Apesar da propagação do ideal cooperativista pelos socialistas utópicos, esse movimento somente veio adquirir maior visibilidade a partir da formação da Cooperativa de Consumo dos Pioneiros de Rochdale, em Manchester, Inglaterra, no ano de 1844. Amplamente divulgada e referenciada na literatura sobre a história do cooperativismo, a iniciativa dos 28 tecelões do Beco do Sapo (Toad Lane) continua a ser resgatada, contemporaneamente, como paradigma a se seguir pelos idealizadores da “economia solidária”.
A organização surgiu enquanto estratégia de sobrevivência dos trabalhadores após o insucesso de uma greve que, motivada pelos baixos salários e insalubres condições de trabalho, culminou na demissão de muitos operários. Reunindo-se pela primeira vez em dezembro de 1843 com o objetivo de discutir possíveis soluções para seus problemas, sobretudo de ordem econômica – especialmente a dificuldade do acesso aos gêneros de primeira necessidade –, os trabalhadores decidiram-se por formar uma associação na qual poderiam comprar em conjunto os produtos dos quais careciam, na tentativa de conseguir menores preços. Economizaram durante um ano o capital necessário ao seu empreendimento e, em dezembro de 1844, inauguraram o armazém cooperativo, apresentando aos associados pequenas quantidades de farinha, açúcar, manteiga e aveia (PINHO, 1966, p.40).
Mesmo iniciando com poucos recursos42 e não constituindo a primeira prática de cooperativismo registrada43, a Cooperativa dos Pioneiros de Rochdale destacou-
42 Pinho (1982, p.31) afirma que os trabalhadores deram início à cooperativa com um capital de apenas 28 libras esterlinas.
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De acordo com Veiga e Fonseca (2001, p.19), “a mais antiga cooperativa, com existência documentada, parece ter sido iniciada em 1760 por trabalhadores empregados nos estaleiros de Woolwich e Chatham, na Inglaterra. Eles fundaram moinhos de cereais em base cooperativa para
se pelo grau de organização em torno de certas premissas, observadas de forma dispersa nas experiências que lhe antecederam, mas somente sistematizadas por seus membros. Posteriormente imortalizados como princípios universais do
cooperativismo44, os preceitos estabelecidos pelos Pioneiros assim sintetizam-se:
1º) que nas decisões a serem tomadas cada membro teria direito a um voto, independentemente de quanto investiu na cooperativa; 2º) o número de membros da cooperativa era aberto, sendo em princípio aceito quem desejasse aderir. Por isto este princípio é conhecido como o da ‘porta aberta’; 3º) sobre capital emprestado a cooperativa pagaria uma taxa de juros fixa; 4º) as sobras seriam divididas entre os membros em proporção às compras de cada um na cooperativa; 5º) as vendas feitas pela cooperativa seriam sempre feitas à vista; 6º) os produtos vendidos pela cooperativa seriam sempre puros (isto é, não adulterados); 7º) a cooperativa se empenharia na educação cooperativa; 8º) a cooperativa manter-se-ia sempre neutra em questões religiosas e políticas (SINGER, 2010, p.39-40).
Apesar de não inovarem em sua proposta, os Pioneiros, ao sistematizarem e colocarem em prática estas condições, junto à defesa da integração entre cooperativas45, provocaram a disseminação do ideal cooperativista pelo mundo. A ideia era, a partir do montante levantado com a venda dos produtos nas cooperativas de consumo, investir na implantação de indústrias cooperativas, as quais se inseririam no setor primário da produção. Esse movimento, de acordo com seus idealizadores, garantiria o suprimento de boa parte das necessidades de consumo dos integrantes das cooperativas através do seu próprio trabalho. Pretendia-se46, assim, instalar uma forma de produção alternativa à capitalista, fundamentada na solidariedade social e consolidada na formação de Colônias Cooperativas47. Uma reforma do meio econômico-social fortemente influenciada pelo pensamento owenista48. Para seus defensores,
não terem de pagar os altos preços cobrados pelos moleiros que dispunham de um monopólio local. No mesmo ano, o moinho de Woolwich foi incendiado e os padeiros foram acusados do sinistro. Essa cooperativa só foi registrada para a história por causa deste incidente”.
44 Os princípios universais do cooperativismo são também reconhecidos como doutrina cooperativa. 45A integração entre cooperativas, colocada em pauta pelos Pioneiros, consiste num “suporte técnico e educacional” que as cooperativas mais desenvolvidas deveriam prestar àquelas em fase de formação (MISI, 2000, p.74).
46 Enfatize-se o caráter subjetivo de pretensão.
47 No texto, Colônias Cooperativas, Aldeias Cooperativas e Comunidades Cooperativas referem-se à mesma proposta de organização econômico-social.
