mantas Hospital dos marinheiros Frades dominicanos Casa de comédias Companhia de jesuítas Colégio de San Martín
que são os enfermos que curaram das suas doenças no hospital de San Andrés, quando se podem levantar e estão sãos, enviam-nos a este hospital de convalescentes, onde lhes dão o necessário até que estejam vigorosos para ir trabalhar. Daqui passa a uma praceta e aos mercedários recolhidos. Vai direito ao campo e ao mar, e ao lugar de índios de La Magdalena, onde chega o mar a três quartos de légua de Lima, a sul.
Outra rua sai por entre os portais onde desembocam as quatro ruas e a rua dos mercadores, entrando pela rua das mantas, que também está pejada de lojas de mercadores. Têm esta rua e a dos mercadores, cada uma, uma quadra. Por toda esta rua, que vai em direcção ao ocidente, há muitas lojas de diferentes ofícios: cerieiros, confeiteiros, caldeireiros, que trabalham muito cobre, ferreiros e outros ofícios. E passa junto ao Espírito Santo, hospital dos marinheiros, onde os recolhem e curam quando estão doentes. Passa ao arco e à igreja de Monserrat, e segue direita aos hortos e ao rio, que vai contornando. E, junto à igreja de Monserrat, há outra rua que vira para sul e vai direita ao caminho de Callao, de que falarei em seu lugar.
A última das oito ruas que saem da praça principia junto da Casa de Armas, que está no paço, das Casas del Cabildo e das casas de Dom Alonso de Carabajal, pois que em todos os cantos da praça há três esquinas. Daqui vai direita a rua ao mosteiro dos frades dominicanos, que é o melhor e mais rico de Lima, em cujas muralhas, a norte, bate o rio. Situa-se aqui a Casa das Comédias, num pouco de campo que os frades não ocupam, os quais têm duas quadras de casas com sete pátios dentro do seu convento. Esta rua vai direita ao rio. Por todas estas últimas ruas, voltando ao lado esquerdo, como quem vai para sul, pode-se ir para Callao.
De outras ruas, para que melhor se entenda a traça de Lima
Uma rua vai de San Francisco, duas quadras a oriente da praça, e corre de norte para sul, até à casa da companhia dos padres jesuítas, a mais rica e mais poderosa casa de Lima, que os mesmos frontais dos altares tem talhados em prata fina e grossa. Na semana de endoenças80
fazem um monumento todo de veludo carmesim guarnecido de prata fina, com mil laços lavrados a buril, tão alto que chega ao tecto da igreja e tão largo que alcança de uma parede à outra, com mui altos pilares e arcos. Neste convento e casa há riquezas infinitas. Noutra rua que passa pelas traseiras desta casa de jesuítas está o Colégio de San Martín, que também é seu. Tem mais de quinhentos colegiais, filhos de senhores de todo o reino, que os mandam a estudar, e cada um paga, cada ano, cento
DESCRIÇÃO GERAL DO REINO DO PERU, EM PARTICULAR DE LIMA 137 Trinidad mosteiro de monjas Casa de jesuítas Convento de frades Rua dos ourives Agostinhos S. Sebastián Moinhos S. Marcelo Recolhidos
e cinquenta pesos correntes aos jesuítas, que, por este pagamento, lhes dão de comer. Estes jesuítas têm mui grande estudo de muitas ciências. Prosseguindo, a rua passa junto ao mosteiro de La Trinidad, que é de monjas, e encaminha-se, depois, para a paróquia e casa de meninos órfãos, que estas são as crianças deixadas pelas mães, que as tiveram sem licença de seus pais e não quiseram que se soubessem suas ruindades. Seguidamente, passa a outro convento e casa de jesuítas, que tem não poucas riquezas. Aqui entrou, estando eu em Lima, Antonio Correa, secretário da Inquisição, com trezentos mil pesos, o que por sua ordem se fez, que destes bocados engolem muitos no Peru e não se afogam, porque têm estômago para tudo. Há um lindo horto e muitas riquezas nesta casa, que não há nenhuma de jesuítas que seja pobre. Passa a rua a Guadalupe, mosteiro de frades franciscanos. Por aqui segue, para sul, o Caminho Real das Planícies, direito ao (sul) e que dá ao mar do lado direito, e por aqui vai direito a Pachacama, lugar de índios, a quatro léguas da cidade.
Outro caminho vai direito de oriente a ocidente. Passa junto à com- panhia dos jesuítas e segue pela rua dos ourives, que se estende desde a esquina da rua das mantas até à esquina da rua dos mercadores. Nesta rua dos ourives desemboca a viela dos chapeleiros. Vai a San Agustín, neste quarteirão há muitas boticas, que não ficam a mais de uma quadra da praça. É San Agustín um convento de frades agostinhos, casa e igreja ricas. Passa a rua a San Sebastián, paróquia grande e abastada, e vai até aos moinhos de Monserrat. Por aqui corre uma acéquia grande de água, com que moem os moinhos e regam hortas. E vira a rua à esquerda para Callao, porto de Lima.
Outras duas ruas principiam perto de La Encarnación e junto de San Diego, de oriente a ocidente, e passam junto a San Marcelo, paróquia principal de Lima. E aqui, na ala esquerda, estão os agostinhos recolhidos. Estas duas ruas saem direitas ao caminho de Callao. Isto é o mais impor- tante de Lima, que, apesar de ter muitas outras ruas, nas referidas estão todos os mosteiros, igrejas, praças e todo o bom da cidade, que as outras não cumprem ao nosso propósito.
Que trata de Callao, porto de mar de Lima, principal em todo o Peru e bom para entrar e estar nele seguros os navios
Situa-se o porto de Callao a duas léguas de Lima. Tem, como vizi- nhos, até seiscentas casas de espanhóis, assim como casas de negros e de índios. Os mais dos vizinhos deste porto são marinheiros e gente do mar. Tudo está edificado junto ao mar, e quase todas as casas que se acham nesta praia são tabernas de vinho e armazéns de mercadoria. Por detrás da praia, há algumas casas que se estendem de norte a sul e outras que vão a oriente, as quais também se repartem em quarteirões, como Lima.