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Foram realizadas até o momento duas Escolas de Comunicação popular da CLOC- VC. A primeira escola ocorreu na escola de formação Francisco Morazán Quezeda, Manágua – Nicarágua, em novembro de 2011. A segunda ocorreu no Rio Grande do Sul nas instalações de uma escola de formação do Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA (Brasil), em setembro de 2012. Por ser também uma escola bastante recente, não foram encontrados registros com dados de número e organizações sociais participantes.

Esta escola nasce a partir da necessidade de preparação ou formação de comunicadores populares, potencializando assim a articulação internacional, a solidariedade entre os povos e a capacidade de comunicação no interior de cada organização e entre as organizações sociais. Ao mesmo tempo em que também contribui para a formação de formadores em comunicação popular na medida em que são organizados, coordenados e acompanhados por militantes dirigentes das próprias organizações com apoio de especialistas na área. Tem a característica de realizar a formação política-profissional, ou política-técnica, prática.

Está vinculada também à necessidade de fortalecer os processos organizativos da CLOC – Via Campesina, consolidando um coletivo continental de comunicadores populares que possam construir metodologias próprias de comunicação da articulação internacional de camponeses, realizar cobertura das campanhas, de ações de solidariedade internacional, convocatórias para jornadas através de programas de rádios comunitárias, boletins, etc.

Os principais temas de debate desta escola são filosofia política, economia política, historia da America Latina, teoria da organização, questão agrária, temas orgânicos da Via Campesina, e temas referentes à comunicação popular como radio comunitária, produção de vídeos, etc.

3.2.2 Campesino a Campesino:

O Movimento agroecológico Campesino a Campesino é considerado um método de trabalho de base que busca através da prática fazer crítica à revolução verde e construindo concretamente alternativas. Este método nasce na década de 60 e depois de décadas de êxito em países como Guatemala, México, Honduras e Nicarágua, é realizado em 1997 pela ANAP – Cuba, organização partícipe da Via Campesina. Sua metodologia tem influencia até os momentos atuais para os trabalhos de diferentes organizações. Tem sua fundamentação no pensamento de Paulo Freire e traça uma metodologia de comunicação horizontal entre os camponeses e os técnicos contrapondo-se à forma clássica do extensionismo. Desde uma concepção de educação popular, o trabalho horizontal de conscientização e crescente politização estão fundados na práxis e na formação para a transformação social.

A obra de Giménez (2008) detalha diversas histórias do surgimento deste método de trabalho em Cuba, México, Guatemala e Nicarágua. Em uma das passagens de sua obra, ele afirma:

El surgimiento y la rápida diseminación de Campesino a Campesino en Nicaragua, durante la Revolución Sandinista, no fue una coincidencia. La Revolución era un faro para el movimiento social en Latinoamérica. Intelectuales y activistas de todo el mundo estaban participando en el audaz proyecto político sandinista de cambio social. Estos “internacionalistas” apoyaban activamente los programas populares que se desarrollaban: alfabetización, atención para la salud y reforma agraria. Muchos expatriados eran profesionales de la clase media quienes aportaron con sus múltiples habilidades. Otros eran jóvenes, idealistas, voluntarios irreverentemente, llamados “sandalistas” porque se vestían con pantalones de lona,” jeans” y usaban sandalias, llevando mochilas en la espalda. Otros visitantes en Nicaragua fueron los campesinos, quienes, con la ayuda de ONG progresistas, llegaron para compartir su conocimiento y para aprender del experimento revolucionario. Era un tiempo de gran efervescencia política, y debido a la contra-revolución apoyada por los Estados Unidos, también era un tiempo de peligro, sacrificio y esperanza encarnizada. Era transformador. En la Nicaragua revolucionaria, el trabajo dirigido por campesinos para la agricultura sustentable, iniciado en Guatemala y México, fue una herramienta para la solidaridad política. Los campesinos mexicanos conocedores de la agroecología y las metodologías de campesino a campesino se unieron con las experiencias revolucionarias nicaragüenses. (GIMÉNEZ, 2008, p. 85, 86)

O autor também aponta em sua obra que há uma pedagogia campesina relacionando ao elemento do método de trabalho do Campesino a Campesino. Esta perpassa por alguns princípios chaves que primam pelo intercambio cultural e pelo desenho da investigação participação-ação. São seus princípios: motivação e ensino aos campesinos o ato de experimentar; obtenção e utilização o êxito rápido e reconhecível; uso de tecnologias apropriadas; o ato de iniciar com poucas e bem escolhidas técnicas; e o “ato de formar campesinos promotores”. (GIMENEZ, 2008, p. 110).

Giménez (2008) afirma que esta pedagogia campesina está organizada em fases cíclicas que se conjugam: problematizar, experimentar, e promover. A primeira delas está em aprender os conceitos básicos da agroecologia perguntando-se em coletivo, em grupo. A segunda, a experimentação, está relacionada ao ato de desenhar experimentos e avaliar as possíveis alternativas para resolver determinado problema, aprendendo inclusive a formular hipóteses de trabalho, observações dirigidas, comparações e socializações de resultados. A terceira está relacionada à promoção, ao ato de aprender a organizar e realizar oficinas de aprendizagens e dias de campo, a promover a aprendizagem agroecológica e desenvolver habilidades de comunicação em grupo.

Entre feiras, ajuda mútua e muritões, o método campesino a campesino, possibilita compartilhar experiência de trabalho, informações e novas tecnologias para a agricultura. Em depoimento sistematizado na obra de Gimenez, José Mendonza analisa a importância do método para aprendizagem: “Una de las principales cosas es poder hacer para enseñar. Hacer las cosas para enseñar a otros es el mejor método que existe para avanzar en el campo. (José Jesús Mendoza, Santa Lucía, Nicaragua)”. (GIMENEZ, 2008, p. 107)

Este método de trabalho vem sendo discutido nas diferentes organizações que compõem a VCI, com algumas experiências no Equador e em Colômbia. Seus princípios giram em torno de começar desde o pequeno, trabalhando em escalas menores e desenvolver um efeito multiplicador das experiências agroecológicas que vão se concretizando. A partir destes princípios se desenvolvem ações do tipo: diagnósticos, intercâmbios, oficinas, encontros, assembleias, testemunhos, demonstrações didáticas e sociodramas, entre outros. Considera-se na VC que este método de trabalho possibilita inspiração ao trabalho das diferentes organizações sociais do campo.