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Como distinguir a forte emoção em Vallejo do processo de discernimento que ele foi elaborando entre a retórica conhecida e algo forçada e a sua própria expressão pessoal? Um poema que exemplifica essa emoção é o “Himno a los Voluntários de la República”. Vallejo, antes de sair da Espanha, encontra o seu amigo Julio Gálvez Orrego. Com ele o poeta tinha compartilhado a amizade e a pobreza no recinto denominado “El Predio”, em Mansiche- Trujillo, durante o refúgio na casa que lhe oferecera Antenor Orrego, antes da sua prisão. E foi em companhia desse amigo que Vallejo viajara para Paris (CANDELA, 1992, p. 73).

Ao se encontrarem pela última vez, o poeta experimenta uma dor indescritível ao ter que se despedir do amigo. Vallejo, devido a um esgotamento psíquico e à saúde precária, não pôde acompanhá-lo como miliciano. Julio Gálvez foi fuzilado em Madri pelas forças do

General Franco e Vallejo dedica a seu amigo Julio as primeiras estrofes desse “Himno”, que é o primeiro poema da obra: España, aparta de mí este cáliz:

Voluntario de España, miliciano

de huesos fidedignos, cuando marcha a morir tu corazón, cuando marcha a matar con su agonía

mundial, no sé verdaderamente

qué hacer, dónde ponerme; corro, escribo, aplaudo, lloro, atisbo, destrozo, apagan, digo

a mi pecho que acabe, al bien, que venga, y quiero desgraciarme;

(…) (VALLEJO, 1996, p. 449).

Esse poema é construído tanto com a arte de associar palavras, como também com uma emoção que deixa fluir ferozmente as destruições da guerra, como se pode ler no poema: “... por el que iba la pólvora mordiéndose los codos!”; “vagarian acéfalos los clavos”; “la uña”, “el pecho”. Dir-se-ia que voam despedaçados pelos ares, olhos, corações, frentes, ossos e que ele também os recompõe em versos de uma qualidade expressiva e comunicativa, como o que se segue ainda no mesmo poema:

quiebro contra tu rapidez de doble filo

mi pequeñez en traje de grandeza! (VALLEJO, 1996, p. 450).

Nessas obras póstumas observa-se uma oscilação nos projetos poéticos de Vallejo entre escrever a história da Guerra Civil Espanhola ou escrever uma série de poemas com algum enfoque pessoal. Por isso, as dificuldades em discernir, se de fato alguns poemas pertencem ou não a España, aparta de mí este cáliz. Pelos manuscritos, percebe-se que alguns textos foram descartados ou, quando muito, serviram como rascunho. Segundo Giovanni Meo Zilio (1996, p. 636), considera-se que na obra España, aparta de mí este cáliz, Vallejo utiliza com maior frequência o pronome pessoal “tú”. O uso dessa segunda pessoa deve corresponder à intensificação do projeto poético que o relaciona com a alteridade e “da projeção anímica e ideológica em direção ao interlocutor-ator do resgate da Espanha e do mundo, o miliciano e os seus equivalentes” (ZILIO, 1996), que é a característica desta última obra de Vallejo. Isso porque, como diz Octavio Paz (1982, p. 319):

A conversão do eu em tu – imagem que compreende todas as imagens poéticas – não pode ser realizada sem que antes o mundo reapareça. A imaginação poética não é invenção mas descoberta da presença. Descobrir a imagem do mundo no que emerge como fragmento e dispersão, perceber no uno o outro, será devolver à linguagem sua virtude metafórica: dar presença aos outros. A poesia: procura dos outros, descoberta da outridade.

