Abordaremos aqui as seguintes categorias propostas para essa análise, a saber: o curso e os professores. Para atribuir esses papéis os alunos do CLI empregaram o pronome Eu para nomear seu curso e os professores, sendo este uso localizado com o auxílio da ferramenta Concord. A aplicação desse recurso computacional explica-se pela realização da expressão oracional Eu acho que quando os alunos atribuem seus papéis em relação ao curso e aos professores. Baseados nos dados, os alunos atribuíram com mais frequência papéis de si mesmos, pois expressam suas expectativas e experiências com relação ao seu aprendizado. Para atribuir papéis em relação ao curso e aos professores, os alunos combinam o pronome Eu e uma expressão que realiza uma metáfora interpessoal de modalidade acho que. Conforme Eggins (2004), a estrutura Eu acho que é caracterizada como uma metáfora de modalidade (Ver Capítulo I, item c.2), que incorpora recursos implícitos no nível léxico-gramatical, por sua vez, disponíveis para o falante.
A Figura 6, apresentada na página 98, a seguir, representa o exemplo das ocorrências da metáfora de modalidade Eu acho que, por sua vez identificadas pelo programa WST (SCOTT, 2010), especificamente com a ferramenta Concord.
Notemos que na amostragem da tela do Concord, a Figura 6 apresenta que a metáfora de modalidade Eu acho que ocorreu no total de 88 vezes no corpus, conforme destaque na Figura 6. A partir da identificação desse tipo de ocorrência, reconhecemos a junção de diversos aspectos lexicais que promovem a construção dos sentidos atribuídos pelos alunos ao referente pronominal Eu para o curso e os professores. Apresentamos, ainda, como esta expressão se realiza em cada grupo de alunos entrevistados, conforme o Gráfico 4, na página 99, a seguir, que representa a ocorrência lexical da metáfora de modalidade Eu acho que no quantitativo de vezes utilizadas no corpus do Grupo 1 (1P e 3P) e Grupo 2 (5P e 7P):
Figure 6 – Exemplo das ocorrências da metáfora de modalidade Eu acho que na tela do programa WST Fonte: Dados da Pesquisa
Gráfico 4 – Ocorrência Parcial da Metáfora de Modalidade Eu acho que dos Grupos 1 e 2 Fonte: Dados da Pesquisa
A metáfora de modalidade Eu acho que para o Grupo 1, como se visualiza no Gráfico 4, foi utlizada pelos alunos do 1P 20 vezes, enquanto que os do 3P nomearam seus papéis por meio dessa expressão cerca de 12 vezes. O total de ocorrências é de 32 vezes. No Grupo 2, os alunos do 5P realizaram a estrutura 41 vezes e para os alunos do 7P foram reconhecidas 15 ocorrências. Dototal do Grupo 2, temos 56 itens lexicais relacionados a esse tipo de metáfora. O relacionamento semântico da projeção das opiniões, aqui identificadas pelo pronome Eu e da variante metafórica acho que, podem indicar a maneira como os papéis dos alunos estão distribuídos no discurso. Contudo, observamos que os dados referentes à ocorrência lexical desse tipo de metáfora interpessoal surgiram com uma quantidade reduzida, mas torna-se significativo, uma vez que abrange as duas maiores categorias oriundas das opiniões dos alunos.
Ao oferecerem uma informação, os alunos do CLI produziram suas opiniões a respeito do currículo para uma realização congruente que projeta a variante metafórica Eu acho que. A esse respeito, Halliday (1994, p. 354) esclarece que a congruência estabelecida dentro dessa oração corresponde à realização das expressões de probabilidade, ou seja, os alunos do CLI constroem subjetivamente formas explícitas, por sua vez projetadas nas orações com graus de probabilidade distintos. Tais graus podem expressar nessas orações complexas três tipos de modalização: alta, média e baixa. O tipo de modalização encontrada no corpus, conforme visto na Figura 2, enquadra-se na média, representada aqui pela estrutura Eu acho que. A metáfora de modalidade oração
1P 3P 5P 7P Grupo 1 Grupo 2 20 12 41 15
complementa a nomeação dada pelos alunos do CLI partindo da visão que realizam discursivamente do currículo no qual estão imbricados o curso e os professores.
As metáforas de modalidade identificadas na opinião dos alunos do CLI, exemplificadas a seguir, são realizadas, de acordo com Eggins (1994), por meio de uma pseudosentença que compreende de duas partes principais: o Resíduo e o Modo. Notemos alguns exemplos:
(62) ... eu acho que faltou assim uma base maior, uma explicação, isso aqui é assim por causa disso ... (1PA6)
Na oração, eu acho que faltou assim uma base maior, o 1PA6 expressa por meio da metáfora de modalidade a sua opinião da experiência em uma disciplina do currículo, ou seja, a primeira disciplina da área de LI. No Modo constituído do pronome eu acompanhado do Resíduo, acho que faltou assim uma base maior nomeia uma opinião com um grau de certeza mediano, pois 1PA6, além de estar cursando o semestre inicial do currículo no CLI, ainda não dispõe de um repertório teórico para transpor seus julgamentos a partir de sua realidade social.
