dições que visavam as demarcações dos novos limites da colônia e da- quelas que alcançaram, particularmente, a região de Paraupava, jornadas de caráter oficial e semi-oficial de pequeno porte deram continuidade à busca do mito do Eldorado, do ouro fácil, ao alcance das mãos, que poderia ser catado quando se quisesse. A mais importante para a região central do Brasil foi a de Fernão Dias Pais, por marcar a história de Minas Gerais com o descobrimento dos seus mananciais auríferos e abrir possibilidades para explorações futuras. Seu intento era alcançar a famo- sa Sabarabuçu. Saindo de São Paulo a 21 de julho de 1674, andou por sete anos sem êxito, na região Centro-Sul do Brasil, à cata de ouro e pedras preciosas que só seriam encontrados posteriormente, pelas su- cessivas descobertas do final do século XVII e início do XVIII.
50
Fig. 4 – Expedição de João de Souza Botafogo, continuada por Domingos Rodrigues (1596-1600), conforme M. R. Ferreira.
Fonte: apud: BERTRAN, Paulo.
História da terra e do homem no planalto central: Eco-história do Distrito Federal,
do indígena ao colonizador. Brasília: Verano, 2000, p. 42.
Mas esses “achados” não se limitaram apenas à região de Mi- nas Gerais. Logo depois foram encontrados filões do precioso metal em Coxopó Mirim (1719), futura Capitania do Mato Grosso; no no- roeste de Rondônia (1734); em Jacobina (1701), na Bahia; e em Goiás. Nesta Capitania as pesquisas minerais, assim como em Minas Gerais, começaram no final do século XVII, com homens que marcharam em território de índios bravios e animais selvagens. “Iam sem pressa, arranchando-se, procurando o melhor lugar da caça e da pescaria, entrando no mato atrás de mel-de-pau ou de outro mantimento” 47. Andando continua-
mente, eles ajudaram a abrir o caminho por terra até o sertão dos Goyazes, “onde se iam formando sítios e lavouras que além de pouso, forneciam aos viandantes a sobra do que plantavam” 48. Lourenço Castanho – que
“pode ter formado rancharia na fronteira setentrional entre Minas e Goiás” 49 –,
Luís Castanho de Almeida e seus filhos (1671) e Antônio Soares (1671) foram alguns deles. Para Silva e Souza, um quarto bandeiran- te que também pode ter realizado esse mesmo itinerário, em 1682, foi provavelmente Bartolomeu Bueno da Silva, apelidado pelo gen- tio de Anhangüera,
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Fig. 5 – Bandeira de Nicolau Barreto e dos mineradores paulistas (1602-1604), por M. R. Ferreira.
Fonte: apud: BERTRAN, Paulo.
História da terra e do homem no planalto central: Eco-história do Distrito Federal,
do indígena ao colonizador. Brasília: Verano, 2000, p. 44.
[...] que na linguagem do paiz quer dizer Diabo Velho pelo estratagema de accender aguardente em uma vasilha, com ameaça de abrazar todos os rios e todos os índios que se não lhe rendessem, seguido de um filho do mesmo nome, de idade de doze anos ( que veio a ser o descobridor d’esta capitania), e outros aggregados , chegou pouco mais ou menos em 1682 ao domicilio do pacifico gentio Goyá, que agora habitamos: e demorando-se algum tempo no meio das suas correrias, que comprehenderam grande parte d’estes sertões a plantar roça que melhorasse a sua sustentação, reconheceu a riqueza do logar vendo folhetas de ouro bruto pendentes ao collo das índias: e com esta certeza, confirmada de algumas indagações, regressou ao seu paiz natal, seguindo da numerosa presa que tinha feito, a utilizar-se do fructo dos seus trabalhos [...]50.
47 SOUZA, Laura de Mello e; BICALHO, Maria Fernanda Baptista. Novo Eldorado. In: Virando séculos:
1680-1720, o império deste mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 29.
48 SOUZA, Laura de Mello e. Formas provisórias de existência: a vida cotidiana nos caminhos, nas
fronteiras e nas fortificações. In: História da vida privada no Brasil. NOVAIS, Fernando A.; SOUZA, Laura de Mello. São Paulo: Companhia das Letras. 1998, p. 63.
