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CRISTIANISMO E DEMOCRACIA: A DECADÊNCIA DA MODERNIDADE POLÍTICA E A SUA SUPERAÇÃO

-Foi assim que há tempos, quando necessitei,

inventei para mim os “espíritos livres”, aos quais é dedicado este livro melancólico-brioso que tem o título de Humano, demasiado humano; não existem esses “espíritos livres”, nunca existiram – mas naquele tempo, como disse, eu precisava deles como companhia, para manter a alma alegre em meio a muitos males (doença, solidão, exílio, acedia, inatividade): como valentes confrades fantasmas, com os quais proseamos e rimos, quando disso temos vontade, e que mandamos para o inferno, quando se tornam entediantes - uma compensação para os amigos que faltam. Que um dia poderão existir tais espíritos livres, que a nossa Europa terá esses colegas ágeis e audazes entre os seus filhos de amanhã, em carne e osso e palpáveis, e não apenas, como para mim, em forma de espectros e sombras de um eremita: disso serei o último a duvidar. Já os vejo que aparecem, gradual e lentamente; e talvez eu contribua para apressar sua vinda, se descrever de antemão sob que fados os vejo nascer, por quais caminhos aparecer.251

3.1- O “último homem”

Nietzsche afirma, no aforismo 350 de A Gaia Ciência, que foi apenas com a Revolução Francesa que foi colocado “o cetro, de maneira total e solene, nas mãos do ‘homem bom’ (da ovelha, do asno, do ganso e de todos os irremediavelmente rasos, ruidosos e maduros para o hospício das ‘idéias modernas’)”252 e, assim, a propagação dos ideais revolucionários de uma política moderna que se formava, a saber, “liberdade,

251 NIETZSCHE, Menschliches, Allzumenschliches [Humano, demasiado humano] 2, prólogo, In: KSA, vol. 2, p. 15. Tr. p. 8-9.

fraternidade e igualdade”, continuaram atados a uma tradição de mais de dois mil anos: dos valores cristãos. Este “progresso”, que entre os europeus de hoje é concebido como a boa “humanidade”, ostentada como a grande virtude, é a grande “Ironia para com aqueles que acreditam o cristianismo superado pelas modernas ciências naturais. Os juízos de valor cristãos não foram, em absoluto, superados por elas. ‘Cristo na cruz’ é ainda o símbolo mais sublime253”. O homem moderno acredita no “progresso”, mas esta “época que gosta de ser chamada a mais humana, a mais suave, a mais justa que o Sol até hoje iluminou”254, Nietzsche vê “apenas a expressão – e também a mascarada – do profundo enfraquecimento, da fadiga, da idade, da força que decai!255”. Para o filósofo alemão, o canto do progresso por: “‘direitos iguais’, ‘sociedade livre’, ‘nada de senhores e de servos’, isso não nos atrai!”256, pois desejar que o “reino da concórdia seja estabelecido na Terra257”, seria o mesmo que “o reino da mais profunda mediocrização e chineseria258”, o reino da pequena

política.

Giacóia (1999, p. 151) esclarece, no texto Crítica da moral como política em

Nietzsche, que a “pequena política” significa, tanto para o jovem quanto para o último Nietzsche, “a confusão entre nacionalismo, imperialismo econômico ou militar, e identidade, grandeza cultural de um povo”. “Pequena política” também significa os ideais essencialmente democráticos que pretendem a felicidade, a segurança, ou seja, a ausência de conflito e de dor. Essa identificação está presente no otimismo econômico do “homem

253 NIETZSCHE, Fragmento póstumo do outono de 1885 – outono de 1886, 2 [96], In: KSA, vol. 12, p. 108. Tr. Oswaldo Giacóia, In: Crítica da Moral como Política em Nietzsche, p. 150

254 NIETZSCHE, Die fröhliche Wissenschaft [A Gaia Ciência], 377, In: KSA, vol. 3, p. 629 255 Ibid, 377, In: KSA, vol. 3, p. 629. Tr. p. 280.