48 A proposta de Owen encontra-se explícita principalmente nos princípios de limitação de juros ao capital e de empenho à educação cooperativa. Sobre a última, Singer (2010, p.42) atenta que, de acordo com Owen, “os vícios e o egoísmo são frutos de uma educação errada. Portanto, para que o cooperativismo seja entendido e apoiado em seus propósitos, é necessário que não só os
O armazém cooperativo era apenas o início da construção deste projeto, que deveria ser seguido por um segundo passo, qual seja a fundação de cooperativas de produção. Se estas últimas fossem bem-sucedidas, absorveriam a totalidade dos sócios da cooperativa de consumo e então poderia ser dado o terceiro passo: construir a Aldeia Cooperativa, em que todos poderiam viver lado a lado, produzindo e consumindo em comum (SINGER, 2010, p.45).
Muito embora a prospecção otimista, o desdobramento das cooperativas de consumo em cooperativas de produção não ocorreu conforme o idealizado por seus pensadores. Em meio a justificativas que não questionam a viabilidade do projeto49, Singer (2010) argumenta que um dos determinantes para o insucesso das cooperativas de produção50 – e, por consequência, das Comunidades Cooperativas – encontra-se no fato de serem cogestionárias. Ou seja, o capital para os empreendimentos era misto, advindo tanto da própria cooperativa e de seus trabalhadores, como de acionistas externos, “sócios” que compravam ações destas iniciativas.
A sua administração [das cooperativas] era representada por representantes dos acionistas (que não trabalhavam na cooperativa) e dos trabalhadores dela. Este é um arranjo instável, porque os interesses dos capitalistas e dos trabalhadores eram contraditórios, o que não tardou a provocar conflitos (SINGER, 2010, p.44).
Estas organizações, quando em momentos de instabilidade do sistema capitalista, especialmente na Guerra Civil Inglesa – com a redução da produção têxtil em decorrência da falta de algodão –, tornaram explícita sua instabilidade interna51. No intuito de abolir o abono52 destinado aos trabalhadores sob a justificativa de que empregados de empresas capitalistas sofriam cortes nas jornadas e nos salários, os acionistas (capitalistas) das cooperativas empreenderam cooperadores, mas o público em geral seja educado em seus princípios ou, mais amplamente, em sua visão de mundo”.
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Singer (2010, p.45) afirma que “o que ocorreu com a cooperativa de Rochdale é que o número de seus sócios cresceu muito mais do que o número de vagas nas cooperativas de produção que ajudava a criar. Além disso, com o passar dos anos, a formação da Aldeia perdeu a adesão da maioria dos cooperadores”.
50 Trata-se aqui das tentativas diretas de desdobramento da Cooperativa de Consumo dos Pioneiros de Rochdale, como a Sociedade Cooperativa Manufatureira de Rochdale (SINGER, 2010, p.43). 51 Análise crítica sobre a proposta dos Pioneiros de Rochdale será desenvolvida no último tópico deste capítulo.
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Singer explica que “os acionistas (...) recebiam uma taxa fixa de 10% sobre o capital que investiram. Os trabalhadores, além de receber também esta taxa sobre o valor de suas ações, tinham direito a um abono de 20% sobre seu salário, a título de participação nos lucros”.
um amplo movimento, que culminou na aprovação, em 1862, de uma resolução nesse sentido:
Converteram assim a Sociedade Cooperativa Manufatureira numa firma ordinária lucrativa; e é um fato significativo que por ocasião da mudança apenas cerca de 50 dos 500 empregados eram acionistas53. Terminou assim o grande experimento de Rochdale em produção cooperativa (COLE apud SINGER, 2010, p.44).
Não obstante o fracasso do desenvolvimento das cooperativas de produção a partir do cooperativismo rochdaleano de consumo, a experiência dos Pioneiros motivou a disseminação das premissas cooperativistas em nível mundial, conforme apontado. Símbolo dessa conjuntura encontra-se na formação da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), em 1895, cujo objetivo consistiu na construção de um fórum internacional para orientar a atuação das cooperativas de forma unificada54. Voltando-se inicialmente ao cooperativismo de consumo55 europeu, a Aliança contribuiu para solidificar e popularizar ainda mais os princípios rochdaleanos. Mesmo posteriormente, diante das mudanças no quadro socioeconômico global após a Segunda Guerra Mundial e dos diferentes contextos histórico-sociais (distintos do europeu) nos quais se multiplicaram as experiências de cooperativismo, os princípios dos Pioneiros de Rochdale, adequando-se a essas transformações, mantiveram-se56 como paradigma para as iniciativas emergentes.