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3 Konstruksjon av grasjamnar

3.2 Forarbeid

Falar em gênero hoje em dia não é tarefa nada fácil. A grande quantidade de visões e concepções em torno desse tema tem levado os teóricos às mais diversas reflexões e descrições no entendimento desse fenômeno. Para tanto, adotaremos a visão bakhtiniana de gênero discursivo, visto que permite vê-lo sob o ponto de vista histórico, bem como exclui a possibilidade estabelecer uma tipologização, já que existe uma complexidade de gêneros nas mais diferentes esferas da atividade humana.

A riqueza e a variedade de gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (Bakhtin, 1997, p. 279-280).

Por isso, cumpre salientar a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso (orais e escritos). Na visão de Bakhtin (1979), todo e qualquer enunciado envolve, usa e inscreve-se gêneros do discurso, para ele os gêneros são tipos relativamente estáveis de enunciados. A variedade de gêneros do discurso é, por sua vez, infinita. Eles mudam na medida em que as atividades humanas variam. Daí por que os textos serem vistos como atividades de uma maneira geral, e os gêneros, como formados historicamente e diretamente ligados às atividades sócio-culturais. Para o autor, os diversos gêneros constituídos na sociedade são estruturados em torno de três aspectos, a saber: a seleção de temas (conteúdo), a escolha dos recursos lingüísticos (estilo) e as formas de organização textual (construção composicional (Bakhtin, 1997, p. 280). Esses três aspectos dos gêneros do discurso

são determinados de acordo com a situação de produção dos enunciados, bem como a respeito dos temas e dos interlocutores do discurso. (Rojo, 2005, p. 196).

Sendo assim, o conceito de gênero perpassa a noção de enunciados nas mais diversas esferas das atividades humanas, e estas, por serem infinitas, leva a uma grande variedade de gêneros. Bakhtin (1997) dividiu os gêneros em dois grandes grupos: os primários (simples) e os secundários (complexos). Os gêneros primários são enunciados espontâneos, produzidos no cotidiano das pessoas, assim como a conversa oral cotidiana e a carta pessoal. Já os secundários, como os artigos científicos, as cartas comerciais, etc., surgem nas condições da comunicação cultural mais complexa, ou seja, no âmbito das ideologias, e, muitas vezes, são aprimorados por meio da escrita.

Vejamos o que diz Bakhtin (1997, p. 281) sobre o processo de formação dos gêneros primários e secundários:

[...] Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade dos enunciados alheios – por exemplo, inseridas no romance, a réplica do diálogo cotidiano ou a carta, conservando a sua forma e significado cotidiano apenas no plano do conteúdo do romance só se integram à realidade existente através do romance considerado como um todo, ou seja, do romance concebido como fenômeno da vida literário-artística e na vida cotidiana. O romance em seu todo enunciado, da mesma forma que a réplica do diálogo cotidiano ou a carta pessoal (são fenômenos da mesma natureza); o que diferencia o romance é ser um enunciado secundário (complexo).

Diante do exposto, vemos claramente que os gêneros primários e secundários estão inter-relacionados. Esses últimos absorvem e transmutam os gêneros primários, que, por sua vez, perdem a relação imediata com a realidade no momento em que estão sendo produzidos. Portanto, tanto um gênero como o outro variam em termos de extensão, conteúdo e estrutura, em diferentes situações de produção e uso. Eles também estão presentes nas mais variadas comunicações orais da vida cotidiana, como, por exemplo, em contextos familiares, reuniões sociais, etc., e obedecem a situações formais específicas.

Bakhtin (1997) tem-se constituído a principal referência sobre gêneros do discurso para vários estudiosos, fornecendo os fundamentos necessários para a compreensão dos gêneros e para os processos de ensino e aprendizagem da linguagem escrita. Nessa mesma linha de raciocínio, está o lingüista Norman Fairclough (2001), que também propõe o estudo dos gêneros a partir de uma abordagem discursiva, pois, segundo ele, adotar uma visão bakhtiana de gênero permite ver o modo como a prática social é limitada pelas convenções, já que existe uma disposição para a mudança e para a criatividade.

