Título do conto: “A pessoa não tem coração”
Classificação: grupo principal: contos de fadas propriamente ditos; grupo secundário: contos de fadas novelísticos
Narradora: Maria António
Idade: Antiga octogenária de Cacuaco Classe: 10ª
Breve sinopse: “A pessoa não tem coração” é um conto breve que narra a história de um menino, filho do senhor “Conversa sobre conversa”, moradores de uma terra onde não se comia, só se fumava. Certo dia, o pai do menino faz amizade com o senhor “Um dia nos encontraremos, conforme me fizeste, assim te farei”, morador de uma terra que se cultivava e se tinha a arte de preparar alimentos, e convida-o para ir à sua casa. Estando lá hospedado, o visitante admirou-se com o facto de naquela terra não se conhecer comida, apenas se fumava na hora das refeições, razão pela qual explicou ao anfitrião o que era comida, prontificou-se a doar o que cultivava e ensinou-lhe tudo o que sabia sobre esta atividade e a arte de cozinhar; saindo- lhe ingrato, pagando o bem feito a si com a morte. O filho, na obstinação de seguir o pai ao longe, sorrateiramente, viu o ocorrido e decidiu tirar o coração do cadáver, assou-o e guardou entre as coxas. Tempos depois, em exclamação, o rapazito dizia, insistentemente, “Hum! Afinal a pessoa não tem coração!”, para a intriga do pai e consecutiva convocação do tribunal tradicional. Na aldeia, pouco é avançado pelo protagonista, senão a frase “O boi tem coração. O porco tem coração. A cabra tem coração. A galinha tem coração. Tudo o que é carne tem coração. Só a pessoa não tem coração”, para maior suspense dos macotas. O caso é transferido para Luanda, mas sem respostas. Assim, segue para Portugal, onde se resolve o problema, terminando com a execução do pai por ter matado o amigo, em função da prova apresentada pelo próprio filho, o coração da pessoa.
1. Características do protagonista (físicas, psicológicas, socioculturais)
O protagonista do conto vai mudando de comportamento ao longo do texto e, assim, vai- -se evidenciando as suas características. “No regresso [à casa], o senhor ‘Conversa sobre conversa’ acompanhou-o [o senhor ‘Um dia nos encontraremos, conforme me fizeste, assim te farei’] até a uma certa distância. Um filho, já rapaz, também os seguiu. Mas o pai correu com ele. O petiz, fingindo voltar, ocultou-se no capim.”304 Aqui, o protagonista é apresentado como
um adolescente que, pela curiosidade e teimosia, desobedeceu à ordem do pai. Em função de tal comportamento, no oculto, o rapaz presenciou o pai a matar o amigo, que outrora o havia
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adestrado na arte agrícola e de cozinhar, já que na sua banza305 a comida era desconhecida e só se fumava às refeições. Num ato de coragem e inteligência, ele “sai do capim e aproxima- se do cadáver. Então, tira-lhe o coração, assa-o num fogo que acende. Esconde-o entre as coxas”306, para que, quando fosse interrogado sobre o assunto, eventualmente, tivesse provas. Não compreendendo as razões do ato bárbaro do pai e pela importunação psíquica, o adolescente não parava de pensar no ocorrido e desabafava várias vezes numa exclamação audível: “Hum! Afinal a pessoa não tem coração!”307 Até que o pai, inocente de que o filho sabia do assassinato, procurou entender a exclamação ininterrupta do rapaz, mas sem sucesso: “Falei só…”308, era a resposta do filho sempre que questionado sobre o assunto. Apesar do peso de consciência e de toda pressão do pai em querer saber a razão da exclamação continuada, o rapaz, a única testemunha do crime, manteve-se comedido e sábio em guardar o segredo, pois poderia estar a resguardar o pai, por um lado, pelo crime cometido, decidindo ocultar só para si o que sabia; por outro lado, poderia estar com medo do pai, visto que tinha conhecimento do que o progenitor era capaz. Intrigado e cansado de obter a mesma resposta do filho, “[…] o pai convoca a gente sisuda. Mas o rapaz pouco mais adianta”309, senão a afirmação de que todos os animais tinham “coração”, ou seja, sentimentos, só a pessoa é que não tinha. Este foi o seu discurso nas primeiras duas autoridades superiores onde se apresentou, na aldeia e em Luanda. “Só em Portugal se podia esclarecer o caso – alvitrava toda a gente. E pai e filho para lá seguiram.”310 Para a esperança do progenitor que queria ver o “problema” resolvido. Estando lá, o adolescente explicou corajosamente, sem reservas e com um senso de justiça crítico, tudo o que havia acontecido, o bem que foi pago com o mal, pois o grau de remorso era de um nível tão elevado que ultrapassava as suas forças de retenção psíquico-emotiva, atitude que levou o seu pai a ser condenado à morte.
