Optou-se por uma leitura rente ao texto aristotélico em toda a seção dedicada ao prólogo por se acreditar que é de suma importância a compreensão do desdobramento da argumentação do estagirita. A argumentação permite clarear a característica prefacial dos três primeiros capítulos da Ética a Nicômaco, começando por uma primeira formulação do tema, ao lado da abordagem pretendida. Tendo sido efetuada uma definição satisfatória do tema, ainda que inicial, passa-se à definição do campo científico e à apresentação do método a ser utilizado na pesquisa.
É evidente a preocupação de Aristóteles relativa ao método, preocupação essa conhecida e presente em todas as suas obras. Entretanto, o método não é único, pois para o autor não é possível um método de pesquisa que abarque todos os campos científicos. Consequentemente, em uma pesquisa ética ou política não será diferente, sendo necessário um método específico para uma pesquisa. O caso da ética é especial, afinal a matéria de qualquer pesquisa ética é a ação humana e, diferentemente da maioria dos outros objetos científicos, é a mais variável possível. Novamente se coloca o problema da contingência, a saber, como a ação humana encontra-se no campo da contingência, a possibilidade de uma ciência exata torna-se um desafio quase impossível. Aristóteles tem consciência desta impossibilidade e não busca na ética uma pesquisa com o grau de exatidão que, por exemplo, a matemática possa proporcionar. Em verdade, o autor busca um grau de
107 LEOPOLDO E SILVA,
F., “Felicidade; dos filósofos pré-socráticos aos contemporâneos”, página 32.
adequação entre o método e a matéria da pesquisa - o desenvolvimento desse método ocorre durante o terceiro capítulo da Ética a Nicômaco e recebe um pequeno complemento durante o capítulo quatro, quando o estagirita começa a identificar o melhor dos bens com a felicidade108. Esse complemento encontra-se fora do prólogo, mas se mostra uma explicação importante do método ético, sem ao mesmo tempo deixar o tom prefacial contido na argumentação anterior.
Aristóteles inicia o desenvolvimento de sua metodologia ética afirmando que a discussão a ser feita na pesquisa será satisfatória se tiver um grau de clareza compatível com a matéria de que trata (a ação humana), isso porque não se deve buscar o mesmo rigor (akribés) em todos os raciocínios (lógois). É interessante notar que no início do desenvolvimento de sua metodologia o autor faz uma afirmação acerca do método em geral. Ao se engajar em uma pesquisa o homem deve sempre buscar uma adequação entre a matéria a ser pesquisada e o grau de rigor da discussão. Desta maneira, é possível notar que o ponto de partida de toda discussão é uma compreensão do nível de exatidão que a matéria permite à pesquisa. Assim, se observa que a pesquisa como um todo é determinada pela matéria da mesma, o que leva Aristóteles a seu próximo passo, quando mostrará rapidamente a multiplicidade variável presente na matéria da pesquisa ética:
“a nobreza [kalá] e a justiça que a política investiga [skopeítai] apresentam tantas diferenças e desvios, que parecem ser somente por convenção e não por natureza [phýsei]. Os bens parecem igualmente vagos, pois para muitas pessoas eles podem ser até prejudiciais; pois alguns hão perecido por causa de sua riqueza e outros por sua coragem.”109
Nessa passagem o autor apresenta ao leitor a maleabilidade da matéria da pesquisa ética e, ao dividir a passagem em duas partes, a variedade do objeto ético fica ainda mais óbvia. Primeiramente, o autor coloca dois conceitos largamente
108 Existem diversas passagens referentes ao método em toda a Ética a Nicômaco, mas muitas delas
escapam do intuito prefacial das primeiras linhas da obra. Por isso, elas serão deixadas de lado ao longo desta apresentação acerca do método. Aqui, o que nos interessa é entender todo o prólogo como uma preparação necessária até que se apresente a felicidade como tema principal da obra. Boas leituras acerca do método aristotélico empregado na ética são encontradas no livro de Enrico Berti “As razões de Aristóteles” e no artigo de Arianna Fermani “Aristóteles e a felicidade.
