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Segundo Jacobi (1973), Jung distingue o arquétipo como forma pura ou “arquétipo em si” do “arquétipo apresentado”. O arquétipo em si nada é além da forma, forma vazia e anterior, potencial fecundo de energia, porém desprovido de qualquer conteúdo ou de substrato, sendo, no entanto, subjacente às formas reais. Como tal, não é perceptível, portanto irrepresentável e apenas potencialmente presente, diverso do arquétipo apresentado que é perceptível e pode ser realizado e representado, ou seja, torna-se imagem arquetípica. A autora explica que o arquétipo em si torna-se imagem arquetípica, atitude emocional típica ou padrão de ação quando realizados em complexos através dos canais de condicionamentos, quando então são preenchidos e matizados com as experiências pessoais, predominantemente durante a infância.

Jung (2008) considera importante que a descrição do processo seja feita da forma como se apresenta na experiência imediata. Segundo ele, o próprio processo em si é um arquétipo e constitui uma classe distinta de arquétipos, a qual ele denominou de arquétipos de

transformação. Diverso dos demais arquétipos, que geralmente comparecem e atuam nos

sonhos e fantasias como personalidades ou personagens, os de transformação se apresentam como situações típicas, lugares, caminhos, meios, etc, cada qual simbolizando um tipo de transformação. Assim como os demais arquétipos, estes também são símbolos autênticos e

genuínos. Não podem, portanto, serem interpretados exaustivamente, nem como sinais nem como alegorias, na medida em que eles são ambíguos e indescritíveis devido à ilimitada riqueza de referências. Embora sejam em parte reconhecíveis, são carregados de pressentimen- tos e inesgotáveis, pois sua natureza corresponde a uma multiplicidade de sentido, o que im- possibilita toda e qualquer formulação unívoca e, provavelmente, é deste aspecto que vem a predileção de Jung pelo método da amplificação em lugar do da interpretação, o qual ele considera redutivo e tendenciosamente matizável pelas próprias representações do intérprete.

Segundo Jung (2003),

O perigo principal é sucumbir à influência fascinante dos arquétipos, o que pode acontecer mais facilmente quando as imagens arquetípicas não são conscientizadas. Caso exista uma predisposição psicótica pode acontecer que as figuras arquetípicas - as quais possuem uma certa autonomia graças à sua numinosidade natural - escapem ao controle da consciência, alcançando uma total independência, ou seja, gerando fenômenos de possessão. No caso de uma possessão pela anima, por exemplo, o paciente quer transformar-se por autocastração numa mulher chamada Maria, ou então receia que algo semelhante aconteça violentamente. O melhor exemplo disto é o livro de SCHREBER" (p. 48)

Whitmont (1985) procurou detalhar minuciosamente a forma que um arquétipo se realiza. Suas idéias serão aqui reproduzidas de forma bastante literal, dada a singularidade do tema, escassez de literatura neste nível de detalhamento e a dificuldade daí advinda em fazê-lo de outra forma.

Inicialmente, a criança se desenvolve com base nas experiências sensórias e intuitivas (pré-simbólicas), ou seja, desenvolve primeiramente as funções perceptivas, as chamadas irracionais (Jung,1998).

No entanto, segundo este autor, existe um espectro de diferentes graus de realizações na expansão da vivência consciente entre os preceitos da criança e a intuição simbólica do adulto maduro, que pode ser descrita em três estágios.

Em relação ao mundo exterior, tem-se, inicialmente, preceitos, depois conceitos abstratos e posteriormente, experiências simbólicas intuitivas. E em relação ao mundo interior, ocorre inicialmente uma identificação com as respostas automáticas do tipo reflexo, então há o desenvolvimento de uma compreensão e uma racionalização intencional consciente das nossas emoções e impulsos e finalmente, torna-se possível desenvolver a capacidade de vivenciar a significação simbólica.

A primeira fase, a do funcionamento perceptual e do automatismo reflexo. Para Whitmont (1985),

Ocorrem na identidade mágica dos sonhos exterior e interior da criança, prepara o cenário, as realizações básicas e iniciais dos arquétipos ocorrem então em termos da interação de identidade ambiental da criança. Os complexos, as unidades do funcionamento psíquico manifesto, são assim formados (p. 103).

