Para corresponder adequadamente a tais objetivos seguimos uma linha lógica de procedimentos que permitisse adequar viabilidades de informatizar um teste psicológico e que fosse acessível ao maior número de pessoas. O primeiro passo foi optar por um instrumento que pudesse ter a sua interface adaptada para o ambiente informatizado, que já tivesse estudos na área da informatização, que fosse bem conceitualizado no meio científico e que não perdesse, aparentemente, a sua funcionalidade. Optamos pelo Inventário Millon de Estilos de Personalidade (MIPS), por ser um teste organizado em forma de inventário com respostas do tipo “verdadeiro” ou “falso”, pela facilidade de manuseio de seu banco de dados já constituído na sua versão lápis e papel e pelo mesmo apresentar uma coerência na organização de informações com sua proposta avaliativa de personalidade. Trata-se, portanto de uma escolha baseada em critérios técnicos de adaptabilidade e de conceitualização teórica.
3.1.1. Conceitos Gerais e perspectivas teóricas
Theodore Millon desenvolveu sua teoria em um cenário americano que estava em franca busca das bases da compreensão e classificação da psicopatologia humana e dos padrões de normalidade humana. Mesmo tendo ajudado a organizar o Manual de Diagnóstico de Doenças Mentais (Institute for Advanced Studies in Personality and Psychopathology, 2008) foi através de deduções formais que Millon constituiu sua base epistêmica para a construção do conceito de personalidade. Originando, também em paralelo, uma teoria de aprendizagem biopsicossocial, de patologia de personalidade e vários testes para avaliar esta personalidade. Segundo Millon, “personalidade” é a resultante de um padrão complexo de características inter-relacionadas, na maior parte do tempo de repetições constantes e inconscientes, automaticamente expressas através da conduta (Sánchez, 2003). Seus traços e características são oriundos de uma complexa matriz, onde as disposições biológicas e de
aprendizagem, apresentam-se relativamente estáveis nas relações com as pessoas e objetos, e manifestam-se através dos estilos de relacionar-se, sentir, pensar, perceber e superar dificuldades (Millon, 1990).
Logo, sua construção teórica postula a existência de padrões normais e anormais de reação e adaptação da personalidade, baseando-se em um continuum, onde enquanto a personalidade normal reflete desta maneira as formas específicas de adaptação eficazes em ambientes previsíveis (Millon, 1990), a personalidade anormal reflete a dificuldade de adaptação deste indivíduo em várias possíveis combinações de estilos de personalidade. Os processos da personalidade são fenômenos relativamente estáveis e constantes, porém não são absolutamente estáticos, pois comportam uma perspectiva de padrões consistentes de mudança (García & Sánchez-López, 1999). Esta concepção da personalidade através do constructo teórico dos Estilos Psicológicos tem algumas vantagens frente ao modelo tradicional e estático no estudo da personalidade, pois enfatiza uma perspectiva mais dinâmica do comportamento humano, fornecendo informações sobre a qualidade e o desenvolvimento das diferenças individuais e os aspectos individuais.
A vantagem desta teoria integradora não é só a interpretação da personalidade como uma configuração de estratégias e táticas de onde o indivíduo seleciona cada técnica de intervenção, mas também é a sua contribuição a constelação geral de procedimentos terapêuticos no qual uma técnica não é mais que uma parte desta (Millon, Everly & Davis, 1995). Concebida desta maneira, a personalidade normal reflete os modos específicos de adaptação pelos quais um membro da sociedade utiliza em ambientes previsíveis. Nesta concepção, os transtornos de personalidade representam diferentes estilos de funcionamento mal-adaptativos atribuídos a deficiências, desequilíbrios ou conflitos na capacidade de um membro para relacionar-se com os ambientes que enfrenta (García & Sánchez-López, 1999). Dentro desta proposta Theodore Millon desenhou, no decorrer de sua carreira, vários
instrumentos para o estudo e avaliação da personalidade humana, como o Millon Personality Type Questionnaire, o Millon Personality Disorder Checklist, o Millon Clinical Multiaxial
Inventory e o Inventário Millon de Estilos de Personalidade (Millon, 1997), dentre outros.
Em função das vantagens conferidas por esta construção de personalidade, assim como a variedade de instrumentos validados em diferentes contextos pelo próprio Millon (1997) buscamos um de seus instrumentos de mensuração dos aspectos da personalidade humana que respondesse a um modelo de Estilos de Personalidade e que pudesse ser adaptado para computadores. Optamos então pelo Inventário Millon de Estilos de Personalidade (MIPS) em função de sua boa consistência teórica, praticidade, atualidade e quantidade de estudos no Brasil a partir do MIPS tradicional (lápis e papel).
3.1.2. Características do Instrumento
O MIPS é um inventário composto de 180 itens, para os quais o individuo responde assertivas com “verdadeiro” ou “falso”. Seu objetivo é avaliar a personalidade de indivíduos com funcionamento normal, para idades acima de 18 anos, com um tempo médio de 30 minutos para concluí-lo. Os itens abordam situações que as pessoas comumente vivenciam, evidenciando sua maneira de perceber, sentir e agir perante o mundo que as rodeia. O inventário é sistematizado através de três grandes eixos da personalidade: metas motivacionais, estilos cognitivos e relações interpessoais. Avaliando estilos de funcionamento do sujeito dentro de cada uma de suas competências nestas três dimensões, obtém-se uma apurada avaliação do funcionamento da personalidade avaliada (Strack, 1999). As condutas normais podem ser caracterizadas na presença de um sujeito que demonstra capacidade de se relacionar com seu meio, de maneira flexível e adaptada, com percepções sobre si mesmo e suas meio, manifestadas, essencialmente, de forma construtiva, com vistas à satisfação pessoal, e tendo padrões de conduta considerados como promotores de saúde (Weiss, 1997).
Seguem abaixo os eixos principais avaliados pelo MIPS.
1. Metas motivacionais (MM) - Refere-se a busca de sobrevivência e as experiências