As concepções de Lutero sobre Educação, principalmente sobre uma educação cristã,
problemas da Igreja e também da sociedade, aconselhando-as sobre o que deveriam melhorar
e como deveriam ser. Contudo, em alguns de seus escritos, podem-se encontrar referências
mais específicas à educação escolar, como é o caso de: “À Nobreza Cristã da Nação Alemã,
acerca da melhoria do Estamento Cristão”, de 1520; “Aos Conselhos de todas as cidades da
Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs”, de 1524 e “Uma Prédica para que se
mandem os filhos à Escola”, de 1530. Destes textos, tomados como fonte principal para a
análise da educação escolar proposta por Martinho Lutero, pretende-se iniciar a reflexão
proposta por este trabalho.
O texto escrito em 1520, “À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da melhoria do
Estamento Cristão”, é um apelo que Lutero faz ao imperador e aos nobres alemães para que
tomassem a iniciativa e fossem instrumentos na melhoria da nação alemã (tanto na Igreja
como para a sociedade em geral), visto que as autoridades eclesiásticas se recusavam a
atender as reivindicações de reformas, sendo elas mesmas as causadoras do estado deplorável
em que se encontrava a cristandade:
A aflição e dificuldade que oprime a todos os estamentos da cristandade, sobretudo os territórios alemães, que levou não somente a mim, mas a todo o mundo a clamar e a pedir ajuda muitas vezes, obrigou-me também agora a gritar e clamar, para ver se Deus haveria de conceder a alguém o Espírito de estender sua mão à miserável nação alemã. (OSel, 2, p. 280).
Trata-se de um dos escritos mais famosos de Lutero, publicado em Agosto de 1520 e
dedicado ao Senhor Nicolau von Amsdorf19
, professor na Faculdade de Teologia da
Universidade de Wittenberg e amigo de Lutero. Segundo Joachim Fischer, na introdução
desse texto editado nas “Obras Selecionadas de Martinho Lutero”, foi ampla a repercussão de
seu escrito que encontrou apoio “em todas as camadas sociais como porta-voz dos anseios
nacionais”, sendo que, após uma semana, a primeira edição com tiragem de 4.000 exemplares
19
Nicolau von Amsdorf (1483-1565) foi professor na Faculdade de Teologia da Universidade de Wittenberg desde 1511, superintendente em Magdeburgo desde 1524, bispo evangélico em Naumburgo desde 1541 e superintendente geral em Eisenach desde 1548 (LUTERO, 2000, p. 279, v.2).
já estava esgotada; no ano de 1520, houve 11 reedições impressas nas cidades de Leipzig,
Augsburgo, Basiléia e Estrasburgo (LUTERO, 2000, p. 278, v.2).
Lutero inicia seu texto atacando a Cúria e as doutrinas inventadas pela Igreja que
acabaram se tornando os fundamentos de toda a ordem eclesiástica e que eram muito
discrepantes das Escrituras Sagradas, como, por exemplo, o supremo poder do Papa:
Estabeleça-se que nenhuma questão secular seja levada a Roma, mas que todas elas sejam deixadas ao poder secular, como eles mesmos determinam em seus direitos canônicos, porém não o cumprem. [...] O papa não deve ter qualquer poder sobre o imperador, senão o de ungi-lo e coroá-lo sobre o altar, assim como um bispo coroa um rei [...]. Não cabe ao para elevar-se acima do poder secular senão em funções espirituais como pregar e absolver. (OSel 2, p. 302-305).
Ele condena toda a riqueza, pompa e ganância presentes em toda a Sé Romana e trata
de assuntos importantes que realmente deveriam ser tratados nos concílios. Walter Altmann
(1994, p. 191) ainda afirma que “não há dúvida de que o desmascaramento da ideologia do
poder papal, a partir da doutrina teológica do sacerdócio universal de todos os crentes
desenvolvida por Lutero, é o que há de mais fundamental nesse seu escrito”.
Marc Lienhard (1998, p. 79) corrobora essa idéia ao afirmar que, nesse texto, Lutero
incitou o conjunto das autoridades políticas para atuarem em favor de tais mudanças, contudo,
“indo mais além das autoridades, Lutero dirigiu-se ao conjunto dos cristãos, já que toda
pessoa cristã pode e deve julgar os assuntos da fé, com base no princípio do sacerdócio
universal, tema central do Manifesto” (grifo do autor).
