3 Teknologi og anvendelse
3.2 Forbrenning av trevirke
A palavra recalcada está intimamente vinculada à violência e à dor. Não se fala o que dói e a violência silencia.
Berlinck e Rodrigues (1987)
Takeuti (2002) nos relata que presenciou em seu estudo, reiteradamente, as expressões de raiva, ressentimento, ódio e mágoa nos adolescentes ao se perceberem como “delinquente perigoso” (ao que a autora chama de “identidade virtual de delinquente perigoso”) aos olhos dos outros. “A violência não é só física, é aquela que discrimina”, dizia um jovem, manifestando a vergonha de si e o sentimento de humilhação, ao mesmo tempo em que expressava o desejo de “vingança”. “Sou humilhado! Quero ser o melhor para humilhar quem me humilhou”. Mas quem o humilhou e de quem quer se vingar? Para a autora, não há um sujeito definido. A dificuldade do jovem em fazer face ao sofrimento é que não há um sujeito perverso identificado, mas uma sociedade perversa que o discrimina e proscreve.
Então, surgem sentimentos de revolta e uma vontade de mudar “na marra” essa situação que os remete à condição de desqualificados sociais. Esses sentimentos, em muitos momentos, encontram-se misturados ao medo da violência física à qual estão mais facilmente expostos e que vem aniquilar seu corpo; também, o medo da violência
social que desestrutura a sua mente. Configuram-se uma gama de sentimentos confusos e de difícil compreensão, por parte deles próprios: ora sentem-se indignados e revoltados contra uma sociedade injusta, ora sentem-se humilhados, envergonhados, e até culpados em ocupar esse lugar que não lhes permite estar à altura de um reconhecimento social.
É importante salientar que boa parte dos jovens procura não se situar como “vítimas resignadas” num sistema social perverso. Ao contrário, é na rua e nos embates que a rua traz que aprenderão a retirar os “suprimentos” necessários para a sua vida – não só material mas, sobretudo, emocional.
Nas palavras da autora,
há em jovens como ele, que assumem a identidade delinquente, o sentimento de constituir-se em um sujeito de ação num ambiente de agressividade, riscos, confrontos e conflitos. A violência, o ódio e o desprezo passam a ser considerados como substâncias naturais da vida desses jovens, além de princípios norteadores de suas relações com as pessoas da sociedade. (TAKEUTI, 2002, p. 233).
Complementa a autora: “no momento em que só lhes resta essa forma de expressão pulsional, malogra a possibilidade de construção de uma subjetividade que não se resuma à submersão das emoções puras (cólera, raiva, ódio)” (TAKEUTI, 2002, p. 234).
Nesse referencial, os actings outs (fugir de casa, roubar, furtar, assaltar, consumir drogas, agir de modo provocador, entre outras condutas “auto e/ou hetero- agressivas”)
revelam os apelos dos jovens, traduzidos por suas posturas irreverentes, agressivas e transgressoras, assumidas por eles próprios, e inscritas plenamente na produção do imaginário social que denominamos como “perverso” . Eles não se constituem em meros objetos passivos de um discurso social perverso, mas sim em coprodutores desse imaginário que os aniquila. Eles são, igualmente, a parte ativa de uma construção social que, finalmente, os determina para uma vida de proscritos. (TAKEUTI, 2002, p. 238).
Para Gaulejac (2006), a busca do reconhecimento não se dá apenas no plano afetivo e social, ela toca uma aspiração profunda “que consiste em querer existir por si mesmo, sem estar, tanto quanto possível, submetido nem ao desejo do outro, nem aos mecanismos de reprodução social” (TAKEUTI, 2002, p. 15).
Na trajetória que fez junto aos jovens mais empobrecidos, percebeu que estes caem em uma contradição entre o que lhes é necessário para se adaptarem ao seu ambiente social e o que lhes é necessário ser para estarem conformes às regras da sociedade. A violência, o ilegalismo, a droga e a recusa de autoridade são meios de escapar à miséria, à dominação e à desesperança em que vivem. Tais vivências acabam por levá-los a internalizar uma imagem negativa de si que vai minando a revolta e sua capacidade de ação. A fala “É a vergonha!” surgiu continuamente em seu percurso profissional. Relata o pesquisador: “encontrei desde então este problema em todas as pessoas anuladas em virtude do seu estatuto, em todos aqueles que estão em posição dominada” (TAKEUTI, 2002, p. 16).
