Chapter 5 Discussion
5.2 Discussion of the result
5.2.1 Flexible risers damage and leak frequencies
Contexto histórico
A dependência, durante séculos, do Novo Mundo em relação ao continente europeu não foi apenas econômica, política e social, mas também literária. É apenas com o advento do século XIX que assistimos ao início de uma reviravolta no panorama literário da América Latina, quando os narradores descobrem os pampas, a selva, as mitologias, os índios, o que resultará, num primeiro momento, no romantismo e, mais tarde, na segunda metade do século XX, no real maravilhoso. Isto é, o novo modo de ver e entender a realidade circundante do hispano-americano, com toda a sua concepção religiosa e mitológica, que faz irromper o ‘maravilhoso’ em sua própria realidade. O misterioso, aqui, deixa de existir porque recebe, por parte do seu leitor, uma explicação pela perspectiva da crença no acontecimento mágico.
Essa nova descoberta e esse novo modo de ver o mundo serão responsáveis por propiciar o terreno de criação poética de Rulfo, um dos principais escritores do denominado boom latino-americano, ao lado de nomes como Alejo Carpentier, García Márquez, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Vargas Llosa, Bioy Casares. Rulfo converterá a cultura mestiça hispano-americana, de cunho histórico, em motivo para sua escrita, principalmente no que tange à história específica do México e, consequentemente, do mexicano.
Octavio Paz em El laberinto de la soledad, trata das especificidades da cultura do ser mexicano. Suas reflexões são direcionadas para pensar a solidão do mexicano, que vive em um país cerrado, cuja literatura estaria na periferia da América Latina. Para Paz, o isolamento e a solidão são necessários para sua ‘defesa’, uma vez que o
‘abrirse’ implica, para os mexicanos, uma debilidade ou uma traição (lembremo-nos da história de Hernán Cortés e Malinche), não permitindo que o mundo exterior penetre em sua intimidade:
El mexicano me parece un ser que se encierra y se preserva: mascara el rostro y mascara la sonrisa. Plantado en su arisca soledad, espinoso y
cortés a un tiempo, todo le sirve para defenderse: el silencio y la palabra, la cortesía y el desprecio, la ironía y la resignación. (PAZ, 1983: 50)
A raridade que provoca o hermetismo do ser mexicano criou a lenda deste como um ser insondável. É justamente esse ser que vai ser apresentado ao leitor de Pedro Páramo, obra que consegue tirá-lo do seu conforto com personagens já mortas que surgem a todo momento e que não são descritas física nem psicologicamente. Apenas nos são revelados os seus estados diante do mundo, aliás, de Comala, a partir de suas memórias, que trazem para o presente toda a experiência de vida dessas personagens no passado.
Para Paz, a cultura mexicana tende a ser um disfarce que oculta sua intimidade. A solidão com a qual o mexicano se defronta é transposta para o romance de Rulfo, quando as personagens afirmam que Comala é um lugar que ninguém habita e, ao mesmo tempo, todos vivem sozinhos, sem nem ao menos ver nem ter contato com o outro, em que a solidão e o silêncio imperam. Para o leitor, essa situação causa estranheza, que é responsável por criar a lenda do ser mexicano como um ser insondável. Segundo Paz (1983: 88),
si nuestra cortesía atrae, nuestra reserva hiela. Y las inesperadas violencias que nos desgarran, el esplendor convulso o solemne de nuestras fiestas, el culto a la muerte, acaban por desconcertar al
extranjero […] no somos gente segura y nuestras respuestas como nuestros silencios son imprevisibles, inesperados. Traición y lealtad, crimen y amor, se agazapan en el fondo de nuestra mirada. Atraemos y repelemos.
Quando Hernán Cortés chega ao México-Tenochtitlan, no auge do império mexica, não só descobre que há vários grupos que são inimigos do soberano Moctezuma, que estava no poder, mas também leva junto com ele dona Marina, mais conhecida como Malinche, conhecedora de várias línguas, que havia ganhado de presente de Tlaxcala ao chegar na costa da Nova Espanha: “Y como doña Marina, en
buena lengua (...) a esta causa la traía siempre Cortés consigo.” (CASTILLO, 2000: 28
– grifo nosso).
