Segundo Saviani (2007), uma instituição surge como uma estrutura material destinada a atender necessidades permanentes da sociedade. A Instituição Educativa que analisamos, de acordo com Chagas (2004), teve como principal propósito evitar a mendicância de meninas. Conforme o discurso da elite, se as meninas não fossem abrigadas ficariam nas ruas na condição de pedintes, desestabilizando a representação de uma sociedade tida como civilizada.
De acordo com Monteiro (1972), a ideia para criação do Orphanato D. Ulrico, para meninas, surgiu em 1913, e teve como idealizador o Desembargador Heráclito Cavalcanti, com apoio do governo do estado, de representantes da política local, comerciantes e industriais, dentre outros.
Pessoas de diferentes profissões tipicamente urbanas e de acesso limitado às elites contribuíram para a fundação do citado orfanato.
Para fundar o orfanato reuniu o Desembargador Heráclito em sua própria residência o que de melhor havia na sociedade paraibana – magistrados, médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, industriais, professores sem distinção de credos políticos, expos-lhes as suas idéias e jamais deixou de contar com todo o apoio de tão generoso auxiliares. (MONTEIRO, 1972. p. 32).
De acordo com Castro (1950), no ano 1912, o Orphanato D. Ulrico foi desmembrado do Instituto de Assistência e Proteção à Infância que, no referido ano, estava sendo dirigida por Gaspar Lefévre. Com a separação das duas instituições, o Orphanato D. Ulrico, em 1913, passou a ser administrado por Heráclito Cavalcanti. A partir desse ano, procedeu-se a arrecadação de donativos, feita por membros das elites paraibana, em prol da construção do edifício do Orphanato D. Ulrico.
A nossa primeira reunião para assentar as bases da propaganda colimando crear um abrigo para orphandade desvalida teve logar no dia 2 de março do anno de 1913, no Mosteiro de S. Bento, e no dia 14 sahia pelas ruas da capital o primeiro bando precatório, despertando em uns enthusiasmo e em outros talvez certa descrença por tentativas outras frustradas, mas apezar disso o acolhimento recebido sobrepujava a falta de fé e era promissor para a victoria da campanha encetada. (A IMPRENSA, 1922, p.1).
Nos anos de 1913 a 1922, deu-se a construção do edifício e a compra do imobiliário para a citada instituição. Vários foram os membros das elites paraibanas que contribuíram para a construção e manutenção do Orphanato D. Ulrico. Para a identificação desses personagens, fizemos uso do jornal A Imprensa (1913-1928), do Estatuto da Comissão Protetora e Permanente do Orphanato D. Ulrico, das atas da referida Comissão e das fichas de matrículas das internas que foram servir na casa desses sócios.
Segundo Monteiro (1972), em 1913, foi instituída a Comissão Permanente e Protetora do Orphanato D. Ulrico, atuante na referida construção, exercendo um papel de liderança na arrecadação de donativos.
Era composta por um presidente, por um primeiro e segundo vice-presidentes, um primeiro e segundo secretários e um tesoureiro, respectivamente, Heráclito Cavalcanti Carneiro Monteiro, Maria do Carmo Inojosa Varejão, João Suassuna, Catharina Moura, Adelaide de Figueiredo e Manoel José da Cunha. A mesa diretora composta por presidente, vice-presidentes, primeiro e segundo secretários e tesoureiro tinham um mandato com duração de três anos com possibilidade de renovação (ESTATUTO, 1913).
O Estatuto da Comissão foi composto de quatro capítulos e dezenove artigos. Os capítulos consistem na seguinte estrutura: da associação em geral; da diretoria; dos direitos e deveres da comissão e disposições gerais. Um dos objetivos principais da Comissão, de acordo com o Estatuto aprovado em 1913, em seu artigo 2º, era:
A commisão permanente terá por fim angariar donativos e elementos por todos os meios que uma propaganda bem orientada puder empregar, não cessando a sua missão com a fundação do Orphanato, mas continuando, como protectora, após e mesma fundação. (CIDADE DA PARAHYBA, 1913. Estatuto da Comissão Protetora e Permanente do Orphanato D. Ulrico em 1913, p.13).