Esse texto compõe-se de duas partes, sendo que na primeira ela apresenta sua
concepção de Igreja, distinguindo o Estado eclesiástico e o estado laico e na segunda, ele
apresenta uma série de reformas. Dessa maneira, ele não somente critica os erros das
autoridades eclesiásticas e os ensinamentos deturpados que estavam prejudicando a sociedade,
como também aponta alguns caminhos. Propõe 26 propostas de reformas que, se implantadas,
ele publica “a declaração definitiva do pensamento protestante”. Para Walter Altmann (1994,
p. 188), é nesse escrito que aparece, “pela primeira vez, de uma forma muito mais clara, o
perfil do Reformador, a saber, não somente o reformador da Igreja, mas também, [...] do
social e do político”; visto que nele constava toda a sua doutrina revolucionária (RANDELL,
1995, p.46).
De acordo com Keith Randell (Ibid., p. 47), Lutero teria escrito esse texto para
convidar os governantes leigos da Alemanha a assumirem o controle das questões religiosas
em seus territórios, visto que ele havia
[...] claramente abandonado toda a esperança de reformar a Igreja a partir de seu interior. Seria necessário impor a mudança de fora. Essa idéia, mais do que qualquer outra apresentada por Lutero, devia marcar o final do conceito medieval da cristandade e introduzir a moderna era secular.
Vanderlei Defreyn (2004, p. 41) avalia que Lutero teria sentido necessidade de argumentar em
favor do ofício secular, “legitimando-o como sendo um chamado (Beruf), através do qual se
presta um culto a Deus”. No entanto, apesar da diversidade de assuntos tratados no Manifesto
e sua vinculação com a vida cotidiana dos alemães terem garantido um grande sucesso ao
texto (foi editado 13 vezes somente no ano de 1520), “algumas pessoas iriam assumir as
reformas sociais e políticas propostas por Lutero e negligenciaram o que para ele era o
essencial, a saber, uma volta da cristandade à Sagrada Escritura e à fé” (LIENHARD, 1998, p.
83).
A educação escolar é tratada de forma mais geral nesse escrito, sendo o item 25 das
propostas de Lutero o que contém sugestões acerca da necessidade de reformas nas
universidades, apontando quais livros deveriam ser estudados, e da criação de escolas para
meninos pequenos e para as meninas onde se ensinasse o Evangelho.
As universidades também precisam de uma boa e profunda reforma. Tenho que dizê-lo, aborreça a quem quiser. [...] Nas escolas superiores e inferiores a lição mais importante e comum deveria ser a Sagrada Escritura, antes de qualquer coisa, e, para os meninos pequenos o evangelho. Queira Deus que
cada cidade tivesse também uma escola para meninas [...]. (OSel, 2 p. 328- 333).
Vanderlei Defreyn (2004, p. 26) afirma que o foco desse escrito ainda está centrado na
universidade, que ele considerava estratégica para que se realizassem melhorias na sociedade,
visto que elas formavam as pessoas aptas para a missão na Igreja e na sociedade.
Entretanto, Lutero volta maior atenção à educação escolar e se dedica a elaborar
propostas mais detalhadas sobre o assunto, nos textos de 1524 e 1530. A carta “Aos
Conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs”, que
data de 1524, foi escrita por Lutero visando atingir os dirigentes e câmaras municipais das
cidades da Alemanha. Segundo Nestor Beck (1995) na introdução desse texto editado nas
“Obras Selecionadas de Martinho Lutero”, ele foi publicado pela primeira vez em Janeiro ou
Fevereiro de 1524, por Lucas Cranach, em Wittenberg e reeditado muitas vezes em outras
cidades da Alemanha como Erfurt, Nurenberg, Estraburgo, entre outras.
A obra traduzida para o latim, por Vicente Obsopöus e revista por Filipe Melanchthon,
foi publicada provavelmente em 1524 em Hagenau e, posteriormente, em Wittenberg em
1577 e, em Leipzig, em 1579. Ela também foi traduzida para o inglês, espanhol e outras
línguas modernas. A versão mais divulgada da tradução para o português data de 1995, pela
Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo.
Nestor Beck ainda afirma que esse texto em alemão encontra-se nas principais edições
das obras de Lutero e que ele foi o responsável por abrir “caminho para a disseminação do
ginásio humanista cristão em toda a Europa” (OSel 5, p. 302).