256 Ibid, 377, In: KSA, vol. 3, p. 629. Tr. p. 280. 257 Ibid, 377, In: KSA, vol. 3, p. 629. Tr. p. 280. 258 Ibid, 377, In: KSA, vol. 3, p. 629. Tr. p. 280.

moderno”259, o indivíduo do utilitarismo, dos direitos iguais, que pretende um Estado que possa servi-lo, sobretudo no que diz respeito ao bem estar social e à ausência de conflitos

Esse tipo homem da democracia moderna é caricaturado por Nietzsche como o “último homem” que, de acordo com a explicação de Giacóia (1999, p. 152), é o homem que se “interpreta como o fim da história, como o telos até então oculto e ora manifestado do curso do mundo, como se toda história universal não fosse senão o prelúdio e a gestação do advento de sua felicidade”, enfim assegurada num pacífico “reinado universal da razão”, no qual acredita-se no fim de toda desigualdade, injustiça e sofrimento. O “último homem” é, acima de tudo, incapaz de suportar a dor, é o homem da moral escrava, sua necessidade consiste em justamente criar subterfúgios para amenizar a tragédia da existência, e por isso seu ideal de felicidade está na moderação, no igualitarismo que suprime qualquer manifestação de força contrária a seu ideal de felicidade e a sua verdade:

Ai! Chega o tempo do homem mais desprezível, que não pode mais desprezar a si mesmo. Olhai! Eu vos mostro o último homem. Que é amor? Que é criação? Que é anelo? Que é estrela – assim pergunta o último homem, e pestaneja. A terra se tornou pequena então, e sobre ela saltita o último homem, que torna tudo pequeno. Sua estirpe é indestrutível, como a pulga; o último homem é o que mais tempo vive. ‘Nós inventamos a felicidade’ – dizem os últimos homens, e pestanejam. Abandonaram as regiões onde é duro viver: pois a gente precisa de calor. A gente ama inclusive o vizinho e se esfrega nele, pois a gente precisa de calor. Adoecer e desconfiar, eles consideram perigoso: a gente caminha com cuidado. Louco é quem continua tropeçando com pedras e com homens! Um pouco de veneno de vez em quando: isso produz sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para ter uma morte agradável. A gente continua trabalhando, pois o trabalho é um entretenimento. Mas evitamos que o entretenimento canse. Já não nos tornamos nem pobres nem ricos: as duas coisas são demasiado molestas. Quem ainda quer governar? Quem ainda obedecer? Ambas as coisas são demasiado molestas.260

O “último homem” confundiu felicidade com segurança e bem-estar, reduziu a vida a uma economia mínima de forças, a uma economia da espécie que consiste na

259 Tema analisado no capítulo 2, seção 2.3.

260 NIETZSCHE, Also sprach Zaratustra [Assim falou Zaratustra], prólogo 5, In: KSA, vol. 4, p. 19s. Tr. de Oswaldo Giacóia Júnior, In: Crítica da Moral como Política em Nietzsche, p. 152-153.

redução de contrastes e diferenças, a um igualitarismo de rebanho. “Quem ainda governar? Quem ainda obedecer?”, são questões pertinentes a uma política uniforme, igualitária, de um governo popular, que suprimiu as diferenças e as distância entre um homem e outro. Para Giacóia (1999, p. 153) “a felicidade inventada pelo último homem acoberta a hipocrisia de uma vontade de poder inconsciente de si mesma, ou seja, a inocente tirania da uniformidade, o despotismo dos ‘mais estúpidos e medíocres’, que sufoca e anatemiza a singularidade encarnada em toda verdadeira e grande individualidade”. Desta forma, a prática uniformizadora da democracia moderna tem, para Nietzsche, um propósito específico de governo, a saber: “Nenhum pastor e um só rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais: quem sente de outra maneira vai voluntariamente para o hospício [...] ‘Nós inventamos a felicidade’ – dizem os últimos homens e pestanejam”261.