Assim, iniciou-se a busca de donativos com a finalidade de angariar recursos para a construção do Orphanato. Houve várias atividades de organização de eventos, dentre eles destacava-se as quermesses, o leilão de prendas, as festas de Nossa Senhora das Neves, as festas das Aves, as festas das Árvores e bandos precatórios desfile em que as pessoas se propunham a pedir donativos, entre outras atividades. (MONTEIRO, 1972).
Na Comissão Protetora e Permanente do Orphanato D. Ulrico, criada em 1913, tivemos a presença feminina da professora Catharina Moura,13 Maria do Carmo Inojosa Varejão e Adelaide de Figueiredo.
São sócios beneméritos desta instituição por serviços prestados e donativos valiosos, conforme os estatutos, os Drs. João Pereira de Castro, Francisco Cammillo de Hollanda; Madame Cammilo de Hollanda, Dr. Epitácio Pessoa, Simões, D. Adaucto Aurelio de Miranda Henriques, Dr. J. Maximilianno de Figueiredo, José Araujo Braga e Marieta de Inojosa Varejão. (CIDADE DA PARAHYBA. 1922. Relatório apresentando em Assembleia Geral do Orphanato D. Ulrico..., em 1922).
A professora Catharina Moura com consistente formação acadêmica, iniciada na Escola Normal Oficial, continuou seus estudos no Lyceu Paraibano e, posteriormente, na Faculdade de Direito de Recife. A mesma atuou como advogada e professora da Escola Normal da Cidade da Parahyba. Lecionou as cadeiras de português, desenho, francês e história da civilização. Acreditava na educação, como uma questão sine qua non para a emancipação das mulheres nesse processo de formação humana. Isso explica sua presença na primeira Comissão do Orphanato.
As outras duas mulheres que faziam parte da primeira comissão eram professoras da Escola Normal: Maria do Carmo Inojosa Varejão e Adelaide de Figueiredo, personagens da sociedade paraibana do início do século XX. Segundo Xavier (2015, p.120):
[...] elas serão sempre portadoras de qualidades nobres. Acreditava-se que as professoras que seja devido ao motivo de que o magistério, mesmo sendo uma profissão aceita pelos padrões sociais, não era para as mulheres de origem burguesa, mas sim para aquelas empobrecidas da burguesia ou oriundas das camadas médias. Mesmo assim, a função de professora aparece no mapa mental com única atividade pública remunerada possível as mulheres.
Havia duas formas de se tornar sócio do Orphanato D. Ulrico: por doações significativas ou por prestar serviços. Nas “Atas das Reuniões da Comissão Protetora e
Permanente do Orphanato D. Ulrico” foram diversos senhores e senhoras que atuaram nos eventos para angariar recursos. A organização de quermesses, festas no Jardim Público, festas infantis, concerto musical, festas das aves, festas árvores. As mesmas eram organizadas por comissões de recepção, decorações, comida e bar.
Nas fontes consultadas, não detectamos relatos da presença de pessoas pobres fazendo parte das comissões, embora tenham trabalhado nos bastidores dos eventos. Muitas das atividades eram feitas nas casas e, depois, levadas para os barracões das festas, como exemplo, as comidas e bebidas que eram feitas pelas domésticas nas casas das mulheres representantes da elite e vendidas nos pavilhões das festas pelas senhoritas, jovens da elite. Essa era uma forma de exposição social muito utilizada no início do século XX.
Nessas atividades, consistiam os eventos sociais em que membros da elite figuravam como grandes benfeitores dos mais pobres e, consequentemente, apareciam nos periódicos mais importantes da época.
O Colégio Nossa Senhora das Neves organizou eventos em benefício do Orphanato. O evento aconteceu no Centro de Catecismo N. Senhora das Neves em que foram apresentadas peças teatrais e musicais, tudo sob a vigilância das religiosas. Estes eram um dos raros momentos que as alunas do Colégio Nossa Senhora das Neves e algumas mulheres convidadas para os eventos atuavam em área não específica das questões domésticas.
Será interpretado o seguinte programma, caprichosamente ensaiado: << o ensaio do drama>>, comedia em 1 acto; <<Acto de Variedade>> - << Saudacção à Bandeira Nacional>>, << Cae a Chuva>>, Canção sertaneja, << Crença da Cruz>> modinha sacra e << Coração de Mãe>> Valsa; << Joãosinho e Margarida>> Opereta infantil em 3 actos; Apotheose da N. Senhora das Neves então à << Prece>> da Orphasinha. (A Imprensa, 08/09/1920, p. 2).