Em uma outra publicação em português da coleção intitulada “Lutero para Hoje”, as
editoras reúnem os dois textos (os de 1524 e 1530) em um livro chamado “Educação e
Reforma” (2000) e em sua introdução Ricardo Rieth reflete sobre o que teria levado Lutero a
escrever esse texto, que destina para as autoridades locais das cidades. Com a propagação da
que apesar de representar um ganho para a pregação evangélica, significou uma destruição
dos recursos materiais e humanos que sustentavam muitas escolas: “Em primeiro lugar,
constatamos hoje em todas as partes da Alemanha que as escolas estão no abandono. As
universidades são pouco freqüentadas e os conventos estão em declínio” (OSel 5, p. 303).
Para Ricardo Rieth (Lutero, 2000, p. 3-4), somam-se a esse, outros fatores como:
[...] também não se manifestava mais nas pessoas o estímulo de outrora para alcançar um nível mínimo de formação, já que isso não mais valeria a pena em função do descrédito atribuído à vida monástica. Além disso, alguns setores do movimento reformatório assumiram uma postura radicalmente hostil à formação em geral. Em diversos lugares, escolas e universidades experimentaram uma profunda crise.
Dessa forma, insatisfeito com essa situação, Lutero teria apelado às autoridades das
cidades alemãs para intervir em prol de uma educação escolar já que os pais não se atentavam
para isso:
Pois não, objetas tu, isso tudo diz respeito aos pais. Que tem os conselheiros e autoridades a ver com isso? Está certo; no entanto, que acontece se os pais não o fazem? Quem o fará? Simplesmente não se fará nada e as crianças ficam negligenciadas? Acaso as autoridades e o conselho querem desculpar-se e dizer que isso não lhes diz respeito? (OSel 5, p. 308)
Ele expõe, nesse texto, como deveria ser, enfatizando questões de método, conteúdo,
finalidades do ensino, entre outras, e também legitimando “a função secular da escola”
(DEFREYN, 2004, p. 34). Segundo Vanderlei Defreyn (Ibid., p. 32), Lutero teria dirigido
esse escrito aos conselhos municipais e não aos nobres (como em 1520), devido sua decepção
com estes, que estariam mais preocupados com seus prazeres particulares e também por
considerar que nas cidades havia mais chances de ser atendido, visto que muitas já haviam
recepcionado bem o movimento da Reforma.
Nota-se que esse escrito teve repercussões positivas na sociedade, pois, na introdução
do sermão por ele escrito em 1530, Lutero afirma ter recebido notícias de que, em muitas
que com insistência diária obrigaram o conselho a instalar escolas e paróquias” (OSel 5, p.
329).
Esse segundo texto, “Uma Prédica para que se mandem os filhos à Escola”, foi escrito
por Lutero em Julho de 1530, na fortaleza de Coburgo, e publicado em Wittenberg, por
Nickel Schirlentz, em Agosto do mesmo ano. Nesse período, Lutero encontrava-se refugiado
nessa fortaleza sem companheiros e, de acordo com Nestor Beck (OSel 5), na introdução
desse texto, esse foi o momento em que ele aproveitou para realizar projetos literários e
assessorar, por cartas, o eleitor da Saxônia durante a assembléia imperial em Augsburgo.
Lutero teria idealizado essa obra desde Abril de 1529 quando, ao redigir um prefácio
para a obra de Justo Mênio, promete que lançaria um livro para expor aos pais o dever de
educar bem as crianças, atendendo a responsabilidade de proverem a Igreja e o Estado de
líderes e servidores.
Assim, ele realiza esse seu objetivo redigindo essa “exortação ou discurso hortatório
[que] está organizada de acordo com os padrões que caracterizam esse gênero literário na
retórica tradicional” (Beck apud OSel 5, p. 326). Essa obra foi traduzida para o inglês e
espanhol, entre outras línguas modernas e para o português, fazendo parte de “Obras
Selecionadas” da Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo.
Esse texto foi dedicado por Lutero ao secretário do Conselho da cidade de Nurenberg,
Lázaro Spengler, que havia instituído e instalado, nessa cidade, em 1526, por iniciativa e
orientação de Filipe Melanchthon, o Ginásio de Egídio que, segundo o próprio Lutero, era
uma excelente e maravilhosa escola com professores dos mais qualificados (OSel 5, p. 327).
