Quando refletimos sobre o estudo do iconoclasmo é impossível não pensar também na forma como a imagem adquiriu importante papel não só na história cristã, mas também na história bizantina. A questão que fica é como a imagem passou a ser vista como objeto de idolatria a ponto de surgir no século VIII uma legislação imperial contra a mesma.
Para tentar compreender esse problema é preciso, primeiramente, que procuremos entender o que é o ícone e como este foi ganhando espaço na história cristã e bizantina. Segundo o verbete ícone65 encontrado em The Oxford Dictionary of Byzantium, o termo “ícone” ou “imagem” significa qualquer representação de um personagem considerado sagrado, podendo ser produzido de várias formas e tamanhos. Na maioria das vezes o ícone se refere a um painel de madeira pintado de forma devocional. Presente nos cultos pagãos, os ícones foram inicialmente tratados de forma hostil pelos cristãos primitivos, ganhando espaço aos poucos na cultura cristã com sua aderência em Igrejas e cultos. Dessa forma, o ícone pode ser considerado uma das mais importantes formas de legado de Bizâncio, já que possui suas características próprias.66
Assim, desde os primeiros séculos é possível perceber o desenvolvimento da arte cristã de forma ainda muito tímida, sendo as primeiras imagens formadas por pinturas nas catacumbas cristãs, constituídas por figuras individuais e/ou motivos como âncoras, peixes, Noé e sua arca. Estudiosos da iconografia cristã do século XIX dataram essas figuras do primeiro ao segundo séculos, porém, para estudiosos do século XX há evidências que a datação seria do terceiro século, o que é mais aceito atualmente.67
No entanto, evidências documentais acerca de cenas narrativas religiosas e de formas raras de retratos isolados somente surgiram a partir do quarto século. Os textos que sobreviveram do período não relatam se esses retratos sagrados eram venerados de alguma forma, mas narram acerca de imagens que eram produzidas para a preservação da memória da pessoa representada, que forneciam, assim, um modelo exemplar para imitação ou homenagem dessa pessoa.68
65 Cf. KAZHDAN, 1991, pp. 977-981.
66 Cf. VASSILAKI, In: CORMACK; HALDON; JEFFREYS, 2008, pp. 758-769. 67 Cf. CORRIGAN, In: CORMACK; HALDON; JEFFREYS, 2008, pp. 67-76. 68 Cf. BRUBAKER, In: JAMES, 2010, pp. 323-337.
Assim como Brubaker69, Alain Besançon70 também defende que a arte cristã propriamente dita somente começou a ser produzida a partir da suposta conversão de Constantino no quarto século, quando o cristianismo deixou de ser uma religião perseguida e passou a ser a religião tolerada no Império Bizantino, quando os artesões teriam então passado a trabalhar para a exaltação da nova fé.
Dessa forma, Corrigan71 faz o seguinte questionamento: por que as imagens cristãs apareceram de forma tardia? Segundo a autora, isto teria ocorrido devido à postura anti-imagem da Igreja primitiva. Porém, a autora cita André Grabar e a afirmação do mesmo de que as primeiras imagens produzidas pelos cristãos poderiam ter surgido em resposta à arte figurativa que era desenvolvida por religiões concorrentes, tais como o judaísmo e o monoteísmo. Contudo, Corrigan destaca que estudos mais recentes indicam que a Igreja primitiva não era de fato anti-imagem e que os cristãos podem ter produzido algo antes do terceiro século como já fora mencionado acima.
O desenvolvimento da arte cristã se deu entre os séculos IV e VI, nos quais eram desenvolvidas imagens abstratas ou simbólicas que faziam reverência aos dogmas da Igreja, além de ícones do Cristo, da Virgem e dos Santos. Assim, é a partir dos séculos VI e VII que se tem notícia de uma difusão em massa dos ícones e de seu culto, que se destacavam cada vez mais tanto na esfera privada quanto na esfera pública.72
Foi apenas no sétimo século que a Igreja deu a aprovação oficial às imagens através do Concílio Quinisexto de 692, no qual ordenou-se que Cristo fosse representado na sua forma humana e não mais simbolicamente como um cordeiro, o que nos mostra que aos poucos as imagens foram conquistando o seu espaço e importância em Bizâncio, onde os próprios imperadores as utilizavam em sua devoções pessoais e como parte dessas imagens. Era muito comum encontrar representações do imperador junto a Cristo, à Virgem ou a algum santo.73
Além disso, essa crescente produção e veneração dos ícones encontrava respaldo na crença do homem comum bizantino que, assim como os seus ancestrais que cultuavam fervorosamente estátuas de deuses e deusas, faziam o
69 BRUBAKER, In: JAMES, 2010, pp. 323-337. 70 BESANÇON, 1997.
71 Cf. CORRIGAN, In: CORMACK; HALDON; JEFFREYS, 2008, pp. 67-76. 72 Ibidem.
mesmo com os ícones de Cristo, da Virgem e dos santos, por acreditarem que os mesmos tinham poderes milagrosos, principalmente no que tange à proteção do império e também à proteção individual, já que viam no culto das imagens a sua salvação espiritual.
Todo esse valor dado às relíquias devia-se à função protetora que elas exerciam, ajudando com seus milagres não apenas aos bizantinos individualmente, mas garantindo a própria sobrevivência do Império. Foi uma imagem santa da Virgem, defensora de Constantinopla, que em procissão pelas muralhas da cidade impediu que os persas e os ávaros a invadissem em 626, os árabes em 677 e 717.74
Porém, é entre o oitavo e nono séculos que temos uma discussão em torno da legitimidade dos ícones que levaria à escassez dos mesmos com a entrada em vigor da iconoclastia. O impacto da iconoclastia na arte bizantina foi profundo, pois não restou quase nenhuma obra imagética do período ou anterior a ele.