3. ANÁLISIS CONTABLE TRASMEDITERRÁNEA
3.2. Fondo de maniobra
Alguns fatores permeiam a educação brasileira e encontram eco no Ensino Médio. São fatores intra e extraescolares, que se relacionam com o desempenho dos alunos, inclusive os do Ensino Médio; fatores relacionados à estrutura escolar, aos grupos sociais e ao próprio aluno (SOARES, 2005).
Em seu modelo conceitual, Soares (2005) demonstra que “são tantos os fatores escolares associados ao desempenho dos alunos que nenhum deles é capaz de garantir, isoladamente, bons resultados escolares”.
Figura 10:Fatores intra e extra-escolares associados ao desempenho cognitivo dos alunos
Quanto à estrutura escolar Soares (2005) afirma que o local onde ela está situada, seu tamanho, e as leis e regulamentos a que está submetida, influenciam tanto positiva quanto negativamente o desempenho dos alunos.
Toda escola está inserida em um contexto social, sobre o qual não tem controle, mas que influencia fortemente as relações estabelecidas nos espaços escolares e, consequentemente, o processo de ensino/aprendizagem. Esse contexto tanto cria restrições como oportunidades estruturais para a escola. (SOARES, 2005, p. 179).
Porém a questão social não nos parece ser o determinante principal desta pesquisa, mesmo esta sendo do interior de Petrópolis/RJ, uma vez que os alunos que fizeram parte desta amostra estão incluídos num contexto social muito semelhante: poder aquisitivo, todos são egressos de uma mesma unidade escolar e fazem parte da mesma comunidade.
Dentre os fatores relacionados à identidade escolar, a falta de preparo dos profissionais da educação causa fortes impactos negativos no desempenho dos alunos. Alguns deles não sabem como sanar o gap entre conteúdos que o aluno já deveria dominar e os que são propostos pelo currículo do Ensino Médio. De acordo com Conceição (2011):
Se o professor não está preparado para atuar dentro do processo educativo, com certeza os alunos não têm como aprender. O despreparo do professor resulta diretamente em sérias dificuldades de aprendizagem por parte dos alunos (CONCEIÇÃO, 2011).
Ainda segundo Conceição (2011), em 2004 a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) realizou uma pesquisa buscando traçar o perfil do professor brasileiro das escolas públicas e privadas de todo o país, revelando que muitos profissionais da educação são “pobres no quesito de construção da própria formação”.
Isso se torna um fator preocupante e que requer grande empenho por parte dos gestores para que tal situação se reverta, pois: “o efeito de uma escola no aprendizado de seus alunos é em grande parte determinado pelo professor, por seus conhecimentos, seu envolvimento e sua maneira de conduzir as atividades em sala de aula” (Soares, 2005, p. 189). É necessário proporcionar aos professores
momentos de lazer associados a troca de experiências e de estudo, incentivando a interação entre eles.
Outro fator é a falta de accountability nas escolas públicas. Não há em português um vocábulo que traduza ipsis litteris a palavra accountability, apenas seu conceito. Tal conceito se aproxima do de controle social e do de responsabilização que deve ser imputada pela sociedade aos poderes públicos. Campos (1990) vai além e relaciona accountability com democracia:
Quanto mais avançado o estágio democrático, maior o interesse pela
accountability. E a accountability governamental tende a acompanhar
o avanço de valores democráticos, tais como igualdade, dignidade humana, participação, representatividade. A inevitável necessidade do desenvolvimento de estruturas burocráticas para atendimento das responsabilidades do Estado traz consigo a necessidade da proteção dos direitos do cidadão contra os usos (e abusos) do poder pelo governo como um todo, ou de qualquer indivíduo investido em função pública. (CAMPOS, 1990, p. 04)
Neste sentido percebemos que falta accountability no que tange ao Estado garantir professores em sala, valorizar real e adequadamente os profissionais de educação, proporcionar condições dignas no que diz respeito aos aspectos físicos das unidades escolares.
