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O Brasil abriga cerca de 20% das espécies de aves existentes na Terra, o que o torna um dos países mais importantes para a conservação da avifauna no mundo (Sick, 1997). Com uma riqueza de 1872 espécies de aves (CBRO, 2014), está em segundo lugar no ranking mundial, sendo superado apenas pela Colômbia (BirdLife International, 2014). Ao mesmo tempo, é o país com o maior número de espécies de

aves ameaçadas de extinção e com as maiores taxas de endemismos: são 151 espécies ameaçadas e 203 espécies endêmicas (BirdLife International, 2014).

As maiores ameaças à avifauna brasileira são a perda de habitat e a fragmentação florestal (vide Introdução Geral), que ocorrem principalmente em função da expansão das fronteiras agrícolas, especulação imobiliária e instalação de obras de infra-estrutura, tais como rodovias, gasodutos e linhas de transmissão de energia elétrica, gerando fragmentação mesmo em Unidades de Conservação (Marini e Garcia, 2005; Cavarzere et al., 2012).

Os efeitos da fragmentação florestal sobre as comunidades de aves neotropicais têm sido investigados em diversos estudos, constatando-se que, tipicamente, o isolamento e a redução na área disponível levam à diminuição da diversidade de aves, sendo a taxa de redução da riqueza específica, em geral, inversamente proporcional à área do fragmento e diretamente proporcional à distância em relação a outros fragmentos ou remanescentes florestais (Aleixo e Vielliard, 1995; Antunes, 2005; Brown e Sullivan, 2005; Feeley e Terborgh, 2008).

Em trabalho pioneiro, Willis (1979) comparou a riqueza de comunidades de aves isoladas em três fragmentos de tamanhos distintos no interior do Estado de São Paulo, observando uma correlação positiva entre a área dos fragmentos estudados e o número de espécies de aves registradas. Quinze anos após de ter finalizado seus trabalhos de campo em um dos fragmentos analisados (Mata de Santa Genebra - MSG), em Campinas, um novo estudo foi desenvolvido nessa área, quando foi documentada a extinção local de 30 espécies de aves, representando um decréscimo de 54% no número de espécies florestais habitantes da MSG, entre 1978 e 1993 (Aleixo e Vielliard, 1995). Os autores atribuíram a elevada perda de espécies ao isolamento do fragmento, distante vários quilômetros do fragmento florestal mais próximo.

Todavia, existem peculiaridades e diferenças nas respostas à fragmentação do

habitat entre as espécies (Brown e Sullivan, 2005). O grau de tolerância de cada espécie às alterações no seu ambiente varia conforme sua capacidade de modificar ou ampliar seu nicho, ajustando-o às novas condições ambientais: aves generalistas mostram-se mais plásticas, enquanto as espécies que evoluíram em florestas contínuas muitas vezes não dispõem de características ecológicas que lhes permitam sobreviver em fragmentos florestais (Blondel, 2001; Gimenes e Anjos, 2003).

Outros trabalhos demonstraram que a fragmentação florestal afeta a seleção de

habitats e o deslocamento das aves (Simberloff, 1995; Wiens, 1995); diminui a oferta de recursos e locais para nidificação (Rapolle e Morton, 1985; Burke e Noll, 1998; Bock e Jones, 2004); aumenta o parasitismo e a predação de ninhos (Rolstad, 1991; Brown e Sullivan, 2005) e altera o comportamento de determinadas espécies em formar bandos mistos (Develey, 2001).

Monitoramentos e estudos desenvolvidos em intervalos de algumas décadas em fragmentos florestais também têm relatado mudanças na estrutura e na composição das guildas tróficas das comunidades de aves em função das alterações na disponibilidade de recursos alimentares, em decorrência do processo de fragmentação. Tem sido diagnosticada a perda de espécies com dietas mais especializadas, como aves insetívoras de subbosque, espécies estritamente frugívoras e carnívoras (Aleixo e Vielliard, 1995; Christiansen e Pitter, 1997; Antunes, 2005; Cavarzere, et al., 2012).

Christiansen e Pitter (1997), em estudo comparativo desenvolvido em fragmentos situados em zona de tensão entre Cerrado e Mata Atlântica, próximos a Lagoa Santa, em Minas Gerais, constataram a perda de 23 espécies de aves, cerca de 130 anos após o levantamento detalhado da avifauna da região pelo naturalista dinamarquês J. Reinhardt. Os autores verificaram que as guildas mais vulneráveis à fragmentação foram os grandes frugívoros, espécies seguidoras de formigas de correição e grandes aves insetívoras, sendo mais expressiva a perda dessas espécies nos fragmentos menores.

As aves insetívoras de solo e subbosque são afetadas em função da redução na abundância e na riqueza dos artrópodes de que se alimentam, fatores que dependem da umidade, temperatura, estrutura e composição da vegetação, por sua vez alterados com a fragmentação dos habitats (Lovejoy et al., 1986; Sick, 1997). Willis (1979) também constatou o desaparecimento de aves seguidoras de formigas de correição em um fragmento de 21 ha, no interior do Estado de São Paulo e, mesmo em um fragmento de 250 ha, eram raras. Essas espécies requerem a disponibilidade de muitas colônias de formigas, o que geralmente ocorre nos fragmentos maiores de 100 ha (Willis e Oniki, 1978; Lovejoy et al., 1986).

Nos fragmentos menores, também não há um suprimento adequado de frutos grandes e nutritivos, que são a base da alimentação das aves frugívoras de grande porte (Karr, 1976; Willis, 1979; Aleixo e Vielliard, 1995; Goerck, 1997). Além disso, anos ou

estações de baixa produtividade de frutos, associado a uma baixa variedade de plantas ornitocóricas, podem levar à extinção ou a uma séria redução nos tamanhos populacionais das espécies frugívoras (Willis, 1979; Foster, 1980).

As espécies carnívoras, especialmente as aves de rapina, também são consideradas tamanho-dependentes e bastante susceptíveis à fragmentação florestal, pois necessistam de grandes áreas para forrageamento (Willis, 1979).

Por outro lado, algumas espécies de aves são favorecidas com a fragmentação, à medida que toleram ou utilizam a matriz circundante do fragmento, deslocando-se entre as manchas florestais com certa facilidade e, muitas vezes, por explorarem um nicho ecológico mais amplo (Brown e Sullivan, 2005). É o que ocorre com as aves insetívoras menos especializadas e onívoras de pequeno porte, as quais tendem a ser mais abundantes em relação àquelas com alimentação mais restritiva (Motta-Junior, 1990).

As espécies granívoras também podem ser favorecidas com o aumento da área de bordas, habitats onde a elevada incidência de luz contribui para a proliferação de plantas invasoras produtoras de sementes, as quais constituem a base da dieta dessas aves (Dário et al., 2002).

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