A Geografia ao colocar o indivíduo no centro das questões buscou atribuir novos sentidos à analogia correspondente entre natureza e cultura. Até porque tudo o que nós humanos fazemos é ao mesmo tempo natureza, subjetividade e cultura. Não há a possibilidade de interpretação dos processos culturais, se não, pela captação da intersubjetividade. Assim, na geografia das últimas décadas do século XX, houve um esforço para firmar novos alicerces capazes de incluir o estudo da construção da subjetividade, por meio dos sentidos, das sensações, das percepções, da comunicação e da construção de identidades (CLAVAL, 2001).
Convictos de que a geografia é cultura, a perspectiva cultural que a disciplina engendra abre múltiplas possibilidades para a apreensão das práticas, das representações, das sensibilidades, das percepções e dos discursos que são transportados e materializados nas paisagens. Acerca dessa questão, Claval (2001) conclui que as diversas operações que orientam, circunstanciam e significam as funções atribuídas ao espaço/tempo na vida dos seres humanos, materializam e direcionam os símbolos e as camadas de sentidos dados à paisagem.
A paisagem, nesse caso, é perpassada por diferentes superfícies, sobrepostas por distintos discursos e relações sociais retidos em seu espaço, que a (re) significa como um suporte de representações. São malhas que se apresentam diante de nós enquanto textos a serem lidos, questionados, compreendidos por meio dos sentidos que produzem e que as constroem em diferentes códigos. Consoante, o geógrafo cultural Augustin Berque (1998, p.85) correlaciona à paisagem a “uma marca, pois expressa uma civilização, mas é também uma matriz porque participa dos esquemas de percepção, de concepção e de ação – ou seja, da cultura –.” Nessa mesma linha de pensamento, James Duncan (2004), corrobora com o sentido metafórico da paisagem ser ‘lida’ como um ‘texto’, investido de sentidos. Logo, os discursos que deambulam pelas paisagens não passam impune por seus espaços, enche-os de vida. E, ao mesmo tempo em que são construtores de várias outras paisagens, comportam variados ‘subtextos’ com significados correlacionados ao seu sistema cultural.
Em suma, Berque (1998) procura interpretar os sentidos e os códigos operantes manifestados pelos grupos em relação à percepção das paisagens. Nessa realidade, a ideia motriz visualiza a paisagem, para além da sua estrutura morfológica aprendendo-a por meio de uma perspectiva cultural, mais apta a abarcar as diferentes subjetividades que a circunscreve. Essa análise, que envolve o contexto atual da geografia cultural, prioriza a diversidade de sentidos que serve de argamassa para a construção das paisagens. Nessa acepção, Duncan (2004), aproa nas subjetividades que envolvem a paisagem, interpretando-as como textos criativos, permanentemente reinventados através do seu processo de interação com as várias camadas que a recobre. A intertextualidade que o autor relaciona à paisagem revela-se como significados de realidades atribuídos aos diferentes meios de representação que recaem sobre seus elementos.
Nesse âmbito, a geografia cultural chama a atenção para os diferentes mecanismos de representações que investem a paisagem de sentido por meio de uma multiplicidade de representações que instituem, constituem e materializam-na nas práticas.
A produção dos sentidos no espaço e a centralidade da linguagem nos debates acadêmicos, também ganharam forma com os teóricos influenciados pela hermenêutica ocidental. Entre eles o filósofo Paul Ricouer, o semiólogo Roland Barthes e o historiador Michel de Certeau que foi um dos que exerceram influência significativa entre os estudiosos da geografia cultural (NAME, 2010). Certeau fornece as condições para o entendimento das relações entre história e espaços, no momento que analisa os espaços por meio das práticas e representações que o “orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais.” (CERTEAU, 2005, p. 202).
Assim, a construção dos sentidos existentes nos espaços é dada pela linguagem que concilia as relações que nele se desenvolvem. O que conecta a compreensão da paisagem ao que seria uma análise textual, composta por códigos culturais que servem de referência a uma leitura analítica em busca das experiências humanas. Essa é uma das grandes contribuições de Certeau (2005), dar a ver um caminho capaz de iluminar as narrativas que constituem as várias camadas que sobrepõe à paisagem. O que possibilita o resgate de suas diferentes formas de visualidades. É desse modo, que as representações existentes nas paisagens direcionam a leitura das experiências humanas que nela se firmaram.