Este autor cita um zoólogo, Portmann, que fez um estudo sobre biologia e espírito, e traz a idéia de “imprinting”, citando o caso do ganso que, ao nascer, escolherá e seguirá como seu protetor a primeira criatura viva que vir após sair do ovo e do filhote de pato que se encolhe com medo quando a réplica de uma ave de rapina é colocada sobre sua jaula. Comenta então, que não só a satisfação das necessidades e de relacionamento é efetuada deste modo mas também, a imagem do inimigo típico pode ser inata e herdada. Assim, a imprimibilidade pressupõe um padrão estrutural à espera de ser ativado e cita outros exemplos que:

Ilustram a prontidão de resposta de estados comportamentais e emocionais, padrões estruturais “à espera de serem ativados” ou, como designamos o processo, de ser realizados. (...) A experiência e o hábito podem determinar o comportamento de um animal, mas aqui está demonstrada a existência de tais “padrões de comportamento pré- formados” no sistema nervoso e sensório de animais. (...) A realização destes padrões ocorre através da “atuação” num campo unitário onde a percepção, a emoção e a ação são uma só coisa e sem consciência no sentido aqui adotado. Essa também é a primeira forma de realização dos bebês e das crianças pequenas (Portmann, citado por Whitmont, 1985, p. 105).

Em relação aos bebês, pode-se citar o exemplo do ato de sugar diante de um seio lactante. Tal situação poderia ser chamado de instinto, mas o próprio Jung (2000) se referiu ao arquétipo como “imagem do instinto” e disse que:

A “assimilação da imagem”, significa e ao mesmo tempo evoca o instinto, embora sob outra forma inteiramente diversa daquele em que encontramos ao nível biológico”. (...) Psicologicamente, porém, como imagem do instinto, o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é um mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos (p.149).

A segunda fase, que geralmente vai dos cinco anos até os cinquenta anos, os arquétipos manifestam-se ao modelar nosso sistema de referência racional, o qual, equivocadamente, consideramos adquirido de forma consciente e intencional.

Contudo, nossas convicções e idéias conscientes são apenas criações da psique inconsciente, estruturas arquetípicas “preenchidas” com material ideativo consciente. Mais tarde, temos condições de perceber a discrepância entre os ideais consciente e o funcionamento inconsciente das camadas mais profundas da qual se diferenciou. Podemos então tentar corrigir a unilateralidade das realizações originais através de fuma compreensão racional dos fatores ambientais que as determinaram. Confrontamo-nos então com objetos e (...) somos capazes de compreender as influências da infância que nos moldaram e que muitas vezes distorceram nossas reações. Através da reeducação consciente, uma parte desse desequilíbrio pode ser corrigida (Whitmont,1985, p.103).

Na terceira fase, a da intuição simbólica, é possível se ter uma noção do elemento de significação da vida, o qual pode ser apresentado através impasses da infância, dos conflitos interiores e exteriores dos adultos e da visão madura potencial destes. Nesta fase, o substrato material, isto é, imagens, emoções e ações capazes de se tornarem conscientes, aponta para além de si mesmo e da limitação tempo-espaço da consciência e, justamente através elaboração simbólica ou da compreensão do significado das vivências, é possível uma reconciliação dos conflitos entre as fases anteriores, ou seja, entre a realização não-racional e a racional (Whitmont, 1985).

Jacobi (1973) afirma que todo símbolo é ao mesmo tempo ”um arquétipo em si”, mas que o arquétipo é um símbolo em potencial e quando uma constelação psíquica for adequada, o seu “núcleo dinâmico” poderá realizar-se e manifestar-se como um símbolo:

O conteúdo puramente humano-coletivo do arquétipo – que representa a matéria prima fornecida pelo inconsciente coletivo - se relaciona com o consciente e o caráter formativo deste, o arquétipo recebe “corpo”, “matéria”, “forma plástica”, etc; passa agora a ser apresentável e uma verdadeira imagem, uma imagem arquetípica, um símbolo. E, se quiséssemos defini-lo do pondo de vista funcional, poderíamos dizer que o “arquétipo em si” é, essencialmente, energia psíquica aglomerada, mas o símbolo é agregado pelo modo como a energia aparece e se torna justamente constatável. Neste sentido, Jung define símbolo também como “índole e retrato da energia psíquica”. Por essa razão também,

nunca se pode encontrar o arquétipo em si de maneira direta, mas apenas indiretamente, quando se manifesta no símbolo ou no sintoma ou no complexo

(Jacobi ,1973, p.73).

Assim, é importante reconhecer que fenômenos tão diversificados como respostas instintivas, idéias, hábitos comportamentais, afetos, emoções, complexos, sintomas e experiências simbólicas são todas manifestações fenomênicas do processo de realização de arquétipos.