Tal fato permite a Cortés conhecer tanto a cultura quanto a língua dos indígenas que pretende conquistar. A língua torna-se uma de suas estratégias para fazer alianças e concretizar sua conquista. Para Octavio Paz (1983), os astecas se suicidaron ao entregar Malinche para os espanhóis, oferecendo-a para que estes os destruíssem. Contudo, ela não é a única responsável pela conquista do México. Para a História, Malinche foi apenas uma peça para a conquista da “Nova Espanha”, uma vez que, para o funcionamento das estruturas sócio-políticas e tributárias estabelecidas pelos castelhanos no século XVI, fundamental foi a participação das elites locais.
Segundo Eduardo Natalino dos Santos (2005), a conquista do México pode ser dividida em três fases, sendo que a primeira compreende os contatos e as alianças realizadas por Hernán Cotés, antes mesmo de sua chegada em Cozumel (1519). A segunda fase corresponde ao convite de Moctezuma feito a Cortés para este entrar e conhecer México-Tenochtitlan. Cortés prende Moctezuma e exige seu resgate em riquezas. Ademais, é nesse segundo momento que temos a “Noite triste”, ou seja, a resistência dos astecas contra os espanhóis (1519-1520). E a terceira e última fase, na qual há uma recomposição das tropas castelhanas e a ampliação de suas alianças, que crescem gradualmente até o ano de 1521, chegando a abranger quase todos os altepeme2 ao redor de Texcoco. Para Natalino (2005: 07-09), as fases da conquista
“mostram um rearranjo da ordem político-militar e tributária da região, na qual, sem
2 Plural de altepetl, termo nahuatl empregado para designar as entidades político-territoriais relativamente autônomas que compunham a organização política geral mesoamericana. Tais entidades caracterizavam-se, entre outras coisas, por possuírem um ou mais centros políticocerimoniais em seus territórios, pela presença de uma elite dirigente, pela produção e manutençãode uma história da própria entidade, por outorgarem a seus participantes uma identidade étnica, por possuírem um “deus” patrono e por serem compostas de células político- territoriais menores e relativamente autônomas, chamadas de calpulli. Cf. LOCKHART, James. The nahuas after the conquest. A social and cultural history of the indias of Central Mexico, sixteenth through eighteenth centuries. Stanford, California: Stanford University Press, 1992 (Natalino, 2005: 02-03)
dúvida, os castelhanos eram os mais novos e um dos mais importantes participantes”. O processo de conquista significou um rearranjo que não desestruturou ou eliminou antigas composições de poder locais, mas, sim, acrescenta-lhes elementos novos e centrais.
Quanto à Malinche, a participação desta, em função de ser conhecedora de várias línguas e de servir, assim, de intérprete para Cortés, tornando-se amante deste também, foi importante na conquista e colonização do México. Ela é responsável por intermediar negociações entre Cortés e os tlaxcaltecas. Ademais, em escritas pictográficas, Malinche é retratada como Cortés em tamanho e em ações, pois recebe tributos separadamente e comanda batalhas. De acordo com o soldado-cronista Bernal Días de Castillo, “la doña Marina tenía mucho ser y mandaba absolutamente entre los
índios en toda la Nueva España” (2000: 28). Por meio dos textos dos cronistas da era colonial, verificamos o que já foi
abordado no segundo capítulo, a crença dos povos mais arcaicos no retorno dos mortos ao mundo dos vivos. Cortés aproveita-se disso para conseguir acesso fácil à cidade e civilização que encontra ao chegar à capital do império mexica, Tenochtitlan. De acordo com Paz (1983: 242), “entre los aztecas, los muertos regresaban a Mictlán, lugar situado al norte, de donde habían emigrado. Casi todos los ritos de fundación, de ciudades o de mansiones, aluden a la búsqueda de ese centro sagrado del que fuimos expulsados”. E segue afirmando que os mortos voltavam para salvar a sua cidade, por exemplo. A crença em diversas aparições e retorno do Deus Quetzalcoatl, no México, por exemplo, está presente em textos que tratam de diversos momentos da evolução histórica do México. As palavras que seguem foram, segundo Cortés (1963: 559-560), pronunciadas por Moctezuma em uma primeira ocasião:
Muchos días ha que por nuestras escripturas tenemos de nuestros antepasados noticia de que yo ni todos los que en esta tierra habitamos no somos naturales de ella sino extranjeros, y venimos a ella de partes muy extrañas; y tenemos asimismo que a estas partes trajo nuestra generación un señor cuyos vasallos todos eran, el cual se volvió a su naturaleza, y después tornó a venir dende muy tempo, y tanto, que ya
estaban cansados los que habían quedado con las mujeres naturales de la tierra y tenían mucha generación y fechos pueblos donde vivían, y queriéndolos llevar consigo no quisieron ir ni menos recibirle por señor, y así se volvió.
