Esta dissertação encontra-se assente na seguinte questão de pesquisa: o que mudou na indústria musical a partir do momento em que a música passou a ser distribuída digitalmente? Para dar resposta a essa pergunta foram elaborados quatro objetivos específicos, sendo um dos fins desta dissertação dar resposta a esses mesmos objetivos previamente definidos.
Com o primeiro objetivo definido pretendeu-se compreender o efeito da digitalização da música na rede de relações da rede de valor da indústria musical. Face a isto, através das entrevistas realizadas, a primeira conclusão que pôde ser retirada é que houve um esvaziamento dos papéis de alguns intermediários que existiam tradicionalmente entre o artista e o consumidor. Um dos atores que viu o seu papel perder relevância foi a editora discográfica, que tradicionalmente ocupava um papel central no negócio da música. Este esvaziamento dos papéis de determinados atores da indústria musical, fez com que a presença desses mesmos atores deixasse de ser obrigatória para que um músico conseguisse que o seu produto chegasse ao consumidor, o que forçosamente alterou a estrutura das relações dentro da indústria musical. A nível das relações, algo que foi possível concluir de forma evidente foi que passou a existir um equilíbrio maior entre todas as partes que compõem a rede de valor da indústria musical. Se tradicionalmente a maior parte do poder negocial estava centrado num único ator (a editora discográfica), hoje isso já não acontece. Este poder passou para os artistas, para as empresas ligadas aos espetáculos ao vivo, mas também para empresas
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que tradicionalmente não estavam ligadas à indústria musical, como é o caso das operadoras de telecomunicações. É importante ainda mencionar que todas estas mudanças referidas anteriormente não se deram exclusivamente em resultado da digitalização dos canais de distribuição – o fenómeno da digitalização provocado pelos avanços tecnológicos nas mais variadas áreas, chegou também aos meios de produção e de comunicação, tornando estas atividades menos dispendiosas.
No segundo objetivo pretendeu-se perceber o efeito que a distribuição digital de música tem no modelo de negócio dos artistas e das editoras. A primeira transformação a tornar-se evidente, e que foi detetada em ambos os atores em estudo, foi a diversificação das atividades que estes desempenham. Concretizando, as editoras começaram a associar-se a atividades com as quais pouco ou nada se relacionavam no modelo tradicional da indústria musical, como os espetáculos ao vivo ou a exploração do merchandising de forma de diversificarem as suas fontes de receita, e os músicos passaram a assumir funções que antes eram desempenhadas por editoras ou distribuidoras, e passaram sobretudo a fazer uma maior aposta nos espetáculos ao vivo, atividade que atualmente é determinante para sua sobrevivência financeira. Outra mudança detetada, e comum a ambos os atores, é que deixou de haver um modelo de negócio relativamente standard e comum a praticamente todos os artistas ou editoras. Os entrevistados não foram capazes de identificar um caminho único que esteja a ser seguido por um grande número de artistas ou editoras.
No terceiro objetivo pretendeu-se entender como é que a distribuição digital de música afetou as relações entre os artistas e os consumidores. Antes de mais, é importante referir que de fato foram detetadas alterações na forma como os artistas e consumidores se relacionam. Contudo não se podem olhar para estas transformações apenas como uma consequência da digitalização dos meios de distribuição de música – tal como se concluiu no primeiro objetivo, é necessário ter um olhar mais abrangente, e incluir também os canais de comunicação digitais como causas para estas mudanças. Uma das conclusões que foi possível retirar da análise das entrevistas realizadas está precisamente relacionada com o misturar de funções entre a distribuição e a comunicação que as plataformas online proporcionaram – por um lado os serviços de
streaming são formas dos artistas se promoverem, e por outro lado os canais de
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artistas podem distribuir a sua música bem como outro tipo de conteúdos e mensagens como fotografias e vídeos. É relevante apontar este tipo de conteúdos extramusicais, dado o aumento de importância que estão a assumir dentro do que se considera ser o papel de um músico. Quanto às relações em si, estas são agora mais diretas – a mensagem passa por menos intermediários desde que o artista a transmite até que o consumidor a recebe. Tal como a própria música, a mensagem passou a ser mais livre porque deixou de ter que passar por um filtro que existia nos canais de comunicação institucionalizados. Isto criou um sentimento de proximidade do fã face ao artista, o que resultou num efeito de desendeusamento do artista, e uma maior dificuldade para este último em manter uma relação duradoura com os seus consumidores.
Para o quarto objetivo desta dissertação, pretendia-se perceber em que medida os novos modelos de distribuição de música afetaram, em particular, a indústria da música ao vivo. Embora o crescimento do mercado dos espetáculos de música ao vivo seja também uma consequência de fatores como o desenvolvimento de uma cultura de festivais entre os consumidores e um maior interesse em apostar na música por parte de empresas que não estavam ligadas a esse mercado, verificou-se que os meios digitais são também parte responsável por esse aumento. Os consumidores passaram a ter um acesso facilitado à música, muitas vezes de forma gratuita, o que fez com que mais gente passasse a ouvir mais música. Assim, esse conhecimento de um maior número de artistas reflete-se num aumento do número de concertos que os consumidores passam a ter interesse em assistir. Outra transformação no mercado da música ao vivo que se considera uma consequência dos meios digitais de distribuição é a fragmentação do mercado. Com o público a consumir mais música, e sem os filtros dos media institucionalizados como intermediário entre o artista e o consumidor, surge uma maior diversidade de géneros musicais que geram novos nichos de mercado. Estes passam naturalmente a ser explorados também pelas empresas promotoras de espetáculos, nomeadamente com a criação de festivais dedicados a géneros musicais específicos, que visam satisfazer as necessidades desses referidos nichos.