O evento ápice da arrecadação para o Orphanato D. Ulrico era a Festa de N. Senhora das Neves que acontecia todos os anos, entre os dias 26 de julho a 5 de agosto. A Comissão Protetora e Permanente do Orphanato D. Ulrico se organizava com antecedência para a festa. A primeira Festa de Nossa Senhora das Neves organizada pela comissão foi em 1913. Os sócios divergiram, inicialmente, sobre o local para instalação do barracão do Orphanato D. Ulrico para a venda de bebidas, charutos, salgados e doces.
As opções sobre o local eram a Rua General Osório que foi rejeitada, pois, de acordo com os sócios beneméritos, o local era frequentado pela classe pobre e, devido a
isto, seria difícil a presença das elites. Então foi sugerido outro local, o barracão ficou instalado “[...] em frente do beco da companhia do Mosteiro de São Bento”. (CIDADE DA PARAHYBA, 1913. Ata da Comissão Protetora do Orphanato D. Ulrico... 17/05/1913).
Era uma preocupação constante da elite da Cidade da Parahyba de se manter separada dos pobres, o que manteve a população pobre fora do convívio das áreas urbanizadas, pois os pobres não deveriam ser vistos por perto. A construção do Orphanato D. Ulrico, bem como a edificação de outras instituições tinha como uma das finalidades retirar das ruas, os pobres. Os pobres poderiam conviver com as elites, só em situações em que estivessem a serviço das mesmas.
Desde 1913, em todas as Festas de Nossa Senhora das Neves erguia-se o Pavilhão do Orphanato D. Ulrico.
A Festa das Neves era erguido o Pavilhão do Orfanato D. Ulrico, durante anos seguidos, aonde eram servidos doces, salgados e bebidas finas a toda sociedade paraibana que lá ocorria para deixar alguns donativos, As garçonetes que serviam as mesinhas [...] eram moças da sociedade de então. (MONTEIRO, 1972, p.06).
Na figura 4 podemos ver o pavilhão organizado pelo Orphanato D. Ulrico. Na imagem, aparece algumas jovens garçonetes, as religiosas Irmãs Pobres de Santa Catarina de Sena e o Diretor do Orphanato, o Desembargador Heráclito Cavalcanti.
As garçonetes presente eram moças solteiras das elites, esperando começar as festas para servirem as bebidas e salgados aos convidados. A presença das religiosas garantiam a respeitabilidade das moças.
Figura 4: Pavilhão do Orphanato D. Ulrico durante a Festa de N. S. das Neves
Fonte: Acervo do Grupo de Estudos Urbanos, UFPB.
Durante a Festa de Nossa Senhora das Neves, outras instituições de caridade montavam seus barracões ou pavilhões com o intuito de arrecadar donativos, mas também, para exposição das famílias de prestígio da elite noticiadas em revistas ou jornais. Aparecem nas imagens (Figura 5 e 6) notícias das moças da elite nos pavilhões da Polyclínica Infantil e do Asylo de Mendicidade na Festa de N. S. das Neves da Cidade da Parahyba.
Figura 5: Pavilhão da Polyclinica Infantil durante a Festa de N.S. das Neves
Fonte: Acervo do Grupo de Estudos Urbanos, UFPB. Figura 6: As garçonetes do pavilhão do Asylo de Mendicidade
Fonte: Acervo do Grupo de Estudos Urbanos, UFPB.
Buscamos, na medida do possível, demonstrar a atuação da elite na criação e fundação do Orphanato D. Ulrico, como também de outras instituições destinadas à caridade. Portanto, revela-se uma circulação de ideias sobre a atuação da elite com a presença dos pobres na cidade. No entanto, permanecem algumas lacunas referentes à participação da população pobre na criação do Orphanato D. Ulrico.
Com o arrecadado durante o período de nove anos, de 1913 a 1922, nos eventos sociais foi edificado o Orphanato D. Ulrico (Figura 7), situado no final da Avenida João Machado, no Subúrbio Jaguaribe, na Cidade da Parahyba.
