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Dizer que Machado de Assis foi um homem das letras é um clichê, mas não é uma inverdade. E essa designação é mais naturalmente empregada devido à grandeza da produção literária do autor, consagrada através do tempo. O que pode ser surpreendente é que suas cartas pessoais também corroboram com a mitificação do escritor como grande nome das letras nacionais.

Isso porque sua correspondência pessoal, invariavelmente, gira em torno da literatura, de modo que a figura de Machado parece personificá-la. Esses escritos apresentam referências a livros, revistas, jornais e artigos; confissões de leituras; citações; algumas concepções literárias; além de ter, é claro, a partir de 1897, a Academia Brasileira de Letras no centro de suas preocupações. Nesse sentido, pode-se afirmar que sua correspondência ganha ainda mais interesse para a historiografia literária brasileira.

Os ―diálogos‖ estabelecidos nas cartas machadianas mostram um autor cuja temática é a literatura ou sua variante na época – o jornalismo, com as crônicas, as críticas literárias ou a correspondência (como explicada anteriormente: o escrito de um correspondente fora do país). As referências à literatura permeiam todo o discurso epistolar. As letras parecem

resumir a vida de Machado de Assis. Mesmo quando a temática recai sobre problemas financeiros ou de saúde, ou ainda a velhice, a literatura se faz presente. Pode até parecer óbvia essa constatação, visto que uma das atividades profissionais desenvolvidas por Machado era o jornalismo, diretamente associado à literatura. Mas não é menos surpreendente o fato, pois poderia se visualizar nas cartas temas variados, como a política, a religião, a família, a economia, problemas pessoais etc.. Mas, não. Definitivamente, Machado de Assis era um homem das letras. Quando elencamos as recorrências temáticas – velhice e enfermidades, solidão, espírito associativo, crítica-amiga etc. – não mencionamos as referências literárias por entender que elas constituem o próprio discurso epistolar, a razão de ser do texto machadiano. Os incômodos da velhice impediam-no de escrever; as doenças prejudicavam as leituras; e as referências à Academia e às críticas literárias, por si só, estão associadas às letras, de modo que, quando Machado se referia a qualquer temática, não fugia da realidade literária que lhe moldou a vida. Reiterando o que já foi dito em capítulo anterior por insinuação de Josué Montello (s/d), Machado escrevia suas cartas como se fossem crônicas.

Mesmo em cartas certamente íntimas, há referências literárias. Nas duas cartas (uma completa, outra não) destinadas à Carolina, que ainda não era sua esposa na época, estão presentes metáforas associadas à narrativa, citação de livro e autor, mostrando uma visão de mundo enraizada em leituras.

Na primeira dessas cartas, Machado, galanteando a noiva, comenta sobre seus amores e, obviamente, a supremacia do amor de Carolina. Para isso, usa uma linguagem cheia de elementos das letras: capítulos, romance, página, resumo:

A minha história passada do coração, resume-se em dous capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo. Não me acuses por isso; há situações que se não prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou- me, com os seus conselhos, a rasgar a página desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso. Eis tudo. / A tua pergunta natural é esta: Qual destes dous capítulos era o da Corina? Curiosa! Era o primeiro. O que te afirmo é que dos dois o mais amado foi o segundo. / Mas nem o primeiro nem o segundo se parecem nada com o terceiro e último capítulo do meu coração. Diz a Stäel que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessas, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. (ASSIS, 1986, p. 1029) (grifos nossos)

A visão de mundo de Machado, sem dúvida, estava permeada por suas leituras, pois, até em carta íntima, aproveitava-se de uma citação de Madame de Stäel (1766-1817), escritora francesa. Além disso, criou metáforas para o seu próprio passado amoroso.

A segunda carta a Carolina também confirma o nosso homem de letras. Machado indica uma leitura à noiva: o livro ―A família‖, afirmando que deveriam ter esta obra em casa como uma Bíblia:

Dizes que, quando lês algum livro, ouves unicamente as minhas palavras, e que eu te apareço em tudo e em toda a parte? É então certo que eu ocupo o teu pensamento e a tua vida? Já mo disseste tanta vez, e eu sempre a perguntar-te a mesma cousa, tamanha me parece esta felicidade. Pois, olha; eu queria que lesses um livro que eu acabei de ler há dias; intitula-se: A Família. Hei de comprar um exemplar para lermos em nossa casa como uma espécie Bíblia Sagrada. É um livro sério, elevado e profundo; a simples leitura dá vontade de casar. (ASSIS, 1986, p. 1030)

Segundo diz a carta, a própria Carolina já teria notado a intelectualidade de Machado. Ele afirma que as próprias leituras da noiva o lembrariam e é, nesse momento, que sugere a leitura de A família, caracterizando o livro como ―sério, elevado e profundo‖ e que ―sua simples leitura dá vontade de casar‖15.