O “último homem” representa a principal crítica nietzscheana à modernidade, além de ser o homem do igualitarismo uniformizador, é o homem da utilidade mercantil, figura singular do liberalismo burguês. O apequenamento do homem moderno Nietzsche denomina de “chinesismo superior”. Esta raça consiste, essencialmente, em nivelar, equiparar as diferenças de tal forma que esses valores passam a ser virtudes, é a racionalização de uma ideologia utilitarista de acomodação, que gostaria de alcançar a “universal felicidade de rebanho em pastos verdes”:

Em todos os países da Europa, e também da América, existe atualmente quem abuse desse nome, uma espécie bem limitada de espíritos, gente prisioneira e agrilhoada, que quer mais ou menos o oposto daquilo que está em nosso intento e nosso instinto – sem falar que, em relação aos novos filósofos que surgem, eles com certeza serão portas fechadas e janelas travadas. Em suma, e lamentavelmente, eles são niveladores, esses falsamente chamados “espíritos livres” – escravos eloqüentes e folhetinescos do gosto democrático e sua “idéias modernas”; todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes bonzinhos e desajeitados, a quem não se pode negar coragem nem costumes respeitáveis, mas que são cativos e ridiculamente superficiais, sobretudo em sua tendência básica de ver, nas formas da velha sociedade até agora existente, a

causa de toda miséria e falência humana: com o que a verdade vem ficar alegremente de cabeça para baixo! O que eles gostariam de perseguir com todas as forças é a universal felicidade do rebanho em pasto verde, com segurança, ausência de perigo, bem-estar e facilidade para todos; suas duas doutrinas e cantigas mais bem lembradas são “igualdade de direitos” e “compaixão pelos que sofrem” – e o sofrimento mesmo é visto por eles como algo que se deve

abolir.262

A crítica nietzscheana à figura do “último homem” pretende despertar a atenção para a decadência da humanidade que com o igualitarismo uniformizador perdeu toda a sua grandeza e singularidade e tornou-se refém da mediocridade do rebanho uniforme, dos prazeres utilitaristas. Esse diagnóstico encontramos formulado no aforismo 202 de Para

além de bem e mal, que esclarece a atuação de uma vontade de poder específica e responsável pelo rebaixamento do homem moderno. Isto porque, como afirmamos (seção 2.2), na democracia moderna não deixa de haver poder ao proclamar pela igualdade de todos, há uma vontade de poder atuante, a saber, a vontade de poder da moral de rebanho que consiste, sobretudo, no enfraquecimento da vontade de poder aristocrática.

Descobrimos que no tocante aos principais juízos morais a Europa se pôs de acordo, e também os países de sua influência: evidentemente se “sabe”, na Europa, o que Sócrates acreditava não saber, o que a velha e famosa serpente prometeu ensinar: hoje se “sabe” o que é bem e mal. Deve então soar duro e pouco agradável aos ouvidos, se de novo insistimos: o que aqui julga saber, o que aqui se glorifica com seu louvor e reproche, e se qualifica de bom, é o instinto do animal de rebanho homem: o qual irrompeu e adquiriu prevalência e predominância sobre os demais instintos, fazendo-o cada vez mais, conforme a crescente e assimilação fisiológica de que é sintoma. Moral é hoje, na Europa,

moral de animal de rebanho: - logo, tal como entendemos as coisas, apenas uma espécie de moral humana, ao lado da qual, antes da qual, depois da qual muitas outras morais, sobretudo mais elevadas, são ou deveriam ser possíveis.263

A moral de rebanho, a laicização da moral cristã, tornou-se o estatuto legítimo da ordem social e política no mundo moderno. A glorificação do que é “bom” é a assimilação “fisiológica” de uma moral, além da qual nenhuma moral deve existir. Desta

262 NIETZSCHE, Jenseits von Gut und Bose [Para além de bem e mal], 44, In: KSA, vol.5 p. 60-61. Tr. p. 47- 48.

maneira, “a mentalidade modesta, equânime, submissa, igualitária, a mediocridade dos desejos obtêm fama e honra morais”264. A tentativa do liberalismo burguês consiste em, primeiramente, a universalização dos valores democráticos e, conseqüentemente, o nivelamento e a igualização da humanidade até alcançar a forma de “rebanho autônomo”.

