser sugeridos pelos entrevistados. Assim, quando se procedeu à questão em formato referendo partiu-se do valor médio dos inquéritos prévios e ia-se baixando o valor se o entrevistado recusasse e subindo caso o entrevistado aceitasse (até recusar). Esses valores que iam sendo apresentados eram valores que tinham sido os mais sugeridos pelos inquéritos prévios.

Por fim surge a informação. Em todas as questões teve-se o cuidado de cruzar os valores obtidos com as diferentes características e preferências da amostra de forma a conhecer melhor as respostas da amostra e identificar possíveis enviesamentos. Pela análise dos dados cruzados obtêm-se um conjunto de respostas consistentes e coerentes. Para além disso, na terceira questão DAP e na questão DAR optou-se por construir dois cenários de análise distintos. No primeiro admitiu-se para efeitos de cálculo todos os indivíduos da amostra, no segundo procedeu-se à filtragem da amostra, admitindo para cálculo apenas os inquiridos que realmente tinham casa na Praia de Faro.

Este segundo grupo, apesar de ser uma amostra pequena, oferece maior segurança quanto aos valores sugeridos, embora os valores entre estes dois cenários acabassem por não revelar grandes disparidades, o que é um bom indicativo para a consistência dos resultados do primeiro cenário.

Existe ainda um outro enviesamento, designado por problema da agregação que resulta dos entrevistados que recusaram a responder às questões da DAP e DAR. Felizmente este fenómeno, neste inquérito foi muito reduzido.

Contudo, é preciso ter muita cautela ao excluir as “não respostas”, sob pena de colocar em causa a representatividade da amostra, pois a opção da “não resposta” traduz um comportamento de valorização que não pode ser ignorado. Neste estudo, as não respostas foram combatidas com o formato referendo, após o formato aberto não surtir efeito. Foi curioso que o formato referendo foi mais utilizado na primeira questão, baixando progressivamente (possivelmente baixou também a resistência dos inquiridos em não responder), havendo inclusive duas questões que não foi necessário recorrer a este formato. Contudo, optou-se por considerar uma “não resposta” (geralmente Não Sei) como a recusa de DAP ou DAR.