Se para Carolina, futura esposa, Machado, em suas cartas, fazia referência a livros ou escrevia com alusões literárias, com seus outros destinatários, as letras vão ocupar espaços ainda mais privilegiados.

Nesse sentido, ao longo das cartas, há uma série de citações e referências a leituras. Ressalte-se que estamos nos referindo, agora, exclusivamente às cartas particulares, ou seja, àquelas que não foram escritas com o propósito inicial de publicação nos jornais como crítica literária.

Como visto no tópico da crítica-amiga, algumas das leituras da época aconteciam dentro do próprio círculo de amizades: lia-se o que o outro escrevia – livros ou artigos. Assim, vários periódicos são mencionados: Revista Brasileira (comandada por José Veríssimo), Novo

Mundo (periódico produzido nos Estados Unidos, tendo a frente J. C. Rodrigues), Jornal do Comércio, Revista Moderna (onde Azeredo escreveu críticas literárias sobre Machado), Gazeta de Notícias, O Globo, para indicar os mais citados. Livros e poemas dos próprios

destinatários ou de colegas também são recorrentemente mencionados. Autores amigos, como Coelho Neto, Olavo Bilac, Magalhães de Azeredo, Graça Aranha, Lúcio de Mendonça, Joaquim Nabuco, entre outros, figuram na lista de citações, leituras e elogios presentes na

15 Em A Biblioteca de Machado de Assis, indica-se que A família é a mais remota referência à aquisição de um

livro nos escritos do autor, não se dando maiores informações sobre a obra (VIANNA in JOBIM, 2001, p. 112). Poderia-se pensar no drama de mesmo título escrito por Quintino Bocaiúva, publicado em 1866 (COUTINHO e SOUSA, 2001, V. 1, p. 361). Porém, segundo Rafael Pereira, em reportagem da Revista Época, de 29 de setembro de 2008, trata-se de A família – A mãe, de Eugène Pelletan, um estudo sobre como a mulher poderia

conquistar postos políticos no futuro. Seria um dos livros que influenciaram o autor e que se encontra guardado na biblioteca da ABL.

epistolografia machadiana. Nomes de poemas e contos dos amigos são ditos como comprovação da leitura do remetente. As críticas de José Veríssimo são também recorrentemente mencionadas, além de discursos dos colegas acadêmicos.

Não era incomum Machado de Assis citar, nas cartas, passagens de outros autores. Como já indicado, por exemplo, Madame de Stäel, que é novamente citada em carta de 31 de dezembro de 1898, enviada a José Veríssimo, no momento em que Machado pergunta sobre alguns amigos: ―Como vai o Paulo? E o Graça? e os outros? Como vai o ruisseau de la rue du

Bac, como diria Madame Stäel?‖ (ASSIS, 1986, p. 1.044).

Renan, La Palisse e Flaubert foram outros autores franceses citados nas cartas machadianas. Quando aconselhou Magalhães de Azeredo, Machado disse: ―Renan diz que as verdades banaes são as eternas, e nada mais verdadeiro e eterno que aconselhar o trabalho à mocidade‖ (ASSIS, 1969, p. 24-5) (mantida a grafia original). Em outra ocasião, referindo-se ao cansaço e à idade, afirmou: ―não trabalho ás noites, e ponha o remate dos annos, cujo pezo cresce à medida que se acumulam, como diria La Palisse‖ (ASSIS, 1969, p. 252) (mantida a grafia original). Em carta a Veríssimo, de 18 de fevereiro de 1902, cita Flaubert, em meio a uma série de elogios a um escrito do amigo.

Comentando sobre o calor que fazia no Rio de Janeiro, Machado cita um poeta brasileiro ultra-romântico: ―nunca pude entender o verso de Álvares de Azevedo: ‗Sou filho do calor, odeio o frio‘. Não odeio o frio, adoro-o, este daqui, ao menos, que é apenas uma fresca e deliciosa primavera‖ (ASSIS, 1969, p. 24).

Na carta de dois de fevereiro de 1895, novamente a Magalhães de Azeredo, há uma referência ao episódio da história de Israel, narrada na Bíblia, por ocasião do cativeiro babilônico. O autor de Esaú e Jacó incentivava o amigo, que estava longe da pátria, a escrever: ―Os captivos de Israel penduravam as cytharas nos salgueiros dos rios de Babylonia, mas bebiam a agua, por não haver outra. Faça melhor que elles; não pendure o instrumento da poesia, e cante-nos, ainda que longe de Syão, o que a sua alma de moço lhe inspirar‖ (ASSIS, 1969, p. 33) (mantida a grafia original).

