Antigo seminarista, beirão, figura de relevo das nossas letras e autor de obra vasta, grande frequentador das tertúlias do Chiado, Aquilino Ribeiro (1885-1963) seria preso em 1907, quando numa casa da rua do Carrião, em Lisboa, onde vivia (era à data jornalista), ocorre uma explosão devido a deficiente manipulação de explosivos.
175 Verificam-se duas vítimas mortais: o médico Gonçalves Lopes e o comerciante Belmonte de Lemos. Demos a palavra ao escritor:
No dia 9 de Novembro de 1907, à tarde, hora em que o Rossio, ao tempo com a placa central calcetada em ondas do mar, estava coalhado de ociosos, fui abordado por um dos cabecilhas da Alta Venda, Luz de Almeida. […] Foi ele que organizou as forças secretas da Revolução, das quais conhecia, se não iniciara, indivíduo por indivíduo na sua vida e índole. Carbonária lhe chamou à maneira italiana […].Disse-me ele: – Temos de retirar do consultório do Dr. Gonçalves Lopes a metralha que lá tem. A polícia já veio fairar à escada. Convinha-me, uma vez que mora para os lados de S. José… numa rua que nem ao Diabo lembra, que a guardasse no seu quarto, por algum tempo. Pode ser, não? – Eu moro, de facto, numa rua sossegada, a Rua do Carrião. Mas vai dar à Rua do Passadiço, agora muito frequentada da bufaria por causa do José de Alpoim…Considerou um momento e tornou: – Se não estou em erro, a Rua do Carrião vai dar à Rua do Passadiço, mas não lhe é perpendicular. Quer dizer, pois que de lá se não vê a casa do Alpoim, não tem mal nenhum.– Sim, da minha rua não se avista a casa do Alpoim, mas há outro inconveniente: a dona da casa é uma grande bisbilhoteira. Nada lhe escapa… – Não tem uma mala que se feche à chave? Plantou-se diante dos meus olhos o meu baú de embarcadiço […].385
Testemunha preciosa de um acontecimento de grande importância política e emocional para a sociedade portuguesa — como atrás se disse, comoveu toda a Europa e não só —, o autor de A Casa Grande de Romarigães sustenta que o atentado se destinava a eliminar João Franco e não a família real. Tem o prosador também o cuidado de mostrar a sua discordância com o regicídio, a sua repugnância, mesmo, acentuando que se encontrava escondido, dado que conseguira fugir à polícia, que o detivera na sequência da explosão da rua do Carrião. Avaliemos as suas palavras:
(…) Alfredo Luís da Costa [o regicida alentejano]. Após a troca de cumprimentos, disse-me de salto: – Até que enfim. Tenho o grupo que há-de ir esperar João Franco… – Que gente leva consigo? – Levo o Buíça… – isto dizendo torceu-se todo e olhou para mim como a consultar-me. – Levo o Buíça, mas com certa relutância. Você sabe, o Buíça tem dois filhos menores. Morreu-lhes a mãe… Que seria dos pobrezinhos se o pai
385 - In catálogo da mostra bibliográfica Cronologia do ano de 1907: no advento da República, Lisboa, BNP, 2007, p. 109; cf. Aquilino Ribeiro, Um Escritor Confessa-se, Lisboa, Bertrand, 1974.