49 BERTRAN, Paulo. Op. Cit., p. 57.
50 SOUZA, Silva e. O descobrimento, governo, população, e cousas mais notáveis da Capitania de
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Essas bandeiras, formadas por homens que iam acompanha- dos de seus parentes, foram as grandes responsáveis pela fixação no imaginário do Setecentos da existência de terras nas quais “[...] havia por certo [...] minas de ouro e prata, e pedras preciosas, cujo descobrimento se não havia intentado pela distância em que ficavam as terras, asperezas dos caminhos, e povoações de índios bárbaros que nelas se achavam aldeados; os quais primeiro se haviam conquistar para se descobrirem os haveres; e porque deste descobrimen- to de minas podiam resultar grandes interesses à coroa [...]” 51. A crença que
se espalhava sobre a existência de lugares cobertos de “folhetas de ouro bruto pendentes ao collo das índias” 52 foi o estímulo que fez Bartolomeu
Bueno da Silva, o filho, se embrenhar novamente por esse sertão e lançar, de fato, as bases das futuras minas de Goiás.
Assim, a consagração da existência de ricas jazidas de metais no sertão goiano só se firmará no início do Setecentos, quando o filho do velho Anhangüera e seus companheiros paulistas João Leite da Silva Ortiz e Domingos Rodrigues do Prado escrevem ao Rei D.
Fig. 6 – Itinerário de Martim Rodrigues Tenório de Aguiar (1608-1613), segundo M. R. Ferreira. Fonte: apud: BERTRAN, Paulo.
História da terra e do homem no planalto central: Eco-história do Distrito Federal,
do indígena ao colonizador. Brasília: Verano, 2000, p. 45.
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João V pedindo permissão para explorar o interior da colônia em busca de pedras preciosas. Em 14 de fevereiro de 1721, recebem resposta favorável às suas solicitações, com o encaminhamento das devidas instruções ao governador de São Paulo53, Rodrigo César de Menezes, para que este
providenciasse o acordo entre a metrópole e os referidos solicitantes. Com a concessão, Bartolomeu recebeu também um requerimento para que pudesse governar e dar início ao processo de ocupa- ção da região dos Goiazes. Em 3 de julho de 1722, bandeira pronta, marcha em direção ao terri- tório goiano à cata de ouro e riquezas guardadas pelas promessas do antigo mito de Paraupava, ou ainda pela proclamada lenda dos tesouros da região dos Martírios.
Numa difícil e imprecisa jornada, a expedição de Bartolomeu54 segue viagem com “39
cavalos, dois religiosos bentos, Francisco Antônio da Conceição e Frei Luis de Sant’Ana, um franciscano, Fr. Cosme de Santo André, e cento e cinqüenta e duas armas, entre as quais iam também vinte índios, que o Sr. Rodrigo César, general que então era de S. Paulo, deu [...] para a condução das cargas e do necessário”55. Ao
sair de São Paulo, a expedição segue em direção à região do Triângulo Mineiro, em Minas Gerais, atravessa o Rio Grande e penetra em Goiás. A partir daí, segundo o relato de Silva Braga56, Bartolomeu e seus homens passam pelo Rio Maranhão e pelo cerrado planaltino onde
encontram “[...] umas grandes chapadas, com falta de todo o necessário, sem matos sem mantimentos, só sim com bastante córregos, em que havia algum peixe: dourados e traíras, e piabas, que foram todo o nosso remédio; achamos também alguns palmitos que chamam jaguaroba, que comíamos assado e ainda que é amargoso, sustenta mais que o mais57. Depois, a expedição segue em direção ao norte, quando se divide em
dois grandes grupos, por causa de inúmeras desavenças entre seus integrantes. Um dos grupos deu continuidade à marcha em direção ao norte, chegando até o Pará, e o outro, coordenado por Bartolomeu, se dirigiu mais para o sul, rumo às margens do Rio Vermelho, onde deixou “[...] cinco ribeiros descobertos, todos com ouro, que prometem haver muito mais [...]” 58, e seguiu viagem
de retorno a São Paulo, em 1725.
51 Resposta do Rei D. João V ao pedido de licença dos bandeirantes, 14/02/ 1721. In: FERREIRA, Manuel Rodrigues. O mistério do ouro dos
martírios. São Paulo: Gráfica Biblos, 1960, pp. 50-51.