Em carta de 25 de abril de 1897, há uma série de referências a autores, que indicam, naturalmente, as leituras de Machado:

Roma e Grecia não perdem o seu grande prestigio, por mais que hajam fatigado alguma vez. Qui nous delivrera des Grecs et des Romains? diriam um dia. Mas nos fins do outro seculo, Chernier mettia os gregos em bellos versos, seguindo-se Chateaubriand, que os mettia em bella prosa. [...]

[...] Não sei o que serão hoje essa Veneza e essa Verona, que trouxeram para o finado romantismo a immortalidade de Shylock e de Julieta e Romeu. Sei o que

Byron ainda pôde achar nas aguas do Lido e o que Sthendal contou de Milão, sem esquecer os versos de Musset e de tantos outros. (ASSIS, 1969, p. 109)

Musset é novamente citado nas cartas a Azeredo, de 21 de julho de 1897 e de cinco de novembro de 1900, e Stendhal, em carta de sete de novembro de 1899. E o quarteto – Mme. de Stäel, Byron, Stendhal e Musset – mencionados em carta de sete de dezembro de 1897, quando Machado transcreve uma estrofe completa do último autor. Em outras ocasiões, Machado de Assis comenta que começou a ler a Ilustre Casa de Ramires, livro do português Eça de Queiroz (ASSIS, 1969, p. 137), questiona o amigo Azeredo se ele já havia lido Pais e

filhos, de Ivan Turgueniev (ASSIS, 1969, p. 138) e cita Camões: ―A história repete-se; é outra vez a austera, apagada e vil tristeza do tempo de Camões; é essa rudeza que faz esquecer a vida do grande homem‖ (ASSIS, 1969, p. 181). Para o mesmo destinatário, em carta de 25 de dezembro de 1898, refere-se a Schopenhauer, Hartmann, Voltaire e confessa: ―Leopardi é um dos santos da minha igreja, pelos versos, pela philosophia, e pode ser que por alguma afinação moral; é provavel que tambem eu tenha a minha corcundinha‖ (ASSIS, 1969, p. 162) (mantida a grafia original).

Reforçando uma espécie de preferência nas leituras e também adequação ao que costumeiramente escrevia na correspondência com Azeredo – sempre falavam sobre a Itália –, Machado novamente cita autores de seu gosto: ―No meu tempo de rapaz, a Italia era sonho commum, por cousa de Byron, Musset e Alvares de Azevedo. Ainda agora dou commigo a repetir os versos de Musset ao ‗irmão que voltava da Italia‘, onde ha, entre tantas estrophes deliciosas, aquella que alude a Stendhal‖ (ASSIS, 1969, p. 213) (mantida a grafia original).

Em carta a Veríssimo, de 21 de março de 1900, há a sugestão da leitura de

Ressurreição, de Tolstói. Tasso Fragoso havia emprestado a Machado o primeiro tomo. Em

outras ocasiões, afirma ao amigo crítico: ―Recebi e estou lendo o Herod‖ (ASSIS, 1986, p. 1.056); ―Já recebi e já li Canaã; é realmente um livro soberbo e uma estréia de mestre. Tem idéias, verdade e poesia; paira alto‖ (ASSIS, 1986, p. 1.060).

Camões é novamente citado, ao se referir à velhice e à passagem do tempo:

Eu aqui indo, como posso, emendando o nosso Camões, naquela estrofe: Há pouco que passar até outono...

Vão os anos descendo, e já de estio.

Ponho outono onde é estio, e inverno onde é outono, e isto mesmo é vaidade, porque o inverno já cá está de todo. (ASSIS, 1986, p. 1.076)

Em carta de 30 de julho de 1908, Machado diz ao amigo Mário de Alencar que releu o próprio livro A mão e a luva (ASSIS, 1986, p. 1.091). Nos últimos dias de vida, já licenciado,

repousando em casa, passava os dias jogando paciência e... lendo: ―Estou passando a noite a jogar paciências; o dia, passei-o a reler a Oração Sobre a Acrópole, e um livro de Schopenhauer‖ (ASSIS, 1986, p. 1.093). Um livro de Schopenhauer, lido nos últimos dias de vida, não é nenhum pouco estranho para quem era considerado pessimista. Para completar, em outra carta para Mário de Alencar, datada de 29 de agosto de 1908, exatamente um mês antes de morrer, diz: ―Meu querido amigo, hoje à tarde, reli uma página da biografia do Flaubert; achei a mesma solidão e tristeza e até o mesmo mal, como sabe, o outro...‖ (ASSIS, 1986, p. 1.094). O mesmo mal, o outro, segundo os biógrafos, era a epilepsia que Flaubert, Alencar e Machado sofreram.

Em suma, as cartas pessoais de Machado de Assis, recheadas de citações e indicações de leituras, insinuam que o autor, em tudo que fazia tinha uma relação direta com a literatura, como que personificando as letras.