Para Fairclough (2001, p. 161), gênero é

[...] um conjunto de convenções relativamente estável que é associada com, e parcialmente realiza, um tipo de atividade socialmente aprovado, como a conversa informal, a compra de produtos em uma loja, uma entrevista de emprego, um documentário de televisão, um poema ou um artigo científico.

Assim, em seu estudo, Fairclough (2001) não enfatiza necessariamente o gênero em si, mas a necessidade de se investigar as tensões e as lutas entre diferentes discursos e suas necessidades. Ele propõe, na ADC, um tipo de análise que leve em conta o texto (evento discursivo), o discurso (produção, distribuição e consumo dos textos) e a prática social (formações ideológicas e formas hegemônicas).

2.7.1 O gênero carta

A carta é um instrumento de comunicação utilizado nas mais diferentes esferas da sociedade. Sua estrutura pode variar, dependendo dos propósitos do emissor, seja de forma narrativa, descritiva ou argumentativa, ou abarcar todas essas formas. Portanto, as escolhas também variam em função de cada gênero e dos propósitos comunicativos nos mais diferentes contextos sociointeracionais. Então, o que ocorre na sociedade, em termos de relações interacionais, são os mais

diversos gêneros discursivos circulando, os quais, por sua vez, são permeados por situações sócio-culturais, conforme já se afirmou.

Quando certos gêneros são trazidos para a sala de aula, como, por exemplo, o gênero carta, eles sofrem modificações; ao serem adaptados às tarefas escolares, eles adquirem um novo sentido. Sendo assim, nas oficinas de linguagem, a elaboração das cartas passa a ter um novo sentido e se constitui como uma prática social, já que os professores, ao escreverem-nas, relatam sua própria história de vida.

Ao longo dos anos, as cartas desempenharam um papel importante no surgimento de gêneros. De acordo com Bazerman (2005, p. 86), [...] os primeiros comandos escritos ao lado de outros assuntos de Estado – militares, administrativos ou políticos – foram feitos na forma de cartas. Portanto, elas podem ter exercido uma importante influência na formação dos gêneros.

No artigo Cartas de base social de Gêneros diferenciados, Bazerman (2005) faz uma retrospectiva dos gêneros escritos ao longo da história. Segundo ele, a carta teve uma forte influência na formação dos outros gêneros. O autor comenta que, na Grécia antiga, elas forneciam a identificação entre autor e audiência, sendo entregues por mensageiros que as liam em voz alta (White apud Bazerman, 2005). As cartas também representavam as relações sociais realizadas à distância por meio delas (Stirewalt apud Bazerman, 2005).

As cartas evoluíram de formais e oficiais para pessoais, tornando-se comuns entre todas as classes dos mundos helênico e romano. Embora a maioria dos teóricos da Retórica Clássica tenha dado pouca atenção às cartas pessoais, naquele momento histórico, elas se tornaram um meio legítimo de fazer transações comerciais e administrativas.

As cartas, sem dúvida, foram usadas de forma bastante diversa no mundo clássico, já que serviam para mediar a distância entre duas ou mais pessoas. As relações e transações em curso eram mostradas através das saudações, das assinaturas e dos seus conteúdos ao leitor e ao escritor. Dessa forma, o gênero se expande e se especializa cada vez mais na medida em que os temas e as transações inserem-se nelas, já que as pessoas reconhecem cada vez mais a variedade de transações que podem ser realizadas através das cartas, seguindo modelos para cada tipo de transação (Bazerman, 2005, p. 88.).

Outro tipo de carta que se constituiu como importante veículo de comunicação para manter os laços familiares e as burocracias clericais foram as cartas papais. Elas se tornaram verdadeira fonte legitimadora de doutrinação da Igreja católica durante o período romano tardio e medieval, bem como transformaram-se em tipos ainda hoje em uso, tais como as cartas apostólicas, bulas, súmulas, encíclicas etc.