E siempre hemos tenido que los que dél descendiesen habían de venir a sojuzgar esta tierra y a nosotros como a sus vasallos: y según de la parte que vos decís que venís, que es do sale el sol, y las cosas que decís deste gran señor o rey que acá os envió, creemos y tenemos por cierto él ser nuestro señor natural, en especial que nos decís que tenís noticia de nosotros. E por tanto, vos sed cierto que os obedeceremos y tenemos por señor, en lugar, de ese gran señor que decís, y que en ello no habrá falta ni engaño alguno; e bien podéis en toda la tierra, digo en la que yo en mi señorío poseo, mandar a vuestra voluntad, porque será obedecido y fecho; y todo lo que nosotros tenemos es para lo que vos
dello quisiéres disponer …
Octavio Paz (1983), no capítulo Los hijos de la chingada, atenta-nos para o uso
do verbo ‘chingarse’, que está presente na linguagem do mexicano por ser essa uma expressão proibida. Tal verbo tem sentido vulgar e tem como sinônimo o “molestar”,
bem como demais significados que são todos agressivos, como “violar”, “desgarrar”, “matar”, por exemplo. Trata-se de um verbo que denota violência, pois tem o sentido de sair de si mesmo e penetrar pela força no outro e essa ideia de romper e abrir aparece em quase todas as expressões. É um verbo masculino e cruel, já que quem pratica a
‘chingada’ jamais a realiza com o consentimento de quem está sendo ‘chingado’,
representando o poder do primeiro e a impotência do segundo. Nessa perspectiva, “la chingada es la madre abierta, violada o burlada por la fuerza”, logo, o filho da ‘chingada’
“es el engendro de la violación, del rapto o de la burla” (PAZ, 1983:103)
A índia Doña Marina, nome cristão, mais conhecida como Malinche (que vem de traição), não só ajuda Hernán Cortés de forma decisiva na Conquista do México, como se apaixona por este, tornando-se amante dele e engravidando. Assim, o filho deles
será considerado o primeiro “mexicano”. É em função da história de Malinche que temos o mito do mexicano como este sendo o outro, nosso inimigo, o nosso rival ou, ainda, o hijo de la chingada. Isto é, são os outros que não se definem de outra maneira senão como filhos de uma mãe tão indeterminada e vaga como eles mesmos, por isso
a angústia de ter nascido, já que são filhos da vergonha, da traição, da violação. Assim, a solidão surge da angústia de ter nascido dessa traição.