Sabemos também que a accountability perpassa por cada um dos atores envolvidos no sistema educacional não só o Estado.
A esse respeito Campos (1990) enfatiza:
O exercício da accountability é determinado pela qualidade das relações entre governo e cidadão, entre burocracia e clientelas. O comportamento (responsável ou não responsável) dos servidores públicos é consequência das atitudes e comportamento das próprias clientelas (CAMPOS, 1990, p.06).
Um dos caminhos para a ampliação de accoutability é a ampliação de controle social nas escolas. E, uma das maneiras para que isso aconteça de modo mais efetivo é a instituição, por parte das escolas, de Conselhos Escolares24 pois
24 Cabe ao Conselho Escolar participar da gestão administrativa, pedagógica e financeira da escola,
contribuindo com a melhoria da qualidade do ensino. Ele é constituído por representantes de pais, estudantes, professores, demais funcionários, membros da comunidade local e o diretor da escola e têm funções deliberativas, consultivas, fiscais, mobilizadoras e também pedagógicas (BRASIL, 2007).
nem sempre a comunidade escolar, mesmo que solicitada, participa efetivamente das atividades e “decisões” da escola.
Esta ação corrobora com a afirmação de Soares (2005) de que notadamente a família é um fator determinante sobre o desempenho do aluno. Com a participação efetiva dos responsáveis pelos alunos e com a participação dos próprios alunos, esses fatores que influenciam negativamente o desempenho dos alunos seriam minimizados.
No período que se refere o presente estudo, na transição entre o ensino fundamental e o ensino médio, os fatores relacionados ao próprio aluno, são de naturezas diversas. Fatores cognitivos, emocionais, físicos, sociais e econômicos constituem o cerne de fatores que influenciam os alunos.
Porém, os 54 alunos das turmas de 1ª série do Ensino Médio do colégio A, que fizeram parte dessa amostra, têm altas expectativas em relação ao Ensino Médio: 84% deles pretendem cursar uma universidade e 92% vislumbram concluir o Ensino Médio dentro dos três anos previstos.
Em meio a esse turbilhão de fatores, a escola, mesmo com suas limitações, tem que atuar como facilitadora fazendo com que o aluno se beneficie dela, e não seja mais um entrave para esse aluno, evitando que ele se sinta excluído ou não tenha perspectiva para seu futuro, combatendo o que Sérgio Costa Ribeiro (1991) chamou de “pedagogia da repetência”. Sob esse aspecto, 85% dos alunos desse estudo afirmam gostar de estudar no colégio A.
A busca pela excelência deve ser o fator principal a se assegurar aos jovens fazendo com que estes construam e solidifiquem novos saberes. Dessa forma:
[...] a escola deve constituir-se no espaço de formação de um jovem que se aproxime da realidade de outras formas, que aprenda de modo diferente e que possa construir novos saberes para a cultura de seu tempo (GRILLO et al, 2009).
A escola deve criar vínculos entre situações didáticas25 e adidáticas. As situações adidáticas que, segundo Guy Brousseau (2008), são situações onde o aluno consegue, fora do contexto de ensino e sem nenhuma indicação intencional, utilizar os saberes adquiridos na escola, vêm ao encontro com o preconizado por
25 Situações didáticas são situações ou problemas que são escolhidos pelo professor para que o
aluno interaja com o meio, favorecendo assim a construção de seu conhecimento. (BROUSSEAU, 2008)
Delors em seu relatório a UNESCO (1996) sobre a Educação para o século XXI, quando define como um dos quatro pilares do conhecimento o aprender a conhecer.
O aumento dos saberes, que permite compreender melhor o ambiente sob os seus diversos aspectos, favorece o despertar da curiosidade intelectual, estimula o senso crítico e permite compreender o real, mediante a aquisição de autonomia na capacidade de discernir (DELORS, 2002, p. 91).