176 perdia a vida na aventura, primeiro desamparados, depois que ominoso não os esperava pela vida fora, filhos de homicida!? (…) – Que me diz ao decreto que Teixeira de Abreu levou a Vila Viçosa a assinar e ontem publicado nos jornais? Eu já sabia há dois dias, pelos nossos informadores, que roda de navalhas se estava a armar contra os republicanos. (…) – Sério, sério: leu bem o decreto? O João Franco faz de conta que vai dar uma batida aos lobos na serra da Gardunha. Agora, ainda mais responsável que ele é o rei. – Mais responsável…? – Salta à vista. Este decreto, que é senão um pacto de criminosos depois da liquidação miserável dos adiantamentos? Desde esse dia, o rei é o capitão da quadrilha, que promoveu Franco a seu lugar-tenente. O que D. Carlos merecia sei eu… (…) – E se o Franco lhes falhar na Rua Alexandre Herculano. [O ditador tinha casa nessa artéria lisboeta.] – Vamos dar-lhe caça até o descobrir. Nem no meio do inferno nos escapa. Ele há-de ir hoje ao Terreiro do Paço esperar a Família Real. Fuzila-se mesmo lá! – Não pense nisso! É correr grandes riscos… – É e não é. Assim que a fera esteja em terra, temos a revolução na rua. A questão é aguentar… (…) Alfredo Costa estava perfeitamente à vontade, sereno, como se combinasse um passeio a Vila Franca para ver a tourada. Eu, no fundo, guardava um pouco de cepticismo sobre aquele empreendimento, que me parecia destinado a gorar como dezenas de tantos outros,(…) Em verdade, no meu subconsciente gorgolhava uma ideia de cepticismo por tudo o que se parecesse com golpes de força à antiga, lances de sangue e brutalidade de que supunha de todo incapazes os meus contemporâneos.(…) [fugido à polícia, clandestino, o escritor estava numa casa de Meira e Sousa, situada na Rua Nova do Almada, mesmo em frente do tribunal da Boa Hora]. (…) Abri a vidraça e até onde se podia estender o meu raio visual, quebrado pelo ressalto do telhado, vi gente, gente que corria de baixo, singularmente ou por cachos. (…) Mas se tiroteio tivesse havido, o seu eco teria chegado até mim, e eu não o ouvi.(…) Subitamente abriu-se a porta de arranco e entrou no meu quarto Tavares de Melo, ao tempo redactor da Vanguarda, que era visita da casa: – Mataram o rei e não se sabe quem mais da família real… – Mataram o rei!? Que grande desacerto! – exclamei, (…) – Mataram também o João Franco? – Ouvi dizer que quem morreu também foram os assaltantes.(…) Finalmente chegou Meira e Sousa que me pôs ao corrente do ocorrido, que lá fora era já do domínio de toda a gente. (…) Debalde o grupo fora esperar João Franco à Rua Alexandre Herculano. O ditador, sabendo-se em perigo e acossado de um lugar para o outro, entrou mais uma vez a negacear com os perseguidores. Não lhe era difícil, dispondo dos órgãos de informação e torcendo-lhes as voltas. Os seus vários domicílios permitiam-lhe este jogo do Escondidinho.(…) deliberaram [os conspiradores] em comum ir esperar Franco ao Terreiro do Paço, à hora do regresso da Família Real.(…) Isoladamente, os homens dos Olivais atrás, e par a par, se dirigiram com boa meia hora de antecedência para o
177 Terreiro do Paço. Escalonando-se pela praça, Alfredo Costa tomou a posição do fundo, próximo do embarcadoiro, os três ficaram a deambular ao meio, da estátua de D. José para o centro da ala ocidental contra as arcadas, como ociosos, e Buíça postou-se na fímbria norte, não bem sobre o lancil, mas perto ou encostado ao candeeiro, na linha do prolongamento da Rua do Ouro, na atitude de indivíduo que espera outro, conforme entrevista marcada. Constava do seu plano aguardarem ali João Franco, como caminho necessário para os cais. (…) Apareceu, depois de grandes delongas, que mais agravaram a hiperestesia dos conjurados, em daumont, a Família Real, os reis lado a lado, os príncipes em frente. (…) E João Franco? João Franco sumira-se novamente como um trasgo. (…) Entretanto, aproximaram-se os outros três conspiradores, persuadidos que não havia mais nada a fazer do que porem-se a «cavar». Mas Alfredo Costa, fixando o olhar em Buíça, tornou: – E agora?