2. Regulering – et kontraktsteoretisk perspektiv
2.2 Fordeling og håndhevelse av rettigheter
Belo Horizonte, 27 de março de 2007 Olá pessoal do grupo ZAP 18,
Fui assistir vocês e adorei a peça. Para falar a verdade me senti em casa. Eu sou moradora de uma vila e tenho em minha família chefes do tráfico. E na minha família também existe uma “Mãe Coragem” – minha Vó. Ela já perdeu filhos e netos para o tráfico e ainda corre o risco de perder pelo menos mais dois, que são meus tios.
Gostaria de estar relatando esta história de outra forma e quem sabe dizendo que na família que minha “vó” paterna construiu não existe nenhum bandido, pois de 12 filhos só 3 foram para o “lado ruim”.
Primeiro foi o filho adotivo, que, na verdade, era neto dela. Minha madrinha e tia se culpa até hoje pela malandragem dele. Começou com um tênis roubado de um vizinho. Minha madrinha comprou um novo e o fez devolver. A partir desse dia ele passou de um ladrãozinho a chefe do tráfico. Ele delegava
as ordens e os outros obedeciam. E ele foi iniciando os outros que se deslumbraram com a “vida fácil”
que ele tinha. Formou uma quadrilha e reinava, até que trouxeram para cá a Vila Esperança. São casinhas construídas para os desabrigados pela chuva. Só que junto deles vieram outros chefes do tráfico. Aí virou um inferno: armas, tiros, estupros, assaltos e barbáries cometidas uns contra os outros. Então, o Ranys era odiado pelos rivais e pelos policiais.
Lembro-me de noites em que ele passava acordado assistindo filmes que ele alugava só para não dormir, pois era perigoso. Então ele dormia de dia porque tinha mais gente para tomar conta dele e mesmo assim ele já tinha fugido por lugares impossíveis de alguém fugir para escapar da polícia.
Ranys foi o segundo filho da minha vó a morrer, o primeiro foi meu pai. Esse era trabalhador e morreu doente. Mas Ranys foi assassinado brutalmente: teve o rosto todo apunhalado, orelha cortada, foi queimado com cigarro e teve seus órgãos sexuais cortados e só depois atiraram na nuca, o que vazou seu olho.
Quando minha vó soube, precisavam ver sua face dura, não derramou nenhuma lágrima, parecia uma rocha de tão forte. Mas todos nós soubemos que ela morria por dentro, porque ele era seu filho mais carinhoso, amigo e a todo momento a beijava e falava “eu te amo mãe”. Acho que ela não acreditava naquilo. E ele não era só carinhoso com a “vó”, era com todos nós da família. Quando ele morreu, demoramos a nos acostumar com sua ausência.
No enterro, havia muitos curiosos, dois ônibus lotados. Lá sim minha “vó” desabou. Depois da
morte do meu pai nunca vi um dia tão triste. E lá também juras de vingança. E aí minha “vó” foi perdendo
filhos e netos.
O último que morreu foi meu irmão Reg. Morreu com 18 anos. Ele não era muito inteligente para ser bandido, dava sopa pela rua afora e foi assim que ele foi morto: na rua, alvejado por 6 tiros pela gang rival. O Reg entrou nessa vida por não saber viver com pouco. Com a morte do meu pai, ele viu que as
coisas iriam ficar mais difíceis para todos nós. Ele começou como usuário, depois entrou para o tráfico e
acabou morto. A minha “vó” foi a nocaute, mas superou. Hoje parece que ela vive a espera de mais uma
notícia ruim.
Outra coisa interessante é que mesmo a maioria dos outros filhos, de minha vó, sendo honesta e trabalhadora, jamais nenhum deles deu a ela a vida que ela tem hoje financiada pelo tráfico, é claro!
Casa reformada, casa sendo mobiliada, mesa com fartura – o tráfico paga tudo.
Outro dia fomos comemorar o aniversário de 70 anos dela. Estávamos todos lá: netos, bisnetos, filhos, bandidos e não-bandidos. Mas ali éramos todos a família dela. Ela estava feliz com o churrasco, com aquele coral cantando parabéns, tudo sangue dela. Por mais estranho que possa parecer, nós todos nos amamos como qualquer outra família. Sabemos que meus tios são maus, perversos e ruins, mas eles também são da nossa família e nós os amamos.
O aniversário foi maravilhoso e isso não foi financiado pelo tráfico. Foi meu tio que está nos Estados Unidos há pouco tempo que proporcionou a ela essa felicidade.
Outro fato que me chamou atenção é o das mulheres dos chefes do tráfico. Elas não são tão bem tratadas por eles não. Costumam ter um filho atrás do outro. Aqui na minha família é assim: todos são pais ou já foram antes de morrer, é claro. Mas tem filhos que aparecem até depois deles estarem mortos.
E por falar em filhos, tenho dois, um casal. Moramos nós três no mesmo lote que todos eles. Um dia a avó deles, mãe do meu ex-marido, veio nos visitar. Começaram a soltar um montão de foguetes e
minha sogra ficou assustada. Meu filho chegou perto dela e disse: “Vovó Não é tiro, não! É foguete. Tiro
tem barulho diferente. Ele tem 4 anos hoje e na época tinha 3 anos. Eu adoraria que existisse um manual com o título “Como criar filhos sem que eles virem bandidos”.
Lembrei-me de outro fato. Meu tio adorava brincar com meus filhos, porém ele nunca podia andar desarmado e eu tinha medo dos meus filhos verem ou acontecer algum acidente. Até que um dia eu criei coragem e disse:
- Eu gostaria que você não brincasse com eles armado. Se isso dispara, eu nem sei do que sou capaz.
E ele me respondeu:
- Você pegaria a arma e descarregaria ela toda em mim, porque isto está no sangue.
E é verdade, eu tenho o mesmo sangue. Depois disso ele não brincou mais com meus filhos e quando brinca ele levanta a blusa e diz: “estou limpo policial”.
Então é isso. Gostaria de parabenizar a todos pela qualidade do teatro apresentado. Por várias vezes me lembrei e me emocionei com a peça.
Parabéns, sorte e fiquem todos vocês com Deus.