Nesse sentido o corpo docente das escolas tem papel fundamental, sua postura diante do conhecimento influi diretamente na qualidade da aprendizagem e consequentemente na atitude do aluno frente ao saber (GRILLO, et al, 2009). Dos 54 alunos do colégio A que fizeram parte desse estudo, 77% deles afirmam que seus professores, de Português e Matemática, são exigentes e explicam muito bem os conteúdos a serem aprendidos. Afinal os professores são os atores que impulsionam essas situações fazendo com que os alunos construam e solidifiquem seus conhecimentos e, consequentemente, apresentem um bom desempenho escolar.
Podemos concluir então que ações dentro da escola, junto ao corpo docente e discente, são grandes aliadas para que o desempenho dos alunos se aproxime o máximo do desejado para o Ensino Médio. As ações propostas no capítulo 3 deste estudo apesar de focar nos alunos das 1as séries do Ensino Médio, podem (e
devem) ser replicadas para as demais séries criando assim um circulo virtuoso de ensino/aprendizagem.
3. PLANO DE AÇÃO EDUCACIONAL – EM BUSCA DE UM MELHOR DESEMPENHO DOS ALUNOS, NA 1ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO.
Este capítulo apresenta um plano de ação educacional (PAE) com o objetivo de criar situações de aprendizagem de modo a aumentar o desempenho dos alunos na 1ª série do Ensino Médio, nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, minimizando suas dificuldades na etapa final da Educação Básica.
Através da análise dos dados apresentados no capítulo 1, verificou-se que os alunos pesquisados não dominaram as habilidades e competências exigidas no
primeiro bimestre da 1ª série do Ensino Médio da rede estadual em Língua Portuguesa e Matemática além de registrarem uma queda de rendimento em relação a seu desempenho na avaliação externa municipal, do ano anterior, quando cursavam o 9º ano do Ensino Fundamental.
Tais informações foram constatadas comparando os resultados obtidos pelos alunos pesquisados quando estudavam na escola B, da rede municipal, cursando o 9º ano do Ensino Fundamental, e fizeram a avaliação externa denominada Prova Petrópolis em maio de 2010, e os resultados obtidos por esses mesmos alunos no Saerjinho do primeiro bimestre, em abril de 2011, quando estavam na 1ª série do Ensino Médio, na escola A. A avaliação externa diagnóstica intitulada Saerjinho englobou as habilidades e competências ministradas no primeiro bimestre das escolas estaduais
As avaliações que foram comparadas, Prova Petrópolis e Saerjinho, foram construídas a partir da Matriz de Referência do Saeb. Em comum, avaliam os alunos em Língua Portuguesa e Matemática, possuindo uma grande intersecção no que diz respeito às habilidades e competências a serem avaliadas.
A partir da comparação das avaliações, Prova Petrópolis e Saerjinho, constatou-se uma diminuição no índice de acertos entre os alunos, tanto em Língua Portuguesa como em Matemática, assim como, computou-se um decréscimo no rendimento total, e, mesmo entre aqueles que tinham atingido o nível avançado na Prova Petrópolis, tiveram suas notas abaixadas para o nível adequado no Saerjinho. Buscando responder a questão deste estudo que investiga os fatores que interferem no declínio de desempenho dos alunos entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, foram destacados, no capitulo 2,subsídios teóricos propostos por Neubauer(2011), que chama atenção para as consequências do desafio da democratização do ensino e a mudança do perfil do aluno. Enquanto Berger Filho (2002) reflete sobre a falta de identidade do Ensino Médio e sobre a permanência do aluno na escola; Soares (2005) elenca fatores intra e extraescolares que se relacionam com o desempenho do aluno.