Flexibilidade metodológica e versatilidade existencial”.
conhecidos da política de sua época, a justiça e a nobreza e afirma que mesmo esses conceitos tão conhecidos apresentam diversas diferenças. Tomemos a tragédia Antígona, de Sófocles, em que é possível observar dois personagens e duas leis em confronto: Polinice (Argos) e Etéocles (Tebas), irmãos de Antígona, morrem ao disputar o trono tebano; Creonte, tio dos combatentes, que assumiria o trono, enterra Etéocles com todas as honras e deixa Polinice exatamente onde morreu, sem direito a nenhum ritual fúnebre, condenando à morte qualquer um que lhe tentasse prover um enterro digno; Antígona, em um ato de desespero, rouba o corpo de Polinice e tenta enterrá-lo, sendo encontrada pelos guardas de Creonte e condenada. Ao tentar analisar a obra de Sófocles, a partir dos conceitos de nobreza e justiça, encontramos uma série de problemas e possibilidades de julgamentos dos observadores: tanto é possível afirmar que Creonte foi injusto, pois não permitiu que sua sobrinha enterrasse um familiar, como também que ele foi justo, uma vez que Polinice atacou a cidade. O mesmo acontece com Antígona, pois foi nobre da parte da personagem querer enterrar seu irmão, porém, ao mesmo tempo, suas ações são contrárias a uma lei estabelecida em sua cidade. Com este exemplo, nota-se que a afirmação de Aristóteles tem procedência, pois afinal a avaliação de um ato justo ou nobre não se dará sempre da mesma forma - novamente vemos o papel fundamental da contingência na pesquisa ética, responsável pela extrema maleabilidade do objeto ético.
A segunda parte da passagem opera como uma constatação extremada da variabilidade da matéria ética, pois o autor coloca o bem, que antes definiu como finalidade de toda a ação humana, como algo sujeito à variabilidade, podendo representar infortúnio para alguns. Após a apresentação do objeto da pesquisa ética, Aristóteles conclui que, devido ao ponto de partida proporcionado por esses objetos, deve-se contentar em mostrar a verdade de forma rudimentar e sumária. Partindo de tais dados somente será possível falar do que ocorre em geral, adequando a conclusão à premissa110. Em suma, o método ético até aqui apresentado consiste em uma análise dos objetos e respostas adequadas ao grau de exatidão permitido por esses objetos. A exatidão permitida à ética será composta apenas de verdades e conclusões gerais, o que justificaria as primeiras linhas da
Ética a Nicômaco quando o bem é apresentado como objetivo de todo o agir
humano.
A apresentação das endoxas (opiniões vigentes, populares) compreende um método presente em praticamente todas as obras de Aristóteles, porém na ética esse método tem uma relevância ainda maior. Na Metafísica, por exemplo, ao apresentar as opiniões dos filósofos precedentes, o autor tem em vista um ponto de partida para a sua discussão, porém sua pesquisa envolverá muitas outras coisas, como observação, demonstração e etc. Entretanto, no caso da ética, a função das
endoxas é mais do que um simples ponto de partida, pois se baseia nelas e delas
tira suas conclusões (como no exemplo da tragédia de Sófocles apresentada anteriormente) e é a análise das opiniões que permite chegar a uma verdade esquemática e rudimentar111. Como bem apontou Berti, deve-se sempre lembrar que diferentemente da física e da metafísica, a verdade encontrada na ética serve apenas como meio e jamais como finalidade. A finalidade da ética é a própria ação, uma vez que ela se encontra no tempo presente, buscando o porquê das coisas apenas para poder transformá-las112. Durante a apresentação das primeiras
endoxas, Aristóteles é levado a afirmar que a ética, ao contrário da metafísica, não
parte dos primeiros princípios, mas sim se dirige a eles. Em suma, a ética busca primeiramente o “que” do agir humano (ação, endoxas e etc.) e não o “porquê” do agir humano.
Com o fim da apresentação acerca do método, marca-se o encerramento do Prólogo, o que se confirma a partir de dois pontos: (I) ao fim do terceiro capítulo (1095a 13, fim do Prólogo) Aristóteles afirma que o que foi dito nos primeiros capítulos basta como introdução - o que fica ainda mais óbvio com o início do capítulo seguinte, no qual o autor começa com a expressão “Retomando nossa investigação” (légomen dé analabóntes)113 e segue com uma retomada das primeiras linhas da Ética a Nicômaco. O outro ponto (II) que explícita o tom prefacial dos três primeiros capítulos é o fato de que Aristóteles, após sua apresentação sobre o método, passa a aplicá-lo, analisando uma série de endoxas a fim de colocar a felicidade como o melhor dos bens.
111NUSSBAUM, Martha, “A fragilidade da bondade”, capítulo 8. 112 BERTI, Enrico,
“As razões de Aristóteles”, página116.
A seguir passa-se a um rápido percurso de apresentação das endoxas analisadas por Aristóteles, com o intuito de compreender como o autor chega à identificação da eudaímonia com o melhor dos bens.