A relação que podemos fazer depois do que foi apresentado acerca da história da índia Malinche e a repercussão desta na vida, história e origem do ser mexicano, é a dessa mãe violada e a da conquista do espanhol, que também foi uma violação. O símbolo da entrega é Malinche, amante de Cortés. É contraditório pensarmos Malinche
como a ‘madre violada’, uma vez que ela se “entrega” a Cortés:
Doña Marina se ha convertido en una figura que representa a las indias, fascinadas, violadas o seducidas por los españoles. Y del mismo modo que el niño no perdona a su madre que lo abandone para ir en busca de su padre, el pueblo mexicano no perdona su traición a la Malinche (PAZ,
1983: 110)
Importante nos atentarmos para o fato de que foram os mexicanos que criaram o mito da Malinche como a mãe ‘violada’, culpada pela mestiçagem, e parte importante de uma história que poderia ter sido diferente, mas que não foi, já que os indígenas não se uniram contra os castelhanos. A consciência de ser o mestiço, filho ‘de la chingada’, causa vergonha ao mexicano, que carrega esse pecado, preferindo isolar-se. A mulher
mexicana é “símbolo que representa la estabilidad y continuidad de la raza”, não sendo concebida como um ser humano, mas como “símbolos y funciones” (1983: 59/60). Esse aspecto é trazido por Rulfo para a sua obra partir do desconsolo e solidão em que suas personagens se encontram, mortas, murmurando por suas culpas e pecados sem perdão. Para Paz (1983: 97), “la historia podrá esclarecer el origen de muchos de
nuestros fantasmas, pero no los disipará (…) la historia nos ayuda a comprender ciertos
rasgos de nuestro carácter, a condición de que seamos capaces de aislarlos y denunciarlos previamente”. Malinche se torna mito da traição, representando uma persistência histórica da tradição ocidental, a da mulher que já nasce culpada. Em função do mito, Malinche se torna a principal responsável pela conquista do atual México, mas para a história, o processo de conquista é diferente, ela é apenas uma das estratégias utilizadas por Hernán Cortés, conforme vimos com Natalino. Nesse sentido,
vemos que a mitologia já está enraizada desde a origem não só da história do México, mas também de todo o seu povo, fazendo parte e constituindo o “ser mexicano”. A
‘Chingada’ é a mãe, mas não uma mãe de carne e osso, e, sim, uma figura mítica. Ou seja, o México já nasce da e na mitologia.
Trazendo essa mitologia, que existe desde a era hispânica para o romance, percebemos uma obra que se inicia e que vai ser desenvolvida, toda ela, em torno de uma personagem, e narrador também, Juan Preciado, que sai em busca de sua origem, seu pai, que nem sequer conheceu:
- ¿Y a qué va usted a Comala, si se puede saber? – oí que me preguntaban.
- Voy a ver a mi padre – contesté. - ¡Ah! – dijo él (...)
- ¿Y qué trazas tiene su padre, si se puede saber?
- No lo conozco – le dije -. Sólo sé que se llama Pedro Páramo. - ¡Ah!, vaya.
-Sí, así me dijeron que se llamaba. (RULFO, 1985: 08)
Preciado não conseguirá encontrá-lo, tendo acesso, apenas, a todo o mito que restou dele, homem inescrupuloso e cruel que se tornou, às custas de um bom casamento, o mais importante latifundiário de Comala. Juan Preciado ‘conhecerá’ seu pai a partir das experiências de várias personagens que encontra em seu trajeto em busca de seu pai. Seu pai, Pedro Páramo, ao perceber que Dolores Preciado não lhe servia mais, pois já havia conseguido sua fortuna, a “abandona”, junto com seu filho, mandando-os para a casa de sua irmã sem nunca mais mandar que os fossem buscar. Aqui, há a persistência histórica da figura feminina como sendo inferior e submissa ao
homem, ou seja, já que Pedro Páramo não “mandou que fossem buscar” Dolores
Preciado, ela decide não voltar para sua casa.
- Que Dios los asista […]’
- La de cosas que han pasado – le dije -. Vivíamos en Comala, arrimados a la tía Gertrudis que nos echaba en la cara nuestra carga.
“¿Por qué no regresas con tu marido? “, Le decía a mi madre.
“- ¿Acaso él ha enviado por mí? No me voy si él no me llama. Vine porque te quería ver. Porque te quería, por eso vine.
“- Si consistiera en mí”. (RULFO, 1985: 20)
A partir do que foi apresentado, observamos que o romance conservou determinadas persistências históricas por meio da memória, bem como vestígios de concepção da morte e os de um rito de outrora amplamente difundido e estreitamente ligado a esse momento. Sobre a memória, Julio Pimentel Pinto (apud FREIRE, 2009: 105) sublinha que a memória é um tema essencial e caro a dois campos de produção textual, o da história e o da literatura:
No campo da literatura, é um recurso de tessitura da narrativa. A memória nunca significa apenas conteúdo de discussão, é também mecanismo de elaboração textual, base de constituição de representações comprometidas em maior ou menor grau com o verossímil.
