Os estudos de Maslow (1943, 1968) foram publicados pela primeira vez em 1943, sob o título Theory of Human Needs, num artigo desenvolvido e ampliado posteriormente com estudos sobre a personalidade, como Motivación y Personalidad, (Maslow, 1991),
35 e, posteriormente, O homem autorrealizado, (Maslow, 1993), onde desenvolveu amplamente a necessidade que considera de maior relevância: a autorrealização.
Maslow, psicólogo humanista, concebe o homem como um ser completamente diferente de todos os outros organismos, o que significa que a motivação do homem é intrinsecamente diferente da dos animais e, quando as suas necessidades básicas estão satisfeitas, a conduta dos adultos saudáveis e normais está determinada por um tipo diferente de motivação, a autorrealização ou autoatualização.
A competência e a realização constituem o centro da obra de Maslow. Deste modo, para atingir o desenvolvimento completo do sujeito, a autorrealização e o crescimento individual, é necessário procurar atingir as últimas etapas e não as superficiais ou básicas.
Dentro das motivações do comportamento humano, Maslow centrou-se na teoria das necessidades, ainda que defenda que nem todos os comportamentos são determinados pelas necessidades, portanto nem todos os comportamentos são motivados. Pela importância dos seus postulados, faremos um breve resumo dos mesmos a partir da própria obra de Maslow.
Assim, para este autor, o ser humano está dotado de necessidades, mesmo que a maioria das pessoas não tenha consciência que se hierarquiza piramidalmente, sendo a sua satisfação acumulativa e ascendente, ou seja, tem direção, desde os mais elementares aos mais complexos.
As necessidades são de dois tipos: básicas ou carenciais (fisiológicas, segurança, amor e pertença, estima e reconhecimento) e de crescimento ou de desenvolvimento (autorrealização).
O estudo da motivação humana ajuda à melhor compreensão das necessidades que são satisfeitas para participar no desporto, assim como para consumir outros produtos (Ko et al., 2008).
36 2.3.5.1.1. Necessidades básicas
As necessidades básicas são as mais comuns entre a humanidade, muito mais do que os desejos ou as condutas superficiais, sendo que a sua não satisfação causa a doença.
De acordo com Maslow, as necessidades primitivas devem ser preenchidas antes que o indivíduo possa progredir para o próximo nível de necessidades. Quando um nível é satisfeito, o indivíduo está motivado para preencher o nível seguinte.
Estas necessidades básicas dividem-se em:
Necessidades fisiológicas
As necessidades fisiológicas são as mais imperiosas, estando o organismo dominado por elas: comer, beber, a sexualidade, o vestir, entre outras. Indubitavelmente, estas necessidades são as mais importantes, pois se estas não forem totalmente satisfeitas, nenhuma outra existirá ou se manifestará.
Pelas suas particularidades, as mesmas não devem ser usadas para explicar a motivação humana. Como estão organizadas numa hierarquia, o homem tende a concentrar-se na satisfação destas necessidades, antes de se preocupar com as de mais alto nível.
Ressalve-se que alguns indivíduos apresentam necessidades fisiológicas para se exercitar e praticar algum desporto.
Necessidades de segurança
A estabilidade, a dependência, a proteção, a ordem, a lei, a preferência pelo conhecido e o emprego estável constituem necessidades de segurança que surgem após a satisfação das necessidades fisiológicas. Nelas se incluem ainda a preferência pela família, a tendência para ter alguma religião ou filosofia do mundo, que organize o universo e o homem num conjunto satisfatoriamente coerente (Maslow, 1943).
Este tipo de necessidades pode ser o organizador quase exclusivo da conduta de um indivíduo. Podemos descrever o organismo como um mecanismo em busca de segurança. Deste modo, tal como sucede com as necessidades fisiológicas, o organismo
37 pode estar dominado por elas, ainda que com menor intensidade, tendo que satisfazê-las antes de avançar na hierarquia das necessidades.
Segundo Pitts e Stotlan (2002), esta necessidade também se associa à segurança física, assim como à necessidade de permanecer saudável. Nesta ordem de ideias, a forma como os equipamentos de desporto são construídos deve ter em conta a segurança física. No que diz respeito à necessidade de permanecer saudável, muitos praticantes atestam que a primeira razão que os leva a aderir a ginásios e health clubs é manter ou melhorar a sua saúde (Pitts & Stotlan, 2002).
Necessidades de amor e pertença
Uma vez suficientemente satisfeitas as necessidades fisiológicas e de segurança, emergem as necessidades de amor, afeto e pertença, repetindo-se de novo o ciclo já descrito, o que conduz ao aparecimento de outro centro de organização do comportamento. Neste momento, a pessoa sentirá profundamente a ausência de amigos, do(a) companheiro(a) ou dos filhos, logo precisará de se relacionar com pessoas em geral e esforçar-se-á para ultrapassar esta meta. Sem a sua satisfação, serão constantes os sentimentos de solidão, ausência de amizade, rejeição e desenraizamento.