Estabelecida como uma elaboração carregada de representações, as visualidades que a paisagem oferece, configuram-se por intermédio da carga cultural de quem a vê, de quem a pratica e a significa. As marcas dos grupos sociais que a incorporam, envolvem práticas aonde o entendimento vai além das duplas sujeito/objeto e natureza/cultura. E, acionam sistemas de reconhecimento dos elementos que correlacionam-se em sua constituição (MENESES,2002).
Ao observarmos uma paisagem só somos capazes de interpretá-la mediante códigos culturais. Para vê-la atuamos com os diversos signos acumulados no decorrer do processo de interação sócio-espacial, que operam conforme a experiência individual e coletiva, tornando-a legível ao nosso olhar. Igualmente, as representações paisagísticas nos conduzem a um emaranhado de criações,
construções e registros humanos. Tais registros que tornam legíveis os diferentes significados que a constituem enquanto uma representação social visível.
De maneira idêntica, o olhar é uma condição essencial para a sua existência cultural, é uma maneira elaborada de percepção de um determinado recorte espacial. Ademais, “não há paisagem sem um observador” como afirma o historiador Ulpiano Meneses (2002, p. 32), em uma significativa análise cultural que elabora sobre a paisagem. Outrossim, a paisagem enquanto representação deriva da apreensão do olhar e da seleção de um enquadramento que comporta aspectos subjetivos. Ou, retomando Simmel [2009 (1913)], para que tenhamos consciência de uma paisagem é necessário que um conteúdo espacial cative o nosso espírito. A subjetividade do olhar aparece, desse modo, permeada por conceitos e representações simbólicas que permitem a fruição dos “elementos da natureza” como paisagem.
Em outras palavras, a associação da paisagem à imagem está no âmago do seu conceito, esse processo existe, desde o surgimento da representação paisagística nas obras de arte do ocidente, como consequência do uso da perspectiva (assunto já discutido anteriormente). Com efeito, no mar de imagens que solidificam os conteúdos, as formas e as simbologias da paisagem, vale destacar o valor da fotografia que tornou-se uma das principais formas de reprodução imagética, relacionando-se, intimamente, com o sentimento humano.
Com destaque, para o seu papel principal de fixar às realidades através de um processo de montagem e seleção frente a uma sociedade em constante transformação a fotografia é uma das representações que mais cristalizou espaços (SONTAG, 2004). Por consequência, assinala-se como registro de “visões nostálgicas, modelares, quintessências, arquetípicas,”, circunstanciadas nas espacialidades, memórias, ideologias e cultura, que se faz presente em toda a dimensão social (MENESES, 2002, p. 36) e que a revela como significativa e análoga ao fenômeno do turismo. Por sua vez, como suporte da fotografia destacou- se o cartão-postal que pela imensa capacidade de circulação carregava e difundia as diversificadas ideologias que se sobrepunham nos espaços representados.
As imagens e sentidos acumulados em uma fotografia dão a ver as centelhas de um instante passado, perpassados pelo plano estético de uma época. Como permite entender Kossoy (2001), imagens selecionadas para o devido registro, que demarcam as narrativas sociais por meio de três momentos essenciais:
a intencionalidade de captar um instante pelo emissor e, ou receptor; a operação técnica que materializa a imagem; e, por fim, a trajetória percorrida pela imagem, desde os significados impostos em suas bases até as diferentes maneiras de preservá-la. Logo, sua expressão é a de uma realidade documental, sua segunda realidade, que está ancorada em aparências a serem decifradas e caracterizadas pela compreensão do seu momento histórico.
Toda paisagem carrega em si uma imagem e toda imagem fotográfica que carrega em si uma paisagem cristalizada “informa sobre o mundo e a vida, porém em sua expressão e estética próprias” (KOSSOY, 2001, p. 152).