2. Características dos espaços físicos e socioculturais
O texto apresenta dois espaços rurais, física e socioculturalmente bem distintos. “Na banza do senhor ‘Conversa sobre conversa’, não se comia, só se fumava: era tabaco ao almoço, tabaco ao jantar. Nunca se sentava: acocorava-se.”311 Nesta terra, desconhecia-se o que era comida, por este facto, não se cultivava outro produto senão o tabaco. Porém, na terra do senhor “Um dia nos encontraremos, conforme me fizeste, assim te farei”, não se cultivava tabaco, pelo que foi apresentado a si na casa do amigo às horas das refeições, só se produzia
305 Do quimbundo mbanza, residência ou palácio de régulo (rei ou soba), em África. Idem, ibidem, p. 213. 306Idem, ibidem, p. 62. Fala-se do coração assado como modo de o menino conservar por longos dias o
órgão para que não apodrecesse. Nas zonas rurais, é um processo normal usado na conservação da carne de caça, principalmente, visto que, pela condição económica baixa, não têm arca frigorífica. Um outro processo de conservação de carne e de peixe muito usado nessas zonas é a salgação.
307Idem, ibidem. 308Idem, ibidem. 309Idem, ibidem. 310Idem, ibidem. 311Idem, ibidem, p. 61.
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comida. Isso causou estranheza ao visitante e, por conseguinte, questiona: “Vocês, aqui, não comem?”312, para a negação do anfitrião. Por meio de uma pergunta, os traços idiossincráticos de cada terra sofreram aculturação permissiva, e o que separava os dois mundos quebrara-se: a cultura agrícola e alimentar de cada terra, bem como o modo de acomodação. O senhor “Um dia nos encontraremos, conforme me fizeste, assim te farei”, contente pela forma como foi recebido pelo amigo, por ter dado do melhor que tinha, prontificou-se a doar os produtos por si produzidos e a adestrar o senhor “Conversa sobre conversa” na arte de semear, cuidar das plantas e de cozinhar. Possuído por um coração malévolo, este último matou o amigo, pagando todo o bem ensinado a si com o mal, ao olhar atento do filho que estava escondido na mata, e que, por causa disso, exclamaria continuamente: “Hum! Afinal a pessoa não tem coração!”313 Na tentativa do progenitor obter elucidação da frase intrigante do filho, exploram-se outros dois espaços na história: Luanda e Portugal, ou seja, a sede do Governo-Geral de Angola (colónia portuguesa) e a Metrópole colonizadora, respetivamente. Deste modo, o pai tinha Portugal como a terra de esperança e da resolução do “problema”, no entanto, subitamente, com as declarações acusadoras do filho contra si (que procurava a lógica da justiça em tribunal), ele presenciou a mudança do espaço, num filme psicológico, de terra de esperança e de resolução do “problema” a seu favor para terra de castigo e morte contra si. As características socioculturais dos dois últimos espaços estão implícitos no texto, sendo necessários conhecimentos anteriores (extratextuais) sobre a história colonial de Angola para as clarificar. Tendo em conta isto, Luanda e Portugal mostram-se superiores aos dois primeiros espaços (rurais), uma vez que eram espaços urbanos; importadores do que se produzia nos espaços rurais, em particular a Metrópole; civilizados (educação e hábitos do ocidente); tinham um maior estatuto ao nível de organização político-administrativa e de justiça; o que a Metrópole portuguesa ou o Governo Ultramarino de Angola decidia era lei para todo o território angolano. Estas características espaciais diferenciadas e hegemónicas são atestadas no texto aquando da transladação do caso para Luanda remetido pela autoridade aldeã e de Luanda para Portugal, como reconhecimento da autoridade suprema da Metrópole.
3. Relação com a diversidade
O desenrolar desta história é marcado pela metáfora em volta da palavra “coração”, que encerra um dos principais temas presentes no conto: a oposição do bem e do mal. A intriga tem a sua complicação quando o senhor “Um dia nos encontraremos, conforme me fizeste, assim te farei”, inocente da conspiração do amigo, “desoculta” ao senhor “Conversa sobre conversa” as habilidades do cultivo alimentar, o jeito de cuidar e o preparo dos produtos. Contudo, de modo premeditado e frio, o benfeitor é ferido mortalmente pelo amigo, enfatizando-se a capacidade dissimuladora do homem. O ditado popular “nada do que se faz no oculto não se revele depois”
312Idem, ibidem. 313Idem, ibidem, p. 62.
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é outra lição tirada da história, ensinando aos ouvintes/leitores de que a justiça é sempre ou quase sempre feita, independentemente de fazermos o mal às escondidas ou do tempo que possa demorar o juízo, tal como se verifica com o pai do protagonista, no final, condenado à morte pelo seu ato em função do testemunho do próprio filho. Portanto, numa análise mais profunda, pode-se constatar que o menino reduz o próprio pai, outrora respeitável e confiável, em função do seu ato, a um ser ignóbil, que em comparação com os animais descritos (boi, porco, cabra e galinha), desprovidos de raciocínio, estes mostravam-se mais “humanos” no trato para com os seus semelhantes do que um humano por natureza – o pai. A narrativa apresenta uma beleza estilística bem identificadora dos contos tradicionais orais angolanos, a nomeação de personagens por uma caraterística física ou comportamental: senhor “Conversa sobre conversa” e senhor “Um dia nos encontraremos, conforme me fizeste, assim te farei”, nomes que descrevem bem as personalidades dos dois. O primeiro, pela “conversa”, fingiu ser bom e assassinou o outro; o segundo, por ter confiado no outro, como bons amigos que eram, instruiu-o com todo o seu conhecimento agrícola e culinário, tendo um destino funesto pelas mãos do amigo. Os produtos do campo (milho, feijão, jinguba, bata-doce, quiabos) e animais domésticos angolanos (boi, porco, cabra, galinha) têm também o seu destaque no texto como parte integradora da riqueza sociocultural do país.