… Se liquidássemos a cambada? (…) O carro aproximava-se lento como a gozar a doçura da tarde, os cavalos percutindo a calçada a chouto vagaroso. Buíça, desencostando-se do candeeiro, respondeu: – Vamos a eles! Fez um gesto a indicar a posição que ia tomar. Costa soprou para os três: – Defendam- nos a retaguarda! (…) D. Carlos tinha caído cerce como um roble, debaixo por certo das balas de Buíça, e igualmente o Príncipe alvejado à queima-roupa por Costa. Então a carruagem real largou à desfilada, seguida pelas outras, tomadas de terror. (…) O regicídio foi a enfloração lógica de ideias, ódios e revoltas, semeados a trouxe-mouxe por monárquicos e republicanos num solo bárbaro, propicio à violência… (…) Planeada a revolução pelo risco e indústria de António José de Almeida que, para o civil, tinha como lugar-tenente a Luz de Almeida, Costa arranchava no grupo que devia assaltar o Palácio Real, depois, por uma modificação da estratégia, o Quartel dos Lóios. Na noite de 28 de Janeiro, data fixada para o movimento que abortou desastradamente no elevador da Biblioteca, (…) A desordem e o pavor lavraram então nas fileiras republicanas, que antes pareciam firmes e ordenadas. O Tejo e os quintais foram o coval de infinitas cestadas de bombas. Nos quartos andares, os revolucionários davam-se tratos de imaginação para esconder as pistolas e abbadies de contrafacção espanhola com que deviam fazer calar as kropatcheks e peças de tiro rápido das forças lealistas. Fugiram para terras nunca vistas nem sonhadas ou sumiram-se pelo chão os chefes e subchefes do movimento. Franco triunfava em toda a linha. (…) Fechados os Centros, suspensos os jornais, prisões à cunha, pelas ruas viam-se passar rebanhos inteiros de homens, enquadrados por guardas a cavalo.386
178 Muitas têm sido, como atrás se disse, as investigações históricas sobre o regicídio, podendo mesmo dizer-se que se apresentam como cíclicas, porventura para colmatar as diligências policiais da época, que não foram muito apuradas… Entre os investigadores mais recentes, surge Rui Ramos, autor de D. Carlos,387 que nos parece oferecer algumas perspectivas interessantes. Seguem-se excertos de opiniões suas a propósito de um
dossier votado a durar ainda muito tempo antes de poder (alguma vez?) encerrar-se:
Os dois indivíduos que foram mortos no Terreiro do Paço e identificados como regicidas - aparentemente terá havido outros, nunca capturados e nunca perfeitamente identificados - faziam parte de um grupo armado que estivera envolvido, uns dias antes, na chamada revolução do 28 de Janeiro de 1908. (…) Tinham sido treinados, as armas não eram das que se tinha em casa, eram carabinas modernas adquiridas pelos chefes dessa revolução, revolução que acontece num determinado contexto político. Nessa tentativa de revolução, tanto quanto os protagonistas dão a entender em depoimentos e memórias, havia a hipótese de fazer algo ao rei, capturar o rei, matar o rei, nunca ficou claro. (…) A partir de 1905-1906 as coisas deterioram-se outra vez. Os partidos recomeçam a desfazer-se; os dois líderes, Hintze e José Luciano, passam a ser contestados, há cisões dentro dos partidos. João Franco abandona o Partido Regenerador e forma o Partido Regenerador Liberal; e José Maria de Alpoim cria a Dissidência Progressista. O movimento republicano cresce. E surgem problemas provocados pela inserção de Portugal no conjunto europeu, como a confirmação da aliança com a Inglaterra, mas sobretudo o saneamento do Estado, isto é, a liquidação da crise financeira e da bancarrota de 1889, exigindo reformas fiscais (o contrato do tabaco), um Estado mais eficiente, etc. D. Carlos apercebe-se de que os líderes políticos do período de estabilidade, do rotativismo, já não servem. É preciso arranjar outros.(…) [O rei] …Dissolve o Parlamento e deixa João Franco no Executivo, governando por decreto, o que na altura se chamava ditadura administrativa, que nada tem a ver com as ditaduras de hoje. (…) As coisas têm uma certa lógica. Quando se começa a contactar pessoas e a arranjar armas, cria-se uma dinâmica que os próprios não conseguem controlar. É isso que se passa em Janeiro de 1908. Há políticos que tratam de combater o Governo, de eleger deputados, e há outros que se comprometem cada vez mais numa conspiração, sobretudo os da Dissidência Progressista, mas também alguns regeneradores. (…) Os ministros, quando o rei estava aflito, adiantavam-lhe dinheiro. Uma bola de neve, porque quanto mais D. Carlos pedisse emprestado, menos possibilidades teria de pagar. Isto tinha consequências graves. Como isto não era público, havia uma série de políticos