Lutero (Ibid.) explicita também seu objetivo e o público para quem teria escrito a
exortação:
[...] escrevi uma prédica para os pregadores de toda parte, para que conclamem as pessoas a enviarem seus filhos à escola. [...] É meu desejo que traga bons resultados. Dediquei-o a V. Sª com a única intenção de lhe dar
tanto mais autoridade para que, se ele o merece, seja lido também entre vós por vossos cidadãos.
Ou seja, a obra se destinava aos pregadores e autoridades seculares para que pregassem e
divulgassem seu conteúdo a toda a população, exortando os pais quanto aos benefícios e
prejuízos para a Igreja e para o Estado em se promover ou negligenciar a educação escolar
cristã que ele havia pregado já no texto de 1524.
De acordo com Ricardo Rieth, após o escrito de 1524, que apresentou repercussões
positivas, as condições para a educação escolar estavam sendo dadas, mas “os pais ainda não
tinham plena consciência da importância e da necessidade de enviar seus filhos às escolas”
(apud Lutero, 2000, p. 5). Além da falta de consciência, apontada por esse autor, Lutero
invoca outro motivo, suscitado pelo desenvolvimento econômico, pelo qual os pais estavam
deixando de enviar os filhos à escola e contra o qual ele rebate asperamente:
[...] há muito motivos para desviar as crianças da escola e servirem ao dinheiro (a saber, o comércio). [...] não há o que temer a não ser que algum idólatra ou escravo de ídolos (refiro-me ao dinheiro) tire seu filho da escola alegando: ‘Se meu filho sabe calcular e ler é o que basta [...] (OSel 5, p. 327- 8).
A própria questão econômica é mencionada por Vanderlei Defreyn (2004, p. 42) como
um dos argumentos que Lutero utiliza, nesse escrito, para convencer os pais a enviarem seus
filhos à escola, pois, visto que havia uma consciência forte naquele momento de que a vida
seria muito curta, ele procura ressaltar o retorno financeiro tanto para pastores como para as
atividades seculares.
Os textos citados representam, de certa forma, o quanto Lutero faz suas propostas e
interferências baseadas na sua doutrina dos dois reinos, ou seja, o quão relevante seria tanto
para o Estado como para a Igreja, pais compromissados e cidadãos bem educados para
atuarem no governo secular e no espiritual.
Neles, Lutero apresenta não somente questões de caráter conceitual e os princípios
deveria ser organizado esse novo ensino, que ele propõe que seja para todos. No entanto,
estudiosos de Lutero afirmam que, apesar dele esclarecer em seus escritos diversos pontos
sobre a forma como deveria se dar esse ensino escolar, eles “não chegam a formular uma
teoria cristã de educação” (Beck. apud OSel 5, p. 301).
Ricardo Rieth (Lutero, 2000, p.5) compartilha dessa idéia, afirmando que “Lutero não
teve por objetivo desenvolver uma teoria da educação em perspectiva cristã. Quis, isso sim,
seguir estimulando a sociedade a empenhar-se por uma educação formal de qualidade”,
baseada na compreensão que ele tinha da atuação de Deus no mundo através dos dois
governos.
Além dos textos apresentados, destacam-se os Catecismos escritos por Lutero, que
acabaram sendo usados nas escolas, e o texto “Instrução dos Visitadores aos Párocos”,
redigido por Melanchthon em parceria com Lutero, em 1528, e que destina uma parte com
orientações sobre como deveriam ser organizadas as escolas. Diante da vastidão da obra de
Lutero, não foram muitos os textos que ele teria dirigido especificamente para tratar a
educação, os que ele destinou a fazer isso
[...] tiveram tanto impacto que podem ser considerados a semente do desenvolvimento da reforma escolar no século XVI. Esses trabalhos não influenciaram somente professores e pregadores através da Alemanha, mas eles também encorajaram outros teólogos a considerar o papel da educação na sociedade (FABER, 1998, p. 2)20.
Situados os principais textos de Lutero que abrangem especificamente as suas
propostas iniciais para uma reforma da educação escolar, passa-se a uma análise de dois
grandes campos neles contidos, ou seja, a forma de organização do sistema escolar e os
princípios e fundamentos que orientam essa tentativa de mudanças educacionais ocorridas
durante o movimento da Reforma Protestante que tiveram Lutero como protagonista e que
receberam importantes influências e auxílio.