52 SOUZA, Silva e. Op. Cit., p. 74.
53 Sobre o offerecimento de Bartholomeu Bueno e outros para descobrir as minas de ouro de Goyaz.
54 “A viagem de Anhangüera no atual território paulista é precariamente identificável no relatório de Silva Braga: de São Paulo Capital a Jundiaí,
à passagem do Atibaia – o qual confunde com o Mogi –, ao Jaguari, ao Mogi-Guaçu na passagem de Itapira a ao Jaguari-Mirm, abaixo de Santa Cruz das Palmeiras. A partir daqui torna-se lacônico o relato, levando de sete a oito dias para atingir-se o Rio Grande, sempre dormindo a expedição junto a córregos e rios não nomeados . Devem ter atravessado o Rio Grande na direção de Uberaba e estiveram acampados junto ao Rio Uberaba. Dali a próxima referência é de um rio das Velhas [...] ‘que entra no rio Grande’. Ora, o atual Rio das Velhas, ou Araguari, verte suas águas no Paranaíba – que Silva Braga denomina de Meia Ponte – e passa muito a Leste para interessar a viajantes que se dirigem a Noroeste. Como já se equivocara anteriormente em relação ao Atibaia e ao Mogi, Silva Braga deve ter-se confundido com o Rio das Velhas [...]” BERTRAN, Paulo. Op. Cit. p.66.
55Relato de Silva Braga. A bandeira do Anhanguera II. In: BERTRAN, Paulo. Op. Cit., p. 72.
56 A historiografia de Goiás apresenta outras versões desse itinerário, baseadas em outros relatos. Mas, ao que se observa, o documento de maior
importância é o de Silva Braga.
57 Relato de Silva Braga. A bandeira do Anhanguera II. In: BERTRAN Paulo. Op. Cit., p. 66.
58 Carta do governador D. Rodrigo César de Menezes ao Rei de Portugal, 07/05/1726. In: FERREIRA, Manuel Rodrigues. O mistério do ouro dos
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No ano seguinte, o bandeirante, acompanhado dos engenheiros sargento-mor Manoel de Barros59 e Manoel Pinto Guedes 60, se prepara para uma outra expedição, visando dar início à explo-
ração das minas e à formação dos inúmeros arraiais que ajudaram no processo de ocupação do território. Para essa segunda empreitada, a Coroa mandou
[...] tropas reforçadas, fazendo que a elas se sigam outras para melhor penetrar naquele sertão e resistirem ao gentio, que é bastante, e eu espero com a minha assistência no Cuiabá não extinguindo a multidão deles, mas abrir de umas para outras minas, de que se seguirá muita utilidade à Real Fazenda de Vossa Magestade [...] 61.
A notícia sobre os achados goianos espalhou-se rapidamente, ressoando a longas distâncias e estimulando várias pessoas a deixarem suas terras para percorrer os caminhos em busca do Eldorado, tal como diz Antonil:
[...] Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos, pretos e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas; homens e mulheres; moços e velhos; pobres e ricos; nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento nem casa [...] 62.
Com toda essa multidão adentrando a região, a Corte portuguesa pôde assegurar a sua expan- são e a posse sobre as terras mais centrais do Novo Mundo, auxiliada pelos conhecimentos míticos e cartográficos, pois fantasia e realidade caminhavam lado a lado. Esse era o sertão merecido e destinado aos conquistadores; dele, Bartolomeu Bueno da Silva e tantos outros esperavam obter os prêmios pela conquista, receber as benesses do poder de alcançar o sonho da riqueza. Aqui seria mais um novo Eldorado, mais um Paraíso...
Ao longo do século XVII e início do XVIII, a idéia paradisíaca foi uma importante orien- tação para as inúmeras expedições que buscaram em Goiás “tesouros na abundância de ouro, e diaman- tes e outras pedras preciosas que tem inundado a Europa”. As riquezas desse território, bem como a da mítica Lagoa Paraupava, prometiam “a fertilidade do Paiz”, mesmo que para isso o colonizador tivesse de enfrentar
[...] a grande quantidade de caudalosos rios que vadearam, as incomodidades de viajar por sertões a pé, sem abrigos, mal vestidos, expostos ao sol, chuvas, sereno, frios e fomes, os perigos das serpentes venenosas, onças e outros animais, de que alguns acabaram a vida, são trabalhos que bem superados parecem superam as forças da natureza e causam horror aos mais intrépidos 63.
59 Segundo Salles, esse engenheiro era tido como conhecedor de prospecções de minas. SALLES, Gilka V. F. Op. Cit., p. 62.
60 SOUZA, Silva e. O descobrimento, governo, população, e cousas mais notáveis da Capitania de Goiás, 1849. In: TELES, José Mendonça. Vida
e obra de Silva e Souza. Goiânia: UFG, 1998. p. 77.
61 Carta do governador D. Rodrigo César de Menezes ao Rei de Portugal, 07.05.1726. In: FERREIRA, Manuel Rodrigues. O mistério do ouro dos
martírios. São Paulo: Gráfica Biblos, 1960, p. 59-60.
