Tendo em conta o quadro de referência teórico, que mobilizou teorias de diversas origens disciplinares, delineou-se uma estratégia de investigação que procurou responder às perguntas lançadas, interligando um conjunto plural de métodos de investigação e de técnicas de recolha de informação. O problema de investigação a que se pretendeu dar resposta e os objetivos propostos para o efeito sugeriram a utilização de metodologias qualitativas e quantitativas de modo complementar.
De uma forma geral, a investigação quantitativa implica a recolha de dados numéricos, usa uma perspetiva dedutiva na análise da relação entre teoria e a análise empírica, constituindo uma abordagem aproximada àquela que é tradicionalmente mais usada nas ciências naturais e que normalmente se associa ao paradigma positivista (Bryman & Bell, 2011; Pansiri, 2005). Como tal, a investigação quantitativa concebe a realidade social de uma forma “objetiva”, produzindo análises com caráter mensurável, causal, generalizável e replicável (Bryman, 2008).
A investigação qualitativa distingue-se da investigação quantitativa desde logo pela perspetiva eminentemente indutiva da relação entre a teoria e o material empírico. Por outro lado, as abordagens qualitativas têm uma posição epistemológica associada ao paradigma interpretativo (Pansiri, 2005; Serrano, 1994) sublinhando a importância de analisar a realidade social através da interpretação que os próprios atores fazem desta. Ontologicamente a investigação qualitativa associa-se ao construtivismo, assumindo que a realidade social é o resultado da interação dos indivíduos e não apenas o resultado de fenómenos independentes da ação coletiva (Berger & Luckmann, 1999). Deste modo, a investigação qualitativa procura diferenciar o seu objeto de análise da formulação dos objetos de análise na investigação quantitativa, aproximada do modelo das ciências naturais (Prpic, 2009). Procura também descrever detalhadamente os contextos de desenvolvimento do fenómeno social em análise, enfatizar os processos sociais tentando identificar tendências e padrões
que se repitam ao longo do tempo, estruturar a análise de modo flexível delimitando dimensões de observação, em alternativa a outras técnicas de recolha, com perguntas rígidas, de modo a reduzir a condução de respostas. Finalmente, procura induzir conceitos e teorias a partir dos dados recolhidos (Maxwell, 1996).
A investigação qualitativa e quantitativa têm objetivos em comum associados àquilo que é afinal investigar (Bryman, 2008): tentam responder a questões de investigação, relacionam dados e literatura, explicam e determinam a frequência dos fenómenos. A Tabela 3.1 sistematiza alguns pontos normalmente aceites como elementos de contraste entre a investigação quantitativa e a investigação qualitativa.
Tabela 3.1. Contrastes da Investigação Quantitativa e Qualitativa
Investigação Quantitativa Investigação Qualitativa
Quantificação Significado
Distância do objeto de análise Imersão no objeto de análise Análise dedutiva Análise indutiva
Estruturada Não estruturada
Generaliza resultados Explica contextos
Dados rígidos e fiáveis Dados descritivos e profundos Analisa o comportamento Analisa o significado
Analisa contextos controlados Analisa contextos reais Fonte: Adaptado de Bryman (2008, pp. 393–395)
Nenhuma das abordagens está isenta de limitações (Bryman, 2008). Por um lado, a investigação quantitativa é limitada pela sua dificuldade de interpretação e conexão dos resultados de investigação com a realidade social, pela geração de uma sensação artificial de precisão nos resultados e de um caráter predominantemente estático nas relações entre variáveis que limita a análise de processos complexos. Por outro lado, à investigação qualitativa é apontado como principal limitação o seu caráter subjetivo, muitas vezes, dependente da interpretação do investigador. Os seus resultados são mais dificilmente generalizáveis e replicáveis do que os das abordagens quantitativas.
Uma crítica frequente de que padecem os dois tipos de abordagens metodológicas, é a falta de transparência dos processos de investigação, i.e. muitas vezes não é óbvio como foi conduzida a investigação, quais foram os critérios de seleção das amostras, os tipos de métodos e sub-tipologias adotadas, entre outros aspetos, o que dificulta a replicabilidade e verificação dos resultados alcançados (Bryman, 2008).
Apesar das diferenças entre as tradições metodológicas quantitativas e qualitativas, vale a pena realçar que estas diferenças são principalmente de estilo mas não têm consequências quanto à cientificidade de nenhuma das abordagens. Naturalmente, quer a investigação quantitativa quer a qualitativa, quando bem implementadas, podem ser sistemáticas e científicas (King, Keohane, & Verba, 1994), procurando assegurar a imparcialidade do investigador, a transparência da investigação, a eliminação do erro e garantir a adequada seleção dos métodos de investigação (Bryman & Bell, 2011).
Assim, nas diferentes componentes empíricas da investigação optou-se pela utilização de um pluralismo teórico e principalmente metodológico na tentativa de superação de limites de cada uma per se. O pluralismo metodológico é considerado como fundamental no estudo da realidade social e pode associar-se à noção de triangulação na investigação (Denzin, 2006). A triangulação remete para a diversidade de observadores, de fontes de dados, de teorias e metodologias, mas normalmente sugere a utilização de métodos mistos no estudo de um determinado fenómeno social (Bryman & Bell, 2011). A triangulação metodológica é relevante para estudar processos complexos e é particularmente proveitosa com a utilização de métodos muito díspares, uma vez que comummente onde métodos quantitativos falham os qualitativos apresentam forças e vice-versa.
A triangulação permite reduzir as limitações da abordagem metodológica adotada na investigação, pois fornece diferentes perspetivas e medidas do mesmo fenómeno. Em particular, a triangulação favorece quer a validade interna (ligada à validade de relações causais entre determinados fatores na análise),
quer a validade externa (ligada à possibilidade de generalização dos resultados da análise), quer a confiança (grau em que os resultados do estudo podem ser novamente alcançados com a repetição de algumas fases do estudo como a recolha de dados) (Yin, 2009).
Dependendo do fenómeno que se pretende analisar, a utilização complementar de métodos mistos de investigação, quantitativos e qualitativos, é uma forma de superar algumas das desvantagens que se verificam em cada um dos casos (Downward & Mearman, 2005). Deste modo, a investigação é substancialmente mais robusta se a métodos quantitativos, como a análise estatística da informação, se adicionar informação proveniente de métodos qualitativos, como aquela que é gerada por estudos de caso.