Com a expansão da igreja católica, as cartas serviram para estreitar cada vez mais os laços sociais entre as pessoas e a comunidade, além da manutenção da burocracia clerical.

[...] Essa arte de escrever cartas enfatizou a saudação, identificando e conferindo respeito aos papéis sociais e às posições de emissor e receptor, colocando ambos dentro de relações sociais institucionalizadas. Além do mais, escritores de cartas foram aconselhados a construir um laço de boa vontade com o receptor, invocando sentimento e obrigação, e narrando explicitamente a situação que se apresentava a necessidade da carta e a esperada de cooperação do receptor (Murphi, apud Bazerman 2005, p. 89).

Essa doutrinação se dava via clérigos que eram treinados para exercer a ars dictaminis, arte de escrever cartas.

O ars dictaminis serviu também para a expansão das correspondências comercial e governamental durante o começo da Renascença, sendo, em seguida, substituído pelo ars notaria – forma de correspondência dos documentos legais e comerciais. Nesse período, as cartas desempenharam diversas funções, tais como concessões de mosteiros, arranjos contratuais, contratos de transferência, concessões de imunidades e privilégios, presentes, obrigações mútuas, entre outros. (BAZERMAN, 2005).

Até meados do século XX nos Estados Unidos, os principais documentos de patentes mantiveram um formato de uma carta. A carta de especificação incluída no processo de inscrição chegou gradualmente a significar a própria patente [...] Somente em anos recentes foram tiradas as marcas características da carta do documento de especificação, embora a patente seja ainda cercada judicialmente por uma correspondência extensiva. (Bazerman, 2005, p. 91)

No século XII, as cartas contribuíram para o desenvolvimento dos gêneros do direito, do governo e da política, devido principalmente ao crescimento comercial, ao surgimento da letra de câmbio – é quando alguém acusa o recebimento de uma soma a ser paga numa data fixa, geralmente em outra cidade.

Já na metade do século XV, correspondentes profissionais escreviam boletins informativos e enviava-os aos habitantes das províncias. Tais profissionais dirigiam- se diretamente aos leitores, adotando um estilo pessoal. (Sommerville, apud Bazerman, 2005).

De acordo ainda com Bazerman (2005, p. 94-97), existem resíduos do estilo de correspondência pessoal na industria jornalística, principalmente na coluna “Talk of the Town” da revista New Yorker. Assim, ele conclui que existem muito mais gêneros em que as cartas tiveram um papel fundamental, como, por exemplo, a carta aos acionistas e a carta comercial.

Os gêneros que formam as atividades comunicativas – leitura e escrita, eram tratados por muitos de forma separada e distante das relações e ações sociais. Para Bazerman (2005, p. 99),

As cartas, comparadas a outros gêneros, podem parecer simples por serem tão abertamente ligadas às relações sociais e a escritores e leitores particulares, mas isso só significa que elas nos revelam clara e explicitamente a sociabilidade que faz parte de toda a escrita. Isso, entretanto, pode ser a própria razão por que as cartas têm sido tão instrumentais na formação dos gêneros mais especializados e menos auto-interpretativos. As cartas têm nos ajudado a encontrar endereços de muitos lugares obscuros e notáveis para encontros letrados e têm nos ajudado a entender o que faríamos e diríamos uma vez chegássemos lá.

O que se observou sobre o gênero carta, a partir do estudo sócio-histórico de Bazerman (2005), foi seu caráter fundador, de base, para muitos outros gêneros escritos, como artigos científicos, patentes, relatórios de acionistas, letras de câmbio, cédulas de dinheiro, cartas de crédito, encíclicas papais, faturas, cheques, atas de

condomínios, reportagens, dentre outros. Nesse sentido, os gêneros apresentam características históricas e culturais para que possam existir e transformar-se em outros.

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