O apequenamento do homem é a conservação dos instintos que pretende a neutralização das forças, a autoconservação da espécie. É, assim, uma vontade de poder

fraca porque consiste em eliminar a vontade de poder (aristocrática) violenta e selvagem, resguardando a vida de qualquer manifestação que seja um além, um crescer e modificar- se. O trabalho de propiciar a decadência “E destroçar os fortes, debilitar as grandes esperanças, tornar suspeita a felicidade da beleza, dobrar tudo o que era altivo, viril, conquistador, dominador, todos os instintos próprios dos mais elevado e mais bem logrado tipo ‘homem’, transformando-os em incerteza, tormento de consciência, autodestruição”265; foi uma tarefa que “a Igreja se impôs e teve que se impor, até que, em sua estimativa, ‘extramundano’, ‘dessensual’e ‘homem superior’ se fundiram num só sentimento”266. Desta forma, “esses homens, com sua ‘igualdade perante Deus’”267, governaram o destino da Europa, “até que finalmente se obteve uma espécie diminuída, quase ridícula, um animal de rebanho, um ser de boa vontade, doentio e medíocre, o europeu de hoje...”268.

Para Nietzsche, a crença em Deus é requisito para que todos os “espiritualmente limitados269” possam pregar pela igualdade, pois “eles lutam pela ‘igualdade de todos perante Deus’”270, e com a ajuda da religião cristã a moral de rebanho foi capaz de alcançar

264 Ibid, 201, In: KSA, vol. 5, p. 123. Tr. p. 100. 265 Ibid, 62, In: KSA, vol. 5, p. 82. Tr. p. 66. 266 Ibid, 62, In: KSA, vol. 5, p. 82. Tr. p. 66. 267 Ibid, 62, In: KSA, vol. 5, p. 83. Tr. p. 66. 268 Ibid, 62, In: KSA, vol. 5, p. 83. Tr. p. 66. 269 Ibid, 219, In: KSA, vol. 5, p. 154. Tr. p. 125. 270 Ibid, 219, In: KSA, vol. 5, p. 154. Tr. p. 125.

o status de a moral, que julga saber que é bem e mal. O desenvolvimento do movimento democrático em direção a um igualitarismo cada vez mais massificador, como o socialismo e o anarquismo, é sintoma da estagnação, da mediocridade, que luta contra toda possibilidade de uma nova moral, “sobretudo mais elevadas”271, e que afirma, “obstinada e inexorável: ‘Eu sou a moral mesma, e nada além é moral!’”272. Assim, “nessa imbricação entre a ideologia do igualitarismo uniforme e sua fundamentação político-religiosa pela moral cristã que se esclarece o significado da figura nietzscheana do ‘último homem’”273.

Na boca de Zaratustra o “último homem” é o que “há de mais desprezível”274. Como se suas virtudes fossem algo útil e desejável, a saber, a ingenuidade, a simplicidade, o espírito coletivo, a modéstia, o amor ao próximo, a abnegação e a submissão a Deus. Nas palavras de Nietzsche: “Modesto, aplicado, benévolo, moderado, cheio de paz e cordialidade: assim quereis o homem? É assim que pensais vosso ‘homem bom’? Mas o que se alcança com isso é apenas o chinês do futuro, o ‘carneiro de Cristo’, o socialista consumado”275.

O homem decadente destaca-se, particularmente, pela obediência, é o indivíduo preparado para ser comandado, e não comandar. A obediência é, para Nietzsche, o traço fundamental da moral de rebanho, do instinto gregário, e a característica essencial do “homem moderno”. Para Nietzsche, “desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, povos, Estados, Igrejas), e sempre muitos que

271 Ibid, 202, In: KSA, vol. 5, p. 124.Tr. p. 101. 272 Ibid, 202, In: KSA, vol. 5, p. 124. Tr. p. 101.

273 GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo. Friedrich Nietzsche: A “Grande Política” Fragmentos. Clássicos da

Filosofia: Cadernos de tradução nº 3. Introdução, seleção e tradução Oswaldo Giacóia Júnior. IFCH: UNICAMP, 2002, p. 11.

274 NIETZSCHE, F. Also sprach Zarathustra [Assim falou Zaratustra], Prólogo, 5, In: KSA, vol. vol. 4, p. 19s. Tr. p. 40.

275 NIETZSCHE, Fragmentos póstumos, 16 [13], In: KSA, vol. 13, p. 486. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura, In: Nietzsche: Civilização e Cultura, p. 214.

obedeceram em relação ao pequeno número dos que mandaram”276, portanto, a obediência foi até hoje longamente cultivada e, por isso, “é justo supor que via de regra é agora inata em cada um a necessidade de obedecer, como uma espécie de consciência formal que diz: ‘você deve absolutamente fazer isso, e absolutamente se abster daquilo’, em suma, ‘você deve’”277. Assim, “a singular estreiteza da evolução humana, seu caráter hesitante, lento, com freqüência regressivo e tortuoso, deve-se a que o instinto gregário da obediência é transmitido mais facilmente como herança, em detrimento da arte de mandar”278. Na Europa de hoje, esses “bichos-de-rebanho” não fazem outra coisa senão apresentar o homem de rebanho “como a única espécie de homem permitida, e glorifica os seus atributos, que o tornaram manso, tratável e útil ao rebanho”279. A crítica de Nietzsche ao prolongamento da moral cristã nas políticas modernas, sobretudo à democracia, tornar-se ainda mais contemporânea quando ele afirma que “nos casos em que se acredita não poder dispensar o chefe e carneiro-guia, fazem-se hoje muitas tentativas de substituir os comandantes pela soma acumulada de homens de rebanho sagazes: eis a origem de todas as Constituições representativas, por exemplo”280.

O juízo de valor que vigora no “progresso” da humanidade é aquele útil ao rebanho, “dirigido apenas à preservação da comunidade”281, e que considera como “imoral precisamente e exclusivamente o que parece perigoso para a subsistência da comunidade”282, e assim “a felicidade lhe parece, de acordo com uma medicina e maneira de pensar tranqüilizante (epicúrea ou cristã, por exemplo), sobretudo a felicidade do

276 NIETZSCHE, Jenseits von Gut und Böse [Para além de bem e mal], 199, In: KSA, vol. 5, p. 119. Tr. p. 97.

277 Ibid, 199, In: KSA, vol. 5, p. 199. Tr. p. 97. 278 Ibid, 199, In: KSA, vol. 5, p. 199. Tr. p. 97. 279 Ibid, 199, In: KSA, vol. 5, p. 120. Tr. p. 98. 280 Ibid, 199, In: KSA, vol. 5, p. 120. Tr. p. 98. 281 Ibid, 201, In: KSA, vol. 5, p. 121. Tr. p. 99. 282 Ibid, 201, In: KSA, vol. 5, p. 121. Tr. p. 99.

repouso, da não-perturbação, da saciedade, da unidade enfim alcançada”283. Desta forma, o progresso almejado pelo homem “moderno” segue a tradição cristã, e “Tudo somado, o ‘amor ao próximo’ é sempre algo secundário, em parte convencional e arbitrário-ilusório, em relação ao temor ao próximo”284. Qualquer manifestação superior e independente é percebida, para moral de rebanho, como perigo, pois “tudo o que ergue o indivíduo acima do rebanho e infunde temor ao próximo é doravante apelidado de mau”285. Conseqüentemente, a questão relevante para o “progresso” do homem “moderno”, bem como para o ideal ascético, é a mesma, a saber, eliminar qualquer possibilidade de grandeza, de agressividade, exploração, de sujeição do mais fraco ao mais forte, não (especificamente) por amor ao próximo, mas porque a moral de rebanho precisa se resguardar, prevenir-se da moral aristocrática, e nada mais eficaz do que instituir como a única moral possível a que pretende igualar na mesma medida de forças todos os homens.