62 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil: por suas drogas e minas. Rio de Janeiro: IBGE, Conselho Nacional de Geografia, 1963, p. 72. 63 BERTRAN, Paulo. (org.). Notícia geral da capitania de Goiás. v 1. Goiânia/ Brasília: Solo Editores, 1997. p. 47.
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Com o início do processo de ocupação, passa-se do deslumbramento às dúvidas sobre as potencialidades e a natureza do lugar. Depois, à medida que o tempo avançava com mais expedições e descobertas, a realidade do território goiano enfraqueceu o imaginário paradisíaco. Mostrou suas características reais: era rico em outros minérios que se espalhavam por toda a Capitania, mas não possuía tanto ouro como o mito sugeria. O território era de “iguais grandezas aos de Cuiabá com a mesma permanência e com alguma vantagem, por não serem os ares tão contagiosos” 64.
Além dessas riquezas iguais às de Cuiabá, o Goiás setecentista também revelou um outro tesouro: a natureza que motivou interpretações pródigas e cheias de admiração, como esta: “[...] grande mata que lhe chamam Mato Grosso, que é de admirar neste paiz, onde é tudo campo ou mato carrasquenho que chamam caatinga” 65. Essa atitude diante do natural até então desconhecido perdurou até o início
do Oitocentos, conforme o relato de Silva e Souza, de 184966. Embora o território já estivesse
bastante devassado, a expectativa do tesouro ainda permanecia para os lugares “intactos”, mesmo sendo ela menos intensa e vigorosa, como se lê:
[...] o seu terreno em partes montanhoso, em partes plano, abunda de matas e campinas [...] Tem montes ricos de ouro, ainda intactos, minas preciosas só lavradas na superfície da terra, rios piscosos e que se podem navegar, salmas que mal se aproveitam: é finalmente toda a capitania cortada da mesma cordilheira de serras, que erguendo-se na costa do mar brazilico, depois de atravessar com differentes nomes outras províncias, entra por esta, e dominando sobre todas as terras do contorno no logar dos Pyreneos, junto ao Arraial de Meia Ponte, desentranha os rios que vão ao Paragauy, Grão Pará e sertões de S. Francisco: corre a Mato Grosso, entra pelos domínios dos espanhóis, e se inclina para o mar Pacífico [...] 67.
Mas, em substituição às promessas edênicas, havia “umas pedras pretas que se acham à flor da terra com aparências de escorralhas de ferro, a que os naturais chamam Tapanhuacanga”68, os pequenos e brilhantes
diamantes vermelhos, verde-esmeralda, branco-acinzentado, amarelos e esverdeados que brotavam de modo irregular e ocasional em toda a região dos rios Claro e Pilões 69. Havia também os “lagos
salgados do norte, onde ultimamente também se acharam madrepérolas” 70, localizados na margem oriental do
Rio Crixás, afluente do Araguaia. O sal foi um dos tesouros da terra, embora suas qualidades não se relacionassem mais àquela do mito. Em Goiás, ele se “reedenizou”, como em toda a colônia, e para obtê-lo havia que se contar com as mãos dos homens, segundo a “atividade colonizadora” 71.
64 Correspondência de Rodrigo César de Menezes de 1725 In: ALENCASTRE, José Martins Pereira de. Anais da província de Goiás. Goiânia:
Convênio SUDECO/ Governo de Goiás, 1979. p. 39.
65 BERTRAN, Paulo (org.). Op. Cit., p. 81.
66 SOUZA, Silva e. O descobrimento, governo, população, e cousas mais notáveis da Capitania de Goiás, 1849. In: TELES, José Mendonça. Vida
e obra de Silva e Souza. Goiânia: UFG, 1998. p. 72.
67 SOUZA, Silva e.O descobrimento, governo, população, e cousas mais notáveis da Capitania de Goyaz. In: TELES, José Mendonça. Op. Cit., p. 72. 68 “Descrição das Serras do Rio Vermelho e dos braços da Caxoeira abaixo desta Villa, até a Barra do Rio Fort. onde principia a Freguesia da
Anta: Das couzas mais notáveis”. In: BERTRAN, Paulo. (org.) Notícia geral da Capitania de Goiás em 1783. V 1. Goiânia/ Brasília: UCG, UFG, Solo Editores, 1997, p. 120
69 SALLES, Gilka V. F. de. Economia e escravidão na capitania de Goiás. Coleção Documentos Goianos. Goiânia: CEGRAF/ UFG, 1992, p. 96. 70 POHL, J. E. Viagem no interior do Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1951, p. 317-318.