Segundo Pitts e Stotlan (2002), muitos indivíduos escolhem participar no desporto devido aos aspetos sociais que envolve. Para alguns praticantes, é a única maneira de fazer parte de um grupo e interagir com os outros. Uma das necessidades mais básicas inclui a brincadeira e o divertimento como uma necessidade social primária.
Necessidades de estima e prestígio
Todas as pessoas na nossa sociedade (com exceção de alguns doentes) sentem a necessidade ou o desejo de estabilidade, que se baseia na valorização de si mesmo, no autorrespeito, na autoestima e no reconhecimento, na atenção e na estima de outros.
Distinguem-se dois tipos nesta necessidade: um relacionado com o interior da pessoa, como o desejo de ser forte, ter êxito, capacidade, independência e liberdade; outro externo, associado ao lado social, ao desejo de reputação, prestígio e reconhecimento.
38 A satisfação desta necessidade conduz a sentimentos de autoconfiança, força, capacidade, utilidade perante o mundo. Por outro lado, quando esta não é satisfeita, leva a sentimentos de inferioridade, de debilidade e de desamparo. Certamente, o desporto pode contribuir para o aumento da autoestima (Pitts & Stotlan, 2002), contrariando esses sentimentos negativos.
As quatro necessidades básicas descritas anteriormente estão muito mais localizadas, são mais tangíveis e mais limitadas do que as superiores. O estado de gratificação não se traduz necessariamente em felicidade ou satisfação garantida, mas num estado de debate, que suscita problemas, mas também soluções. Quando estão satisfeitas essas quatro necessidades, surgem ou emergem outras novas, porque o ser humano precisa continuamente de maior desenvolvimento pessoal, a autorrealização.
2.3.5.1.2. Necessidades de autorrealização
Uma pessoa autorrealizada detém uma perceção clara e eficaz da realidade, revela maior aceitação de si mesma e dos outros, é mais espontânea e expressiva, mais criativa, demonstra mais capacidade para trabalhar o abstrato, para amar, possui maior abertura para as experiências, necessidade de encontrar significados e de construir um sistema de valores.
A autorrealização refere-se às necessidades individuais para ser tudo aquilo que podemos ser, portanto pode ser preenchida através da participação no desporto, já que este leva um indivíduo a explorar, até ao limite, as suas capacidades físicas e mentais. Como estas necessidades são percebidas com menor urgência do que as básicas, exigem boas condições familiares, económicas e educativas.
Para motivar alguém, é preciso conhecer o ponto em que essa pessoa se encontra na hierarquia das necessidades, só assim será possível orientar a satisfação das suas necessidades para o nível em que se encontra ou ligeiramente acima (Maslow, 1968).
Muitas vezes, a participação no desporto poderá preencher mais do que um nível de necessidades dos consumidores, nomeadamente as fisiológicas, de segurança, sociais, de autoestima e, possivelmente, de autorrealização.
39 As necessidades fisiológicas são satisfeitas através do desporto, enquanto as de segurança se concretizam pela qualidade dos equipamentos, que são desenhados para todas as idades e níveis de condição física. As necessidades sociais são preenchidas ao encarar os locais de prática desportiva como “a sua casa com muitos membros da família”. Por sua vez, as necessidades de autoestima poderão ser facilmente satisfeitas, ao verificar como poderão sentir-se melhor depois de começarem a trabalhar para esse objetivo. Finalmente, as necessidades de autorrealização poderão ser preenchidas ao trabalhar para atingir um corpo ideal, seja na vertente de recreação seja na competitiva.
Podemos descrever as necessidades apresentadas de duas maneiras: quanto à direção do motivo e quanto à força do mesmo (Pitts & Stotlan, 2002). A primeira maneira revela- nos como o praticante pretende reduzir tensão, movendo-se para um objetivo positivo ou para longe de um resultado negativo. No caso da participação desportiva, um indivíduo que obtiver uma boa condição física e perseguir esse objetivo, poderá ainda manter-se afastado de comida menos saudável e de bebidas alcoólicas. No segundo caso, a força do motivo corresponde ao grau pelo qual o indivíduo escolhe um objetivo ou outro. Em marketing do desporto, a força do motivo é caracterizada em termos de envolvimento no desporto. Este envolvimento traduz-se na perceção de interesse e na importância pessoal do desporto. Os especialistas em marketing estão interessados no envolvimento porque tem demonstrado ser um bom preditor do comportamento relacionado com o desporto. Um estudo de Beasley e Shank (1998) demonstrou que o nível de envolvimento está diretamente relacionado com o número de horas que as pessoas participam numa atividade desportiva.