O Manual dos Locutores Esportivos, de Carlos Fernando Schinner (2004), é a terceira obra levada em consideração neste estudo para critério de análise dos locutores de futebol escolhidos, conforme já descrito. Segundo explica o autor (2004, p. 76), “a transmissão no rádio se resume a uma narração mais descritiva, mostrando aos ouvintes detalhes dos uniformes, dos times, da posição em campo e das jogadas”. Schinner destaca cinco características básicas que um narrador deve dominar:
1 - Aprenda a narrar muito bem futebol, com total domínio da modalidade. 2 - Esteja sempre preparado para acompanhar outros esportes.
3 - Esteja apto a apresentar programas esportivos. 4 - Prepare-se para fazer entrevistas, quando necessário.
5 - Esteja pronto para fazer comentários, quando solicitado (SCHINNER, 2004, p. 76)
Schinner (2004, p. 78) entende que o narrador moderno precisa apresentar versatilidade. Quanto a isso, o autor formulou cinco componentes:
1 - Emoção: é o substantivo mais usado nas transmissões esportivas de
qualquer meio de comunicação. Porém, a emoção deve ser controlada diante do microfone. É o narrador que controla as emoções e não o contrário. É preciso demonstrar emoções na medida certa (SCHINNER, 2004, p. 78).
2 - Cultura e conhecimento: O conhecimento está relacionado à carga de
informações adquiridas sobre assuntos ligados ao trabalho de narração, que podem ser divididas em três segmentos, conforme Schinner (2004): factual (dia-dia), genéricos (informações adquiridas, mas com fatos interligados), e específico (ligado à cobertura proposta). Quanto mais conhecimento adquirido, mais capacidade de discernimento.
3 - Liderança: Ter a capacidade de comunicação com a equipe de trabalho,
buscando alternativas criativas e inteligentes à conquista de novas perspectivas e metas.
4 - Carisma, Credibilidade e Ética: Deve-se conhecer bem as
responsabilidades diante de um microfone. Segundo Schinner (2004), o conceito baseia-se na transparência do comunicador diante do seu público, maneira mais eficiente de conquistar a credibilidade. A garantia de carisma pode ser trabalhada ao longo do tempo, com o ganho de experiência, buscando atingir pontos como: eloquência, domínio de microfone, senso de humor, gestual correto e coragem para o novo (SCHINNER, 2004, p. 78).
5 - Valorização da palavra falada: Por fim, o narrador esportivo deve ter em
mente o foco de sua aproximação com o receptor. Para tanto, deve usar uma linguagem simples, direta, objetiva. Deve-se saber como utilizar figuras de linguagens ou metáforas. Schinner (2004) explica que o narrador deve desenvolver técnicas para estar sempre “em cima do lance”, no tempo presente. Deve ser imparcial e, por fim, efetuar o melhor uso possível da língua portuguesa.
Além dos cinco fatores para a narração, Schinner ainda desenvolveu mais dois critérios a serem destacados neste estudo. O primeiro diz respeito aos formatos de narração. O segundo classifica os tipos de narradores, conforme variados estilos.
A classificação dos tipos de narrações propostas por Schinner (2004) são as seguintes: ancorada (onde um locutor apenas conduz a transmissão, geralmente na TV), pontuada (o narrador ilustra a transmissão com informações de atletas e seus perfis. Bastante comum em eventos como transmissões de natação), comentada (onde o papel do narrador confunde-se com o do comentarista, no caso de
transmissões no formato de TV americano, com dois profissionais escalados) e
radical (narração pouco estática ou definitiva e que requer emoção. É mais agressiva,
voltada para esportes radicais na TV).
Conforme Schinner, a narração esportiva pelo rádio se caracteriza da seguinte forma:
Segue uma linha de narração mais veloz, com bordões e frases repetitivas, e emoção extremada. É a mais conhecida e usada para modalidades como futebol, basquete, boxe, voleibol, corridas, natação, bem como todas as modalidades que exijam vibração. Em tese, a narração vibrante só é possível em esportes de ação e competitivos (SCHINNER, 2004, p. 195).
Quantos às técnicas e estilos, cada locutor tem um modo particular de organizar a transmissão e deve levar em consideração as características estipuladas pelos editoriais dos meios de comunicação. Pode-se afirmar também que o estilo, principalmente, é uma característica pessoal, emocional, além de simplesmente profissional. O narrador, ao longo de sua trajetória, acumula conhecimentos e técnicas e a cria para si um estilo próprio. Os estilos podem ser, conforme Schinner, classificados em dois tipos: Estilo Livre (ou Carismático) e Estilo Orientado (ou
DDD).
Os narradores do Estilo Livre (2004, p. 194), como o próprio termo indica, representam o grupo de locutores que enfatiza a emoção como fator principal de uma transmissão, sob vários aspectos, tais como: simpatia, criatividade e sedução nas palavras. Schinner denomina os narradores livres como mestres de cerimônia, que podem ser amados ou odiados pela audiência.
Já os narradores do Estilo Orientado são aqueles que seguem uma cartilha, padrões ou formatos estipulados pela emissora ou pelo departamento de esportes. Conforme Schinner (2004, p. 194), a fórmula de estilo se baseia no sistema DDD, o que significa que a narração, conforme o evento, deve ser discreta, descritiva e dinâmica, técnica, ponderada e com a presença de emoção contextual.
Carlos Schinner (2004) ressalta ainda, no Manual dos Locutores Esportivos, que os locutores devem ser o máximo possível organizados em seu ofício. É importante zelar pelos equipamentos, tanto pessoais como os da empresa. A organização material também vale para a organização mental, isto é, nos assuntos que envolvem o raciocínio rápido de uma transmissão esportiva. Além de buscar um grande número de conhecimentos, como já enfatizado anteriormente, Schinner chama
atenção também para questões importantes como a memorização. No futebol, por exemplo, é fundamental que o narrador conheça características como esquemas táticos, disposições e, inclusive, características físicas dos atletas para que a informação irradiada seja a mais precisa possível. É impossível identificar sempre o nome dos jogadores, números e outros detalhes. Mas não importa se o narrador possui características mais próximas do Estilo Livre ou Orientado. É necessário o conhecimento de causa. É com o passar do tempo e com a experiência que o narrador vai explorando potenciais e diferenciais como o improviso, situação em que se exige preparo profissional e emocional do narrador. É com o passar do tempo também que o locutor constrói seu estilo próprio, como no caso dos bordões e dos gritos de gol que, dependendo da audiência, podem ser bem aceitos ou não. Especificamente no caso dos gritos de gol e dos bordões, conforme Schinner (2004), estes dependem da noção de controle das emoções e bom senso.