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E não era só esse produto que demandava tanto esforço. As agruras do clima e as dificuldades de toda ordem, em especial na agricultura, apresentavam-se como uma realidade que se opunha ao sonho do paraíso, ao sonho de Paraupava. Agora, seriam necessários o trabalho e o suor dos colonos. Na descrição geográfica do território, do arraial e da freguesia da Anta, de 1783 72, região próxima a
Vila Boa, pode-se observar com clareza como eles se sentiram diante dessa outra realidade:
[...] esta terra é quente. Os matos largam a maior parte das folhas e sucede a maior parte dos anos, não haver uma só trovoada em toda a seca, o que não sucede nas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e outras terras, que sempre há chuvas. E quando não haja da páscoa para diante, há librina [neblina], que quando vem aparecer o sol, são oito horas e às vexes nove, e por esta causa não desfolham tanto os matos. Também por serem [lá] as árvores mais altas, conservam-se as terras mais frescas, de sorte que quando se queimam as roças, não se queimam os matos, o que não sucede cá pelas razões ponderadas, em que entram os fogos e abrasam os matos, como sucedeu em 63, que houve um fogo tão geral que durou quatro meses, e no ano em que veio o Sr. José de Almeida (1772) sucedeu o mesmo, e não só os matos, como nas capoeiras, por cuja causa consomem-se as sustância (sic) da terra.
As más condições climáticas e as grandes queimadas narradas nesse texto não foram, entre- tanto, motivos suficientes para que o espectador dessas dificuldades deixasse de buscar a supera- ção do quadro. A terra ainda ofereceu uma alternativa: o plantio em condições especiais, com “[...] roças feitas em matos virgens,” sendo necessário, porém, “duas limpas, antes de plantar e ao depois. Isto sucede pelos fogos entrarem nestes [nas terras de Goiás] e não entrarem naqueles [nas de São Paulo], e para provas destes não terem as sustâncias daqueles”. Dessa forma, plantando-se “[...] uma roça, queimando [- a] bem e correndo o tempo [...] 73”, os colonizadores garantiram sua sobrevivência, lidando com a situa-
ção e enviando esforços que, até então, pareciam ser insuficientes diante das dificuldades enfren- tadas para o cultivo dessas terras.
Para além dos aspectos edênicos da natureza de Goiás e das revelações de suas potencialidades concretas, como a abundância do peixe, da cera, do mel74 e dos “olhos d’água” – o “verdadeiro
tesouro oculto [que] existiu durante muito tempo no campo dos Parecis, que atravessava a estrada para Vila Boa de Goiás, e que matava a sede dos sequiosos viajantes”75 –, nessa mesma terra onde outrora erguiam-se
“as grandes montanhas de ouro e caudalosas lagoas e rios navegáveis”76, uma outra percepção da paisagem
goiana se fortaleceu. Em O diabo e a terra de Santa Cruz, Souza77 afirma que a cultura do período era
formada por visões diametralmente opostas: uma delas revelava o aspecto edênico da natureza e a outra, as dimensões detratoras das suas qualidades, sempre enfatizando suas características negativas.
72 Descrição geográfica do território do arraial e freguesia da Anta em 1783. In: BERTRAN, Paulo (org.). Notícia geral da capitania de Goiás. V 1.
Goiânia/ Brasília: Solo Editores, 1997. p. 138
73 BERTRAN, Paulo (org.). Op. cit., p. 138.
74 Sobre esse assunto ler o capítulo “A cera e o mel”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras,
1994, p. 50.
75 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 37. 76 BERTRAN, Paulo. Notícia geral da capitania de Goiás. v 1. Goiânia/ Brasília: Solo Editores, 1997. p. 47 77 SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 42.
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Assim, afirmava-se que em Goiás “os perigos das serpentes venenosas, onças e outros animais, de que alguns acabaram a vida [...]” 78, e infundia-se os temores de lugares fantásticos, como aquele onde “residem
muitos monstros aquáticos, como sucuriz, jacaré e minhocões prodigiosos, de extraordinária grandeza, que tragam um cavalo ou um boi [...]” 79; ou um outro próximo à estrada de São Felix, que abriga “uma Tromba de
pedreira negra e uma concavidade por ela abaixo, que o pavor não se faz averiguar a sua profundidade” 80 .
Os aspectos negativos dos ventos, dos rios e do sol também acabaram por influir na saúde das