179 que tinha o rei na mão, fazendo chantagem. (…) Que queriam eles [os políticos monárquicos] exactamente fazer? (…) O republicano Afonso Costa não estava na revolução e aparece no último minuto como chefe. Todas as revoluções são assim: está muita gente misturada, se resulta aparecem todos; alguns mostram-se apenas o suficiente para garantir um hipotético lugar. Falhada a revolução republicana de 28 de Janeiro de 1908, o Governo avança com uma lei para evitar julgamentos políticos, permitindo-lhe expulsar do país indivíduos que haviam sido pronunciados pelos tribunais por crimes de rebelião e conspiração. (…) Havia todo um jogo, típico da Monarquia. Para evitar isso, Franco optou por forçar os adversários ao exílio. E na lei estava previsto que os que de entre eles voltassem a Portugal seriam deportados para as colónias.(…) um ambiente de exasperação, que terá levado alguns dos conspiradores a recorrer à última medida: o regicídio. (…) Rapazes de província que vêm ganhar a vida para Lisboa e encontram um ambiente que os corta das suas raízes provincianas, católicas, reverenciais. Encontram uma cidade que, para Portugal, é enorme, com oito por cento da população nacional, onde há uma cultura de resistência à autoridade, de irreverência, de certa desenvoltura em termos intelectuais e comportamentais. O movimento republicano é um pouco o resultado disso e depois a estruturação disso, com uma cultura alternativa à cultura tradicional do país: lojas maçónicas, muitas delas não regularizadas, uma sociedade para-maçónica, como a das carbonárias, e que constituem sobretudo laços de solidariedade, de fraternidade, de uma fraternal sociedade masculina de jovens que se reúnem nos cafés de Lisboa até às tantas da manhã. Este caldo de cultura leva ao elogio do acto violento que impressione as pessoas e transforme a História. A conspiração política, só por si, nunca chegaria onde chegou se não tivesse coincidido com este caldo de cultura, urbano, juvenil, irreverente, romântico, exaltado, em que havia pessoas que não falavam só de dar tiros, davam mesmo tiros, como Manuel Buíça e Alfredo Costa e provavelmente outros que estiveram no Terreiro do Paço, no dia 1 de Fevereiro de 1908. (…) O que se passou no Terreiro do Paço não foi um acto de vingança ou de retaliação, foi um acto revolucionário. Buíça, Costa e os outros tentaram, através de um atentado criar em Lisboa um ambiente de revolução.388 Qualquer que seja a valoração que se faça de D. Carlos como rei, terá de levar-se em linha de conta os tempos atribulados do seu reinado, a sua fragilização depois de Londres haver formulado o Ultimatum mal ele se sentara no trono, porventura o seu
180 demasiado amor pelas coisas boas da vida, às quais não parecia saber resistir. Mas ficará nos anais fadistas, não apenas pela sua afeição à trova e a João Maria dos Anjos, como também por haver uma composição que o lembra. Falamos no muito difundido, sobretudo pela rádio, mesmo nos nossos dias, fado do Embuçado. Embora os versos apelem a uma certa intemporalidade, ele será, que se saiba, o único soberano que neles se enquadra. O pai só gostava de ópera e música sinfónica, embora pudesse uma vez ou outra contemporizar com gostos mais plebeus — e o filho, decididamente, não sabemos o que preferia em termos musicais, mas no exílio britânico não ouviria por certo o
rigoroso. Recordemos, pois, esses versos de algum significado, dado terem sido escritos por um declarado republicano, Gabriel de Oliveira (1891-1953), dito Gabriel Marujo, devido à sua passagem pela Armada, como artilheiro. Foi autor da música José Marques.
Noutro tempo a fidalguia Que deu brado nas toiradas Frequentava a Mouraria E em muito palácio havia Descantes e guitarradas.
A história que vou narrar Contou-me certa velhinha Um dia que fui cantar Ao salão de um titular Lá pró Paço da Rainha.
A esse salão doirado De ambiente nobre e sério Para ouvir cantar o fado Ia sempre um embuçado, Personagem de mistério.
Mas certa noite houve alguém Que lhe disse, erguendo a fala, «Embuçado, nota bem,
Que hoje não fique ninguém Embuçado nesta sala!»
Ante a admiração geral Descobriu-se o embuçado. Era El-Rei de Portugal Houve beija-mão real
181 Também a História da Arte não pode ignorar que D. Carlos, tal como o pai e o avô, foram patronos das manifestações artísticas, mas ele, por direito próprio, figuraria como pintor de talento, nos livros da especialidade. Coube-lhe inaugurar a Sociedade Nacional de Belas Artes, criada em 1901, por fusão do Grémio (do qual herdou a
insígnia da Vénus de Milo) e da velha Promotora — o primeiro em decadência, com dificuldades financeiras, a segunda em ciosa inactividade há catorze anos já, mas ainda capaz de impor a sua vontade em negociações demoradas,389 como nos conta José-Augusto França. E não se limitou o soberano a honrar com a sua presença o primeiro salão da SNBