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Forecast og antagelser

Thomas Mann (2006), em “A montanha mágica”, diz que embora a natureza pareça ameaçadora, não se pode falar em ameaça diante de elementos que não pretendem aniquilar-nos, ao contrário, são indiferentes diante de tal possibilidade. Em se tratando de trabalho no campo, a base natural da produção precisa ser levada em conta. Diferentemente do que ocorre na indústria, o ritmo de produção na agricultura depende da ocorrência de ciclos naturais, mesmo nas culturas onde prevalece o uso de máquinas e componentes químicos durante o cultivo. Apesar de parecer ameaçador, o ritmo de produção na agricultura não pode ser completamente dominado pelo ser humano.

Uma das especificidades do trabalho no campo diz respeito aos condicionantes ecológicos da economia agrária. Diverso das atividades fabris, as leis da natureza impõem fortes ditames à prática agrícola. Os ciclos produtivos na agropecuária dependem dos momentos adequados de plantio, colheita, criação, do tipo de solo, da variação climática. Ainda que seja desenvolvida tecnologicamente, os ciclos da produção agropecuária são longos, da semeadura à colheita, da fecundação ao abate. Na indústria e comércio, ao contrário, podem-se produzir bens em qualquer época ou lugar, na quantidade desejada. Na agricultura, depende-se das épocas limitadas de produção. Enquanto na indústria há uma tendência a homogeneizar os processos produtivos, na agricultura as singularidades dos ecossistemas estabelecem diferenças significativas nos muitos locais de produção. Neste contexto, mais do que em outros, mostra-se bastante pertinente a afirmação de Marx (1988) de que se o trabalho é o pai da riqueza material, a terra é a mãe.

Se, por um lado, a relação homem natureza está submetida às leis da natureza e aos limites por ela impostos, por outro lado, ao aplicar tais leis ao processo de trabalho, o homem transforma a natureza em uma natureza “humanizada”, feita pelo homem. Neste sentido, a forma social está sempre presente, mesmo nos processos que parecem exclusivamente naturais. Na formação social capitalista, ao mesmo tempo em que o processo de produção obedece às leis quase eternas da natureza, ele é regulado pelos ditames da valorização e acumulação de capital e não aceita

limites externos a sua dinâmica.

As transformações ocorridas na agricultura com o avanço do capitalismo começam com a proletarização do camponês e a destruição da sua economia “natural”. A fabricação de produtos artesanais era uma complementação das atividades desenvolvidas pela família camponesa. Com o desenvolvimento do mercado e com o aprofundamento da divisão social do trabalho, a harmonia desta relação homem- natureza (bem como suas contradições) dá lugar a outra relação (também permeada por contradições). Esta última não se pauta mais pela economia natural, mas se assenta no conhecimento e controle crescente da Natureza e na possibilidade de reprodução artificial das condições naturais da produção agrícola. Trata-se do processo denominado “industrialização da agricultura”. Marx (1988) assim descreve esta transição no capítulo XIII de O Capital

Na esfera da agricultura, a grande indústria atua de modo mais revolucionário à medida que aniquila o baluarte da velha sociedade, o “camponês”, substituindo-o pelo trabalhador assalariado. As necessidades de revolucionamento social e as antíteses do campo são, assim, niveladas às da cidade. No lugar da produção mais rotineira e irracional, surge a aplicação consciente, tecnológica da ciência. A ruptura do laço familiar original de agricultura e manufatura (...) é completada pelo modo de produção capitalista. Mas ele cria, ao mesmo tempo, os pressupostos materiais de uma síntese nova, mais elevada, da união entre agricultura e indústria com base em suas configurações antiteticamente elaboradas. Com a preponderância sempre crescente da população urbana que amontoa em grandes centros, a produção capitalista acumula, por um lado, a força motriz histórica da sociedade, mas perturba, por outro lado, o metabolismo entre homem e terra, isto é, o retorno dos componentes da terra consumidos pelo homem, sob forma de alimentos e vestuário, à terra, portanto, a eterna condição natural de fertilidade permanente do solo (...) Mas, ao destruir as condições desse metabolismo, desenvolvidas espontaneamente, obriga-o simultaneamente, a restaurá-lo de maneira sistemática, como lei reguladora da produção social e numa forma adequada ao pleno desenvolvimento humano (p.99-100).

Para Silva (1996), o longo processo de industrialização da agricultura significou a subordinação da Natureza ao capital que, paulatinamente, liberou o processo de produção agropecuário dos condicionantes exclusivamente naturais e passou a produzir sob bases mais artificiais. Desse modo, irriga-se quando falta chuva, aduba- se quando solo não for suficientemente fértil, utiliza-se defensivos químicos ou biológicos caso ocorram pragas ou doenças, drena-se a área se houver risco de inundações. “A produção agropecuária deixa, assim, de ser uma esperança ao sabor

das forças da natureza para se converter numa certeza sob o comando do capital”

(p.4).

Nesse processo, a agricultura se industrializa e transforma-se em um setor vinculado a grande produção industrial, submetido ao capital. A agricultura torna-se um ramo de aplicação do capital em geral e, de modo particular, do capital industrial. Este último vende seus produtos ao setor agrícola e compra, deste, suas mercadorias. Vale ressaltar que a transformação das atividades na agricultura e pecuária não está condicionada a um “sistema de máquinas”, mas a sua integração à grande indústria. O conceito de industrialização da agricultura não pode ser reduzido às modificações nas formas de produção em função do aumento da integração da agricultura com setores industriais. A industrialização na agricultura representa não somente uma transformação da relação homem-natureza, homem-instrumento de trabalho, mas também modificações nas relações sociais de produção. Pressupõe a transição de um sistema artesanal para um sistema de produção manufatureiro com uso de máquinas e divisão capitalista do trabalho ou, até mesmo, para a grande indústria em alguns subsetores da atividade agropecuária. Nessa transição, modifica também o papel desempenhado pelo trabalhador na produção que deixa de ter o controle integral da atividade (artesão) e passa a controlar apenas uma etapa específica do processo (trabalhador parcial) ou ainda somente vigiar a máquina como o operário industrial (SILVA, 1996).

O poder de destruição da complexa relação natureza-homem-sociedade produzida pela acumulação capitalista foi amplamente reconhecido por Marx. No que diz respeito ao processo de industrialização da agricultura, o autor, no final do capítulo XIII de O Capital, afirma que um sistema agrícola sob a égide da racionalidade industrial:

(…) perturba (…) o metabolismo entre homem e terra, isto é, o retorno dos componentes da terra consumidos pelo homem, sob forma de alimentos e vestuário, à terra, portanto, a eterna condição natural de fertilidade permanente do solo. (…) E cada progresso da agricultura capitalista não é só um progresso na arte de saquear o trabalhador, mas ao mesmo tempo na arte de saquear o solo, pois cada progresso no aumento da fertilidade por certo período é simultaneamente um progresso na ruína das fontes permanentes dessa fertilidade. Quanto mais um país, como, por exemplo, os Estados Unidos da América do Norte, se inicia com a grande indústria como fundamento de seu desenvolvimento, tanto mais rápido esse

processo de destruição. Por isso, a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social ao minar simultaneamente as fontes de toda a riqueza: a terra e o trabalhador (MARX, 1988, p. 99-100).

Para Altvater (2007, p.335), esta substituição de “ciclos e regimes de tempo-espaço

naturais por ciclos e regimes de tempo-espaço industriais na agricultura” produz um

efeito bastante negativo sobre o meio ambiente, tanto o natural quanto o construído, e sobre a sociedade. Este constitui um dos elementos essenciais para o aprofundamento da crise ecológica do capitalismo e para a construção de movimentos contrários a ele.

Foi visto que no modo de organização da produção capitalista, todas as condições de produção, força de trabalho inclusive, assumem a forma de mercadoria, apresentam-se como coisas que podem ser compradas e vendidas e que, em algum momento do processo de produção e circulação, essas mercadorias aparecem sob a forma de um valor de troca, sob a forma de dinheiro. Todo o processo de produção se reveste da forma dinheiro e tem como objetivo, causa e condição a valorização deste dinheiro inicial, a produção de mais-valia, a produção de capital. Desde o início, a formação social capitalista pressupõe e reproduz a distinção entre uma classe que possui capital e as condições materiais de produção e reprodução da sociedade e uma classe desprovida que precisa vender sua força de trabalho à primeira para existir. Ao lado dessa forma dominante de produzir podem existir e subsistir formas de produção como a dos camponeses independentes que produzem os próprios meios de subsistência, mas que pouco a pouco foram perdendo toda ou parte de sua independência à medida que precisam produzir mercadorias para vender no mercado e comprar neste o que precisam para produzir e sobreviver.

Para muitos autores, marxistas inclusive, com o avanço econômico e tecnológico fomentado pelo modo de produção capitalista, o trabalho no campo estaria fadado a se organizar em torno da grande empresa capitalista baseada no trabalho assalariado. Os camponeses seriam extintos, constituindo um resíduo histórico, sem importância para o desenvolvimento econômico e social. Lenin (1985), por exemplo, afirma que o camponês será extinto pela própria dinâmica de diferenciação entre os

produtores. Kautsky (1986) defende a tese da inferioridade econômica da agricultura familiar, incapaz de concorrer com a dinâmica das grandes empresas capitalistas. No entanto, nenhuma das duas teses se confirmou empiricamente.

Ao contrário das teses que preconizavam a predominância da grande empresa capitalista no campo, Abramoway (2007) mostrou que, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, a modernização tecnológica se fez por meio da transformação das propriedades familiares camponesas em unidades produtivas individuais bastante inovadoras, com alto grau de produtividade, auxiliadas por investimentos e regulação estatal.

A forma como os camponeses independentes vão ser inseridos, excluídos ou expropriados vai depender da formação social na qual estão inseridos e das respostas construídas pelos camponeses diante dos processos de expansão do capital. Se, de um lado, o capital expropria, exclui, integra e subordina os camponeses, de outro lado, eles criam estratégias de resistência e reprodução das suas condições de existência. Estas relações e lutas vão definindo e redefinindo as várias formas de trabalho no campo e a construção de experiências que buscam escapar da integração plena ao capital.