• No results found

O trazer à luz a forma como Foucault desconstrói Hobbes, permitiu compreender uma forma de abrir espaço para uma complexificação do pensamento sobre a política, sobre o poder, deslocando a questão jurídica da soberania para um espaço de multiplicidade221. Não se pretende uma discussão aprofundada das teses, mas apenas identificar essa passagem222, esse deslocamento fundamental do problema. Escasso, certamente, face à enorme extensão223 e necessária ramificação224 que a obra de Foucault produz. Seria necessário percorrer esses túneis, todas essas ligações, que aqui ficará por fazer. A relação a essa vertigem do médico-político225, à Bio-ciência, bio-ética, a todos os desenvolvimentos dispositivo-tecnológicos do panóptico, bem como a noções chave como governamentalidade226, enfim, todas as ligações que nos permitem ver que estamos a arranhar

apenas a superfície. Talvez por isso a opção em relação a toda uma circunscrição, que tem como principal objectivo apontar essa passagem227 da soberania à anatomo e biopolítica, ao carácter

218

Sendo de referir que a análise não terá aqui contornos económico-políticos. 219 Enquanto biologia, e enquanto política entendida como vida em comum.

220 “Os ideais do homo faber, fabricante de mundo, que são a permanência, a estabilidade e a durabilidade,

foram sacrificados em benefício da abundância, que é o ideal do animal laborans”, Arendt, H., A condição Humana,

Ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2007, p. 138

221 “ Toda a filosofia de Foucault é uma pragmática do múltiplo”, Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 115

222

A biopolítica como marca do início da modernidade, enquanto passagem da política a um foco na vida biológica, e subsequentes desenvolvimentos e mutações do próprio conceito. Castro, E., Biopolítica: de la soberanía al gobierno, In http://www.scielo.org.ar/scielo.php?pid=S1852-73532008000200001&script=sci_arttext

223 Trata-se aqui de assinalar a dificuldade formal no estabelecimento das categorias de análise, na passagem das

categorias clássicas fixas, a uma categoria difusa, porém simultaneamente específica, como a de biopolítica. Assim, é necessário assinalar a dificuldade hermenêutica também por relação ao problema histórico-autoral (das várias

referências espalhadas na obra de Foucault), que constituem o problema do estabelecimento de uma unidade estável do conceito. Por outro lado, o seu carácter concomitante e transbordante favorece o estabelecimento de um movimento multilinear na consituição de pares de análise múltiplos e reconducentes uns aos outros (circularidade e remissibilidade contínua), numa envolvência do estabelecimento de um diagrama sempre reconstituível e com vários acessos. Dir-se-ia, um provável labirinto Foucauldiano.

224

Na compreensão do pensamento de Foucault como devir exposto, propomos a fixação da interpretação de biopolítica à luz da noção de torção, como mecanismo de uma arte das passagens, que se poderia estruturar em: 1ª torção: corpo-espaço; 2ª torção: corpo-máquina; 3ª torção: corpo-espécie.

225 Por relação a Rabinow ou a Esposito por exemplo.

226 Governamentalidade enquanto a racionalidade das práticas de governação ligadas a uma economia política.

Foucault, M., Dits et écrits II, 1976-1988, Éditions Gallimard, Paris, 2001, p. 655

227

31 diagramático228 do poder, explicitação da forma como o pensamento de Foucault se torna incontornável para o pensamento político contemporâneo, abertura para a construção de uma microfísica do poder. A instauração do novo paradigma do político entendido enquanto biopolítica229, conta em Foucault com uma inversão e deslocamento. Em que consiste esta operação que Foucault vai propor relativamente a um espaço hegemónico do pensamento político-jurídico, fundacional do problema do poder? Que consequências resultam do facto de Foucault enunciar a necessidade de superação dessa concepção do poder? Em primeiro lugar, e como referido anteriormente, a confrontação e a explicitação da posição Hobbesiana não é propriamente um acaso discursivo. Trata-se de remover uma leitura obstaculizante e redutora do fenómeno, ou seja, o movimento é precisamente o contrário, não-cristalino, relacional, não-hegemónico, múltiplo. Um movimento que de certa forma rompe com todo um edifício categorial, um movimento de multiplicidade. Nesse movimento de desobstaculização instaura-se um deslocamento de um ponto, ou uma síntese, para um feixe de pontos, assunção clara do devir que precisamente parecia querer ser afastado. Em que sentido falamos de um deslocamento? Num mesmo sentido, deslocamento e inversão de um espaço, não só conceptualmente, como também historicamente, de soberania para um outro horizonte problemático. O que Foucault propõe identificar na desadequação conceptual em termos de pensamento sobre o poder, é na verdade a instauração da questão do como do poder. O poder passa a um horizonte de escala230, de micro-escalas, de ligações múltiplas. Num

movimento histórico, o que Foucault indica é esse deslocamento de conceitos no espaço da soberania, identificando esse tipo de poder historicamente associado a um “mecanismo de subtracção”, “direito de apreensão”, onde vamos assistir a uma inversão do primado dissimétrico do direito de vida e de morte. “ Poderíamos dizer que o velho direito de fazer morrer ou deixar viver se

substitui um poder de fazer viver ou de rejeitar a morte”231. O poder passa a incidir na gestão da

vida.” Geri-la, fazê-la crescer, multiplicá-la, exercer sobre ela controlos definidos e

regulamentações de conjunto”232. E para que espaço foi diferido então esse poder soberano? Numa

identificação concreta do ponto de vista histórico, identificado como a partir do século XVIII, este novo poder sobre a vida vai dar-se sob a forma de:

1) um entendimento do corpo como máquina , assente na sua docilidade e possibilidade de genealogia do poder.

228 “ O que é um diagrama? É a exposição dos relacionamentos de forças que constituem o poder (…) O diagrama, ou

a máquina abstracta, é o mapa dos relacionamentos de forças mapa de densidade, da intensidade, que procede por ligações primárias não localizáveis e que passa a cada instante por todo e qualquer ponto”, Deleuze, G., Foucault, Ed. Vega, Lisboa, 1998, p. 61

229

A noção tem várias ocorrências nos textos de Foucault: O nascimento da medicina social, Em defesa da sociedade, Vontade de saber, Segurança, território e população, Nascimento da biopolítica. Foucault, M., Dits et écrits

II, 1976-1988, Éditions Gallimard, Paris, 2001 230 Dialética entre o micro e o macro.

231 Foucault, M., A História da sexualidade I, Ed. Relógio d água, Lisboa, p. 140 232 Foucault, M., A História da sexualidade I, Ed. Relógio d água, Lisboa, 1994, p. 139

32 utilização, a que Foucault chamará anatómo-política do corpo humano,

2) e um segundo entendimento enquanto corpo-espécie, a que Foucault chamará uma Biopolítica da população.

O velho poder da morte em que se simbolizava o poder soberano está agora cuidadosamente coberto pela administração dos corpos e pela gestão calculista da vida, dirá Foucault. Estas duas novas formas, não antitéticas, vão inaugurar este novo centro que se constitui enquanto descentramento, ou deslocamento. Porquê? Porque já não se trata, como vimos, de pensar corpo e violência, mas pensar a força enquanto tensão, relação, o como do poder. Nesta imagem molecular e biológica do poder, trata-se da passagem da lei à norma. “Uma sociedade normalizadora é o efeito

histórico de uma tecnologia de poder centrada na vida”233. Uma tecnologia política que “ dá lugar

a vigilâncias infinitesimais, a controlos de todos os instantes (...) a todo um micropoder sobre o corpo; mas também dá lugar a medidas maciças”234.