Fonte: Acervo do Grupo de Estudos Urbanos, UFPB.
Em 1922, o trecho da avenida não era calçado e tinha poucas habitações. A Avenida João Machado era uma via de ligação do Subúrbio Jaguaribe com a Cidade Alta e a Cidade Baixa, localidades mais urbanizadas da Cidade da Parahyba.
De acordo com Nascimento (2013), a referida avenida foi aberta de 1910 a 1912 e teve papel importante no processo de modernização e expansão urbana, pois passou a ligar o sítio de Jaguaribe com a área mais central e urbanizada.
Tinha 22 metros de largura e 1.35 metros de extensão, partia da Estrada dos Macacos, atravessava a estrada de Jaguaribe e Rua da Palmeira e terminava na Rua das Trincheiras, na altura da Igreja do Bom Jesus. Sua abertura sinalizou um marco no processo de modernização da Cidade, e em seu percurso edificaram-se moradias das classes mais abastadas construídas em lotes de dimensões maiores do que do casco original da cidade, com recuo lateral e frontal e jardins. (NASCIMENTO, 2013, p. 83)
A citada avenida passou a ser disputada por engenheiros que visualizavam nela um espaço para deixar expressos seus trabalhos arquitetônicos. Além disso, as elites da Parahyba consideravam necessário diferenciar o lugar de ricos e pobres. Apesar do Orphanato D. Ulrico ser uma instituição para meninas pobres, foi visto como símbolo de modernização, civilização e instrução. Lugar de abrigo e instrução para as futuras domésticas dos lares da elite.
O terreno para a construção do Orphanato foi doado para Comissão Protetora e Permanente do Orphanato D. Ulrico, pelo governo do estado durante a gestão de Castro
Pinto (1912-1915). A construção teve início em 04 de abril de 1916. Heráclito Cavalcanti afirmou, no relatório de 1922, que as dificuldades durante os nove anos da edificação do prédio foram muitas, mas, sempre que precisou, obteve colaboração para o andamento da obra e assegurou ter sempre o respaldo do governo da Parahyba do Norte e de outras pessoas.
Dr. João Pereira de Castro Pinto, requeri e obtive a cessão dos terrenos onde se acha situado o prédio e a chácara do Orphanato, tendo – 140 metros por 200 – de fundo, accrescidos ainda, a requerimento meu, por mais 72 metros de frente e de mais 200 metros de comprimentro em toda sua extensão perfazendo uma área de – metros quadrados – 64.800 -, cuja a frente murada assim como a parte lateral, achando-se o restante limitado por cerca de arame. (MONTEIRO, 1972, p. 21).
Considerando que as dificuldades encontradas foram contornadas, citou o caso dos operários que trabalhavam na construção que por, seis meses, em vez dos salários, estavam recebendo apenas a “mercearia” custeada pelo diretor-presidente do Orphanato. Na documentação sobre a Instituição, em nenhum momento se menciona o pagamento do salário dos pedreiros, apenas se enaltece a atitude do diretor.
O prédio do Orphanato D. Ulrico teve sua planta elaborada por Raul Eloy dos Santos, engenheiro civil residente no Rio de Janeiro que realizou o trabalho de maneira gratuita como doação a citada instituição. A obra do prédio foi executada pelo engenheiro Matheus de Oliveira. Este senhor fez parte das comissões de organização de eventos, a fim de angariar recursos para a Instituição. No entanto, não ficou até o final da obra, rompendo o contrato de trabalho, passando a obra a ser inspecionada por Heráclito Cavalcanti. (MONTEIRO, 1972).
Nos anos de 1913 a 1922, temos a construção do edifício e a compra do imobiliário para a citada Instituição. Heráclito Cavalcanti ficou responsável diretamente pelo estabelecimento de 1913 a 1930 e, por questões políticas não muito claras, deixa o comando do Orphanato. A Instituição Educativa esteve presente no cenário educacional paraibano até o ano de 2010. Seu surgimento pode ser considerado resultado da modernização da cidade, visível pela grandiosidade arquitetônica do Orphanato. Até hoje o passante se espanta com o tamanho do prédio.
2.4 O Orphanato D. Ulrico: descrição e impressões do ambiente educacional