Assim, percebe-se que diversos fatores influenciam no desempenho escolar favorecendo que haja descontinuidade na apresentação dos conteúdos básicos do Ensino Fundamental, fazendo com que habilidades e competências que já deveriam ter sido adquiridas precisem ser retomadas e por vezes introduzidas de novo no Ensino Médio.
Desta forma, a equipe gestora deve estabelecer um clima escolar propício, oferecendo oportunidades para que os professores possam criar situações didáticas favoráveis a fim de que o Ensino Médio consiga levar os alunos a consolidar os conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental e aprofundá-los, fazendo com que os conhecimentos próprios desta última etapa da Educação Básica deem um aporte satisfatório aos alunos para que, se assim o desejarem, ingressem no Ensino Superior ou no mercado de trabalho, aptos para tal.
Assim, mesmo que o Ensino Médio, de maneira geral, ainda não possua uma identidade claramente definida, faz-se necessário que a gestão pedagógica do colégio defina de forma participativa, mesmo que minimamente, a identidade de sua unidade escolar, tendo como foco principal a aprendizagem dos alunos e tendo altas expectativas em relação ao desempenho deles.
Este PAE propõe, no âmbito da gestão escolar, fazer com que os alunos tenham uma aprendizagem mais significativa melhorando seu desempenho escolar, apoiando e ampliando assim a abrangência das ações já implementadas pela SEEDUC/RJ, como o Currículo Mínimo, o Reforço Escolar e as avaliações sistêmicas bimestrais (Saerjinho).
Através do proposto por este PAE pretende-se dar mais significado, para o aluno, ao Currículo Mínimo determinado pela SEEDUC/RJ o que refletirá diretamente e de modo favorável nas avaliações sistêmicas bimestrais (Saerjinho) e consequentemente no desempenho dos alunos.
No que diz respeito ao Reforço Escolar, o programa muito contribui para a melhora do desempenho dos alunos que ele atende. Porém é um programa que atende, por adesão, a no máximo 15 alunos, e as turmas regulares possuem em média 35 alunos. Desta forma o proposto por este PAE visa atender as turmas como um todo, pois fará parte da rotina das disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática das turmas da 1ª série do Ensino Médio, disciplinas estas que retratam as dificuldades que os alunos, egressos da rede municipal, encontram ao ingressarem no Ensino Médio, na rede estadual, por serem as disciplinas solicitadas nas avaliações que serviram como base de comparação para este estudo.
Acreditamos que esta proposta possa ser aplicada não apenas nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, mas em quaisquer disciplinas e a quaisquer anos de escolaridade uma vez que ela não limita faixa etária nem conteúdos a serem aprendidos.
Na tentativa de compreender quais os fatores que interferem para que haja um declínio tão evidenciado de desempenho dos alunos entre o Ensino Fundamental da rede municipal e o Ensino Médio da rede estadual, este capítulo propõe uma medida inovadora, tendo como atores os alunos recém chegados ao Ensino Médio, seus professores de Língua Portuguesa e Matemática e a equipe gestora da escola A.
Não há registros de práticas, como as que são propostas, nas unidades escolares no âmbito da SEEDUC/RJ, tampouco no colégio A. Assim o colégio A poderá ser considerado como detentor de um projeto piloto e o exposto por este é passível de ser aplicado em qualquer escola no âmbito da SEEDUC/RJ.
Este capítulo apresenta quatro seções divididas de modo a facilitar o entendimento do PAE.
A primeira seção apresenta a metodologia que embasa este PAE, demonstrando como esta pode auxiliar a escola fazendo com que o desempenho escolar dos alunos tenha um aumento significativo.
A segunda seção define como as ações poderão ser adotadas no âmbito do colégio estudado.
A terceira seção apresenta um quadro resumo das ações a serem desenvolvidas e implementadas por este PAE.
E, finalmente, na seção quatro, define-se a forma como o processo educativo será avaliado.
3.1 APRENDIZAGEM COOPERATIVA – UMA OPÇÃO DE CAMINHO A SER