No exemplo (63), a responsabilidade pelo desenvolvimento profissional de 1PA5 é depositada em programas de intercâmbio que a Universidade possa prover para as licenciaturas de LE:
(63) ... eu acho que a Universidade poderia proporcionar para quem faz Letras Estrangeira ou Espanhol ou Inglês, fazer com que a gente fosse visitar um país desses... (1PA5)
Na oração eu acho que a Universidade poderia, o 1PA5 recria a metáfora de que a instituição maior “poderia” usar a autonomia para promover condições de abertura do conhecimento coletivo em programas de intercâmbio para os alunos das áreas de LE. De um modo geral, a instituição oferece bolsas de estudo para alunos de pós-graduação em outras áreas, mas os alunos dos cursos de formação de línguas não possuem esses benefícios.
No exemplo (64), a seguir, o aluno enuncia em, eu acho que também deveria ter uma importância maior à pronúncia, 7PA26 ainda atribui sua avaliação subjetiva, por meio de eu acho que quanto à carga de importância concedida para desenvolver uma única competência: a oralidade.
(64) ... eu acho que também deveria ter uma importância maior à pronúncia, a fala, não só a gramática. (7PA26)
Sabemos que as competências e habilidades são necessárias para a formação do professor de línguas, apesar disso, não completam o perfil de futuro professor consciente de sua função social. Para 7PA26, podemos interpretar que dois ângulos na formação curricular coexistem: a fluência oral e perspicácia na gramática.
O aluno acredita que o aprendizado pode ser coletivo, centrado nos dois atores: o professor e o aluno. Essa metáfora é realizada no exemplo (65), a seguir:
(65) Eu acho que o professor juntamente com o aluno deve focar na língua
propriamente dita, porque como é que vai haver comunicação sem haver entendimento? (5PA19)
Na oração, eu acho que o professor. O constituinte de Modo eu acho que, no qual está constituída a metáfora de modalidade, abre a opinião de 5PA19 acerca do foco na oralidade no domínio curricular das aulas e disciplinas do CLI. Essa tarefa deverá envolver o professor e o aluno que, para 5PA19, figuram como os únicos dependentes da sua formação.
No exemplo (66), ressaltamos que 7PA28 parece atribuir o papel de um aprendiz avaliador e crítico das falhas do sistema de ensino básico.
(66) ... eu acho que no Ensino Médio já deveria ter essa base, pra ensinar o aluno pra quando ele chegasse na Universidade, ele não ficar tipo assim, tão despreparado. (7PA28)
O aprendizado recebido no Ensino Médio pode demonstrar o desenvolvimento do processo cognitivo do aluno ainda presente na sua formação inicial. Em, eu acho que, pertencente ao Modo da metáfora de modalidade e as partes seguintes do Resíduo, no Ensino Médio já deveria ter essa base, parece sugerir um julgamento do aluno acerca dos modelos de ensino empregados nas escolas públicas que frequentaram.
Nas subseções anteriores, discutimos a atribuição dos papéis realizados por meio do uso do referente pronominal Eu, que abrangeu uma parte significativa de ocorrências lexicais no corpus. Os alunos expressaram suas opiniões e identificaram a si mesmos em três tipos de papéis para cada grupo. No Grupo 1 identificamos os papéis do aprendiz que expressam histórias herdadas de seu processo de aprendizagem vivenciadas no Ensino Fundamental e Médio e histórias recentes da visão de sua formação inicial. O aprendiz que
atribui o ingressante na licenciatura em Letras/Inglês é descrito como aquele que opta em cursar por questões de preferência pelo idioma, por possuir uma relação agradável com a disciplina estudada no ensino básico e apenas para aprender o inglês.
Para o Grupo 2, os papéis atribuídos versam sobre um aprendiz que fala das expectativas do encontro com o perfil do CLI por entre as disciplinas e os recursos de ensino oferecidos. O anseio pelo desenvolvimento da competência oral e das aulas que poderiam ser ministradas somente em inglês são aspectos levantados para esse papel. A reflexão acerca das ações de si mesmos no CLI atribuem o papel do aprendiz consciente de seu desenvolvimento no curso. Desse modo, as descobertas representam as possibilidades de aprimoramento profissional que as disciplinas do curso podem oferecer ao aluno. Por fim, os alunos atribuem o papel do futuro professor, o qual podem demonstrar as expectativas de sua atuação na sala de aula de línguas. Nesse papel, os alunos fornecem por meio de percepções, que o currículo permitiu, em parte, ver a prática da sala de aula como um desafio no seu aprendizado.
Na atribuição para o curso e os professores, os alunos realizaram suas opiniões por meio da metáfora de modalidade Eu acho que. O valor dessa estrutura oracional sinaliza o grau médio no julgamento das condições que curso e os professores “deveriam” ou “poderiam” oferecer em detrimento de uma prática de ensino e formação consistente.
A seguir, serão discutidos e exemplificados os referentes pronominais Você e Ele que ocorreram com uma frequência menor do que o pronome Eu no corpus.