Lemos no autor:
[...] vergonha é um sentimento doloroso e sensível sobre o qual é preferível não falar. Ele engendra o silêncio, o fechamento em si até a inibição. [...] Quando se é habitado pela vergonha, sentimo-nos inúteis, incompreendidos, desvalorizados e sozinhos. Procuramos dissimulá- la a qualquer preço. [...] Pensamos que ela não serve para nada, que nossa existência é vazia e sem interesse. O silêncio e o fechamento em si são os sintomas desse sentimento que mistura impotência e perda de confiança. (TAKEUTI, 2002, p. 17).
Ressaltamos nos relatos de Gaulejac (2006) o sentimento de vergonha como um elemento constitutivo do vínculo social, as reações defensivas e seus efeitos: o orgulho, o alcoolismo e o segredo como meios de conviver com ela, bem como a soberba como manifestação de seu contraveneno.
Na análise sobre a vergonha, contata-se uma interligação de questões afetivas, sexuais, emocionais e sociais, produzindo “nós de angústia, desejos, afetos e sentimentos que neutralizam as possibilidades de expressão e de comunicação e prendem os sujeitos em conflitos psicológicos internos” (GAULEJAC, 2006, p. 54). É o conjunto da existência que é “contaminado” pela vergonha.
Embora a diversidade de elementos, algumas características são comuns: a) a ilegitimidade: a existência do sujeito é recusada;
b) o enfraquecimento parental: mais frequentemente do lado paterno mas o desmoronamento da imagem parental idealizada é constante;
c) a inferioridade: sentimento de ser diferente dos outros: ser menor, mais pobre, mais imperfeito que remete ao seu contrário, ser mais rico, ser maior;
d) a violência. Violência física, às vezes; violência simbólica, com frequência; violência das relações familiares e psicológicas, sempre. O sujeito enfrenta uma anulação fundamental;
e) o dilaceramento: ocorrem contradições que o sujeito não encontra mediações satisfatórias;
f) a decadência, em sua face privada e pública, deixando o sujeito especialmente sensível ás situações de poder e dominação;
g) o não-dito: ela se instala pela indizível, pelo silêncio;
h) a inibição: o sujeito teme todas as situações que poderiam reavivar sua ferida.
Sua complexidade demonstra como podem ser paradoxais os relatos sobre a vergonha, “produto de diversas violências humilhantes e se compõe de sentimentos variados, raiva, culpa, amor, ódio, cólera, agressividade, medo etc. que fazem dela um ‘meta-sentimento’, ou seja, um conglomerado de emoções afetos, sensações ligadas uns aos outros” (GAULEJAC,2006,p. 61).
Nesse contexto, para o autor, uma das formas de intervenção possível dar-se- á por meio do retorno sobre si à luz dos processos sociais, econômicos, ideológicos e culturais; os indivíduos poderiam mudar a relação com sua própria história numa tentativa de tornarem-se sujeitos autônomos, colocando-se em busca da elucidação do seu desejo, de forma a modificar o seu funcionamento.
Segundo Gaulejac (2001), há um desafio que aí se coloca,
[...] em aceitar a contradição como um elemento de sua prática existencial, em renunciar à ilusão do sujeito livre que espera de um trabalho pessoal o meio de resolução de todos os seus problemas e em renunciar, igualmente, à ilusão que a “salvação” pode advir de uma mudança socioeconômica, uma transformação através da qual produzir-se-á inelutavelmente um “destino” menos problemático. (GAULEJAC, 2001, p. 114).
Sem dúvida, um enorme desafio para pessoas que vivem num mundo onde vigora o imediatismo, em especial quando estão submersos no sofrimento e nos conflitos das mais diversas ordens.