Eis aqui o ideário cristão como promotor da debilidade do homem, da domesticação dos instintos de maior grandeza e bravura, para a produção de um indivíduo amansado, domesticado. Diante desta constatação (reveladora), podemos nos questionar de que maneira a nossa civilização é, para Nietzsche, apenas a continuação dos velhos ideais cristãos, da domesticação iniciada pelo cristianismo, sobretudo as conseqüências do igualitarismo uniformizante tal como pretende a democracia “moderna”, como veremos na seção seguinte; bem como (seção 3.3) as possibilidades de superação e transvaloração desses valores decadentes que conduzem ao rebaixamento e apequenamento do homem “moderno”.

283 Ibid, 200, In: KSA, vol. 5, p. 121. Tr. p. 98. 284 Ibid, 201, In: KSA, vol. 5, p. 122. Tr. p. 99. 285 Ibid, 201, In: KSA, vol. 5, p. 123. Tr. p. 100.

3.2- O movimento democrático: herança do movimento cristão

Ao auto proclamar-se moral absoluta a moral de rebanho, dos instintos gregários, prolonga na civilização moderna a busca por um ideal de homem que seja a imagem e a semelhança de seu “criador”. Subsiste, portanto, a crença de um “progresso” que é, para Nietzsche, apenas a afirmação da moral cristã. Essa sobrevida dos valores ascéticos no “progresso” da humanidade explica as críticas ferozes de Nietzsche à política moderna, como o socialismo e a democracia, que devem ser compreendidas como figuras do prolongamento do cristianismo, que adquiriram preponderância com a Revolução Francesa, como vimos na seção anterior.

Desta forma, para Nietzsche, são os princípios e as “virtudes” cristãs que permanecem no ideário sócio-político moderno e, assim, “com a ajuda de uma religião que satisfez e adulou os mais sublimes desejos do animal de rebanho, chegou-se ao ponto de encontrarmos até mesmo nas instituições políticas e sociais uma expressão cada vez mais visível dessa moral: o movimento democrático constitui a herança do movimento cristão”286. “Os cães anarquistas”287 que aparentemente se opõe ao ritmo “vagaroso e sonolento”288 dos democratas e, “aos broncos e filosofastros e fanáticos da irmandade, que se denominam socialistas e querem a ‘sociedade livre’, mas na verdade unânimes todos na radical e instintiva inimizade a toda outra forma de sociedade que não a do rebanho autônomo”289. Entre os possíveis rivais há uma essência em comum, a saber, o instinto gregário, os mesmos valores da moral cristã e, por isso, são “unânimes na tenaz resistência

286 NIETZSCHE, Jenseits von Gut und Böse [Para além de bem e mal], 202, In: KSA, vol. 5, p. 124 - 125. Tr. p. 102.

287 Ibid, 202, In: KSA, vol. 5, p. 125. Tr. p. 102. 288 Ibid, 202, In: KSA, vol. 5, p. 125. Tr. p. 102. 289 Ibid, 202, In: KSA, vol. 5, p. 125. Tr. p. 102.

a todo particular direito e privilégio”, sendo todos iguais ninguém mais precisa de direitos; também são unânimes contra a justiça punitiva, compreendida como uma violência aos mais fracos; “igualmente unânimes na religião da compaixão, na simpatia com tudo o que sofre; todos unânimes na gritaria e na impaciência da compaixão, no ódio mortal ao sofrimento, na quase feminina incapacidade de permanecer espectador; unânimes na crença na moral da compaixão partilhada”290. Desta forma, a tarefa das políticas modernas consiste em prolongar essa decadência de valores como forma de debilitação de toda

vontade de poder forte, aristocrática.

O projeto político da modernidade, que pretende estender de maneira globalizada a igualdade da democracia como única forma de legitimidade ético-político, reflete os valores de decadência e diminuição do homem, um “progresso” da humanidade que se justifica a partir de uma diminuição do valor do homem. Para Nietzsche, o