De acordo com o que aponta Júlio Pimentel Pinto, Freire (2009: 105) afirma que
“apesar de ser gerada por uma percepção individualizada, a memória busca contornos coletivos, pois a literatura é uma das possibilidades de assentamento de uma memória coletiva, ainda que a forma de narrar seja individual.” A memória é o recurso que recupera o passado, atribuindo importância a este e confirmando sua manifestação no
presente, “além de permitir e guiar uma interpretação ou ressignificação no futuro” (2009: 110).
O romance reflete, assim, precisamente concepções de morte, solidão, filho que sai em busca do pai, a mulher que é culpada por tudo, principalmente em se tratando de um autor e de um romance que nasceu no México, onde tais concepções permanecem e se fazem presentes em toda a cultura e sociedade mexicana desde a conquista e colonização espanhola. Assim, percebemos que a unidade de composição do romance de Rulfo é a realidade histórica do passado.
Desde a natureza do ser mexicano, a mulher é entendida como um ser ‘abierto’ enquanto o homem é o ‘macho’, um ser hermético, fechado em si mesmo. Ou seja, o mexicano é o descobrimento da misteriosa relação entre o homem e sua circunstância, que é representado, principalmente, pelo narrador-personagem Juan Preciado no
romance. Esse ser que Rulfo nos apresenta não poderia ser diferente, já que ele próprio e a realidade na qual está inserido representam, por exemplo, uma persistência histórica não apenas mexicana, mas ocidental, inclusive, na qual a mulher é sempre a culpada pelo que acontece. A cultura abordada no romance de Rulfo é a cultura de los hijos de la chingada:
El carácter de los mexicanos es um producto de las circunstancias sociales imperantes en nuestro pais; la historia de Mexico, que es la historia de esas circunstancias contiene la respuesta a todas las preguntas. La situación del pueblo durante el periodo colonial sería así la raíz de nuestra actitud cerrada e inestable (PAZ, 1983: 94)
A história, aqui, esclarece a origem de muitos dos fantasmas e do isolamento do México, o que Rulfo traz para a sua literatura com maestria. Em Pedro Páramo, o mais antigo substrato religioso do seu motivo são as forças invisíveis, ou seja, toda uma ideologia acerca do ser mexicano, que luta contra entidades imaginárias, sinais do passado ou fantasmas criados por ele mesmo. Uma realidade concreta e intocável, já que está dentro dos mexicanos e não fora destes. A consciência de um passado que poderia ter sido glorioso, mas que não o foi não por outros, o estrangeiro, mas pelos próprios mexicanos, “os indígenas-aliados” e “indígenas-inimigos”, segundo Natalino (2005: 18), que foram parte central no paulatino processo de constituição da Nova Espanha ao lado dos castelhanos, fazem parte também do oculto, do enigma, e é também uma das culpas e pecados que acompanha o mexicano:
Em suma, não se trata de negar as atrocidades cometidas pelos castelhanos na conquista e colonização da Mesoamérica, e da América em geral, e muito menos de despolitizar a análise desse processo; mas, ao contrário, trata-se de tomar modelo de análise mais complexo, incorporando os povos indígenas como grupos identitariamente distintos, com hierarquias sociais internas, com instituições próprias e como sujeitos de escolhas e alianças políticas.
O ser mexicano é um ser solitário por natureza, já que nasceu sem um pai e de
uma mãe que fora “violada”. Nesse sentido, a solidão surge da angústia de ter nascido (PAZ, 1983). A função de Malinche, enquanto a mãe violada, permanece na imaginação e sensibilidade do mexicano mostrando que se trata do símbolo de um conflito ainda oculto, que ainda não foi resolvido. Por meio da memória, é possível recuperar
a história vivida, enquanto experiência humana de uma temporalidade, tornando-se espaço de problematização e de crítica. A memória é sempre suspeita para a história, cuja verdadeira missão é destruí-la e reprimi-la, seu lugar de sobrevivência permanece no discurso literário.