Ao voltar de Madri para Paris, Vallejo fizera o mesmo percurso de Picasso. Chegou a Viscaya e observou o quadro de horror da situação de Guernica. Visitou Bilbao e ingressou na França por San Sebastián, Biarritz, Bordeaux, Tour e Paris. Ao chegar dessa peregrinação, traduz a amargura e a desolação da Guerra Civil Espanhola e da destruição de Guernica. Ao fazer isso, Vallejo constata que a Espanha foi também um lar, à semelhança do que foi o Peru ao escrever Trilce quando saíra da prisão, um espaço desolado, de sombras que a guerra deixa ao passar, ficando todos órfãos. De uma parte, Picasso fez o retrato mortuário de Vallejo e ambos traduziram uma mesma linguagem para o mundo esfacelado.

Em uma crônica (escrita em Paris e publicada em Variedades, nº 1069, Lima, 25 de agosto de 1928) cujo título é “Os mestres do Cubismo”, Vallejo expressa a sua admiração por esses artistas e diz que “o maior pintor contemporâneo é um espanhol de Málaga: Picasso”. Entretanto, ao falar de Picasso e de Juan Gris (chamando-o “Pitágoras da pintura”), muitas qualidades admiradas nos outros correspondem também à própria arte vallejiana. A crônica relata, por exemplo, como um intelectual chamado Sabord escreve um artigo no qual expressa “surpresa de ver que os revolucionários cubistas começam a gozar de uma consagração absoluta e popular como se não fossem tais revolucionários” (VALLEJO 1994, p. 102). E Vallejo observa: o cubismo irradia uma arte nova, profundamente humana e, sobretudo, do seu tempo: “(...) A difusão do cubismo prova que nele há um alento de um conteúdo amplamente humano, uma vitalidade universal. As grandes correntes estéticas da história tiveram a mesma sorte e consagração” (Id., ibid., p. 104).

Quanto à obra de Juan Gris, Vallejo acrescenta ainda: “está feita de justeza, certeza pura, infalibilidade goethiana; sem sumir em nenhuma escolástica estreita”72

(VALLEJO, 1994, p. 104). Todas estas características eram, na verdade, também aspirações para a escrita de Vallejo, que soube encontrar um caminho que traduzisse tais revoluções. Uma vez que o cubismo na pintura, como diz Jakobson (1976, p. 126), também acontece na literatura,

o cubista multiplicou o objeto sobre o quadro, mostrou-o de diferentes pontos de vista, tornou-o mais palpável. É um procedimento pictórico. Mas há ainda a possibilidade de motivar, de justificar este procedimento no mesmo quadro: por exemplo, o objeto é repetido porque se reflete no espelho. Dá-se exatamente o mesmo na literatura.

72 Su obra está hecha de justeza, de certidumbre pura, de infalibilidad goetheana. Sin sumirse en ninguna

Após uma segunda crise da sua doença intestinal, Vallejo recebeu cinquenta libras peruanas, o valor da sua passagem da França para o Peru. Mas ele não podia voltar para o seu país, pela ordem de extradição do Tribunal Correcional de Trujillo, solicitando-lhe que como réu ausente se apresentasse no cárcere de Trujillo para efeitos de um julgamento em audiência pública. E o seu irmão Víctor confirmara-lhe que o Tribunal de Trujillo havia ordenado a sua captura. Então, ele juntou esse dinheiro ao da bolsa de estudos que recebia da Universidade de Madrid e fez uma viagem a Moscou, no mês de outubro de 1928. Um ano depois, regressaria à União Soviética e ainda uma última vez, em 1931. A seguir irá iniciar-se no marxismo. Em 1929-1930 serão anos nos quais se cristalizará de forma definitiva a sua evolução revolucionária e, dali em diante, se afirmará como militante. Ele foi censurado nos artigos que enviou como colaborador a Mundial e a Variedades e que lhe serviam como sustento desde 1925. E terá que renunciar a esse trabalho.

