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Na reflexão sobre os cartões-postais como suporte de narra- tivas da cidade, é importante, mais uma vez, evocar o pensamento de Walter Benjamin. Narrativa e experiência, na acepção do estu- dioso das alegorias urbanas, estiveram associadas até o momento de emergência do romance. Este, impessoal no estilo de criação de personagens, assemelha-se à fotografia nas técnicas de reprodução massiva. Aí também podem ser incluídos os postais, na condição de imagem-mercadoria.

As narrativas da cidade próprias das metrópoles contemporâ- neas podem ser consideradas como um modo de apresentar e repre- sentar cidades, priorizando espaços e lugares. Os postais traduzem as narrativas da cidade em imagens, apresentando versões sobre a vida urbana e os imaginários próprios de cada contexto histórico. Os registros visuais explicitam modos de apresentação da urbe para “outros”, caracterizando-se pela afirmação permanente de símbolos e pela busca de singularidade em sintonia com o circuito de imagens globais da cidade. Para satisfazer os turistas atuais, a “cidade real”, com seus impasses e contradições, e a “cidade imaginada” precisam encontrar-se na prática de visitação, sendo os postais a expressão dessa imagem idealizada de um lugar a ser conhecido.

A evocação das origens, os processos de apresentação da “história da cidade”, os desafios enfrentados e as curiosidades po- voam as narrativas e as imagens que sintetizam as articulações entre passado e presente, dotando a cidade de uma “identidade” diferen- ciada das demais.

Os postais podem, assim, ser considerados como reiteração de representações, valorização de espaços urbanos e instituição de marcas de atração. Constituem, portanto, alegorias remissivas a uma transição entre a cidade apresentada e a cidade vivida por seus ha- bitantes. Ao mesmo tempo que as imagens suscitam a curiosidade, necessitam informar e dar referências à imaginação. Nem por isso deixam de guardar a reminiscência do apelo ao fantástico, presente

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nos recortes luminosos propositadamente acentuados em cenários coloridos. As narrativas baseadas na imagem são também fonte de consumo para os moradores das urbes envolvidos pelo espírito ufa- nista da dignificação de “sua cidade”.

As dinâmicas de produção e recriação das imagens são fun- damentais na instituição de narrativas (FORTUNA, 1999), contri- buindo para a celebração de acontecimentos, instituições de heróis e tantos outros ícones a partir dos quais são gerados princípios de identificação e sentidos de pertença. Também dimensões de oculta- ção. Por trás de cada narrativa baseada em discursos e imagens, é possível encontrar o silêncio das experiências não triunfantes. Bar- thes (1989), em análise da dimensão mitológica contida no Guide

Bleu, acentua o lado pitoresco e hegemônico da paisagem de monta-

nhas e acidentes geográficos. Segundo suas palavras,

A humanidade da cidade, na sua concepção, desaparece frente à exclusividade conferida aos monumentos. A mitologia pro- vocada pelas imagens ocorre, na versão do autor, da seguinte forma: a seleção dos monumentos suprime a realidade da terra, assim como a dos homens, não testemunha nenhuma realidade presente, isto é histórica; e, desse modo, o próprio monumento se torna indecifrável, logo estúpido. O espetáculo vai-se assim anulando, e o Guide transforma-se no oposto daquilo que pro- clama: num instrumento de cegueira, através de uma operação comum a toda mistificação (BARTHES, 1989, p. 74).

As formulações de Barthes indicam aspectos relevantes para se pensar sobre os discursos e imagens difundidos para apresentar Fortaleza. A metrópole não se expõe nos postais, a partir de tensões ou conflitos, antes sugerindo uma evolução crescente do traçado ur- bano, condizente, desde a modernidade, com a ideia de uma cidade “cheia de futuro”.

Os imaginários da cidade que se revelam em fotografias e postais são também utilizados como fonte de rememoração ou legi-

timação de propostas patrimoniais. A exposição de materiais icono- gráficos, denominada “A imagem é a voz do tempo”, realizada em Fortaleza, a partir de mostra de fotos de arquivo em 3 de setembro de 2004, tinha como objetivo “apresentar as mudanças ocorridas no espaço do centro de Fortaleza e, com isso, ampliar o debate sobre a revitalização da área”.25

Uma certa diversidade de registros caracteriza a circulação de imagens, contendo novos locais para serem conhecidos e classifica- dos, de acordo com as designações turísticas de ordem cultural, fol- clórica ou religiosa. Em tal perspectiva, os postais funcionam como moeda simbólica, explicitando uma estética urbana capaz de tornar a cidade “digna de ser visitada”.

Os postais traduzem imagens da cidade de Fortaleza em dife- rentes momentos. Contêm a dimensão estética e ideológica do apa- gamento de tensões, omitindo o movimento contra a verticalização. Produzem a metonímia da imagem idealizada da cidade e preten- dem traduzir a “personalidade” da cidade. Nesse sentido, consti- tuem uma imagem-síntese do espaço urbano.

Uma comparação entre postais, segundo contextos espaciais diferentes, revela uma dinâmica variável de registros. A apresen- tação de transformações espaciais sucessivas, explicitadas pela crescente urbanização, em Fortaleza, diferencia-se, por exemplo, da experiência de cidades europeias, marcadas pela visibilidade de patrimônios arquitetônicos que reforçam um sentido de história.

Em termos gerais, os postais colaboram com o senso da apresentação monumental de cidades, eliminando as tensões e os conflitos que acontecem no espaço urbano. O caráter ideológico ou mitológico dos registros, antes de significar oposição à realidade ci- tadina, apontam a possibilidade de tomar os postais como expres- são de narrativas que alimentam imaginários da cidade. Do ponto de vista sociológico, analisar um cartão-postal supõe desconstruir

25 Conforme folheto da exposição patrocinada pela Empresa de Trânsito e Transporte

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ou decompor a imagem, buscando descobrir os processos e atores que lhe deram suporte, incluindo profissionais e produtores de ima- ginários. Implica também pensá-los como objeto indissociável das políticas de turismo e das maneiras de dar forma aos rituais de apre- sentação de cidades.

Os guias turísticos que serão expostos na seção seguinte sus- citam também reflexões interessantes sobre as possibilidades ana- líticas de exploração de materiais associados a processos urbanos.

OS GUIAS TURÍSTICOS COMO

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