Por se reunir com militantes, entrevistar pessoas investigadas, ser leitor de “L´humanité” e da sua livraria, Vallejo chama a atenção da polícia, que o assinala como “indesejável”. Em dezembro de 1930, ele é expulso do território francês (Decreto 12/12/1930). Mas, por viajar com os seus próprios recursos, ele entrará na Espanha na qualidade de homem livre. Chega a Madrid no final de ano de 1936, quase ao mesmo tempo da chegada a Madrid da Primeira Brigada de Voluntários internacionais, que ocorreu em novembro de 1936. Lina Odena era a Secretária da Juventude do Partido Comunista e morreu em uma emboscada entre Granada e Guadix. E Vallejo a homenageia no verso 51 do primeiro poema (I) de España, aparta de mí este cáliz:

Consideremos (...)

a Teresa, mujer, que muere porque no muere

o a Lina Odena, en pugna en más de un punto con Teresa… (Todo acto o voz genial viene del pueblo

y va hacia él, de frente o transmitidos por incesantes briznas, por el humo rosado

de amargas constraseñas sin fortuna). (VALLEJO, 1996, p. 312).

Nesse poema, “Himno a los voluntarios de la República”, Vallejo cita homens e mulheres do Siglo de Ouro espanhol, Calderón de la Barca, Miguel de Cervantes, Francisco Quevedo e Santa Teresa (1515-1582). O verso “Muero porque no muero” faz parte do poema da Santa “Vivir sin vivir em mí”. Esses homens e mulheres de Letras e Artes estão, no poema de Vallejo, como em uma corrente de energia a favor do povo, para resgatar a dignidade em

um momento de conflito, como é o da Guerra. Misturados aos nomes de Antonio Coll (marinheiro que, na defesa de Madrid amarrou dinamite na cintura para fazer estourar os tanques inimigos e servirá de base para o poema VIII – “Aquí, Ramón Collar”, LARREA, 1979, p. 129), de Lina, do proletário, do camponês, do operário, compreendemos melhor, quando mais adiante, no poema ainda, tal qual um anúncio das bem-aventuranças, o verso 102 diz: “¡Entrelazándose hablarán los mudos, los tullidos andarán!”. Percebemos que o conteúdo do enunciado por meio da história diacrônica e sincrônica do povo espanhol, o ontem e o hoje comparecem concomitantemente no poema e passam a ter significado de vida.

Na Espanha, como suas condições materiais eram precárias, Vallejo trabalhou intensamente. Ele traduziu um livro de Henri Barbusse, Elevación; La calle sin nombre y la

yegua verde de Marcel Aimé. Em março de 1931, publicou El Tungsteno, que se traduziu para

o russo. São obras também desse período: El arte y la revolución e Moscú contra Moscú. Desse modo, os anos 1930 caracterizaram-se, na trajetória de vida de Vallejo, pela sua participação no horizonte sócio-político-cultural e artístico de seu tempo (Paris cosmopolita, Rússia soviética, Espanha miliciana). E assim ele sonha e luta por um mundo melhor, e pode-se dizer que a vida em prol da causa revolucionária e de solidarização com a dor humana marcaria um outro ciclo que se refletiria na sua escrita.

Em julho de 1936, estoura a Guerra Civil Espanhola e mobilizou em defesa da República as forças revolucionárias (anarquistas, marxistas, democratas dispostos a preservar a República) para lutar contra as forças fascistas e reacionárias. E Vallejo entrega-se com fervor à causa republicana. Em 1937, um ano depois do início da guerra, ele participa como delegado pelo Partido Comunista peruano do II Congresso Internacional para a Defesa da Cultura, abertamente antifascista, organizado pelo comitê internacional de escritores composto por André Gide, Thomas Mann, André Malraux, Romain Rolland, Aldous Huxley e Waldo Frank. Nesse Congresso também estiveram presentes Vicente Huidobro, Pablo Neruda, Octavio Paz, Nicolás Guillén, Antonio Machado, Miguel Hernández, Louis Aragon, John dos Passos, Ernest Hemingway. Com escritores e intelectuais representantes de muitos países, o Congresso permitiu um espaço de participação desses em termos de manifestarem suas preocupações com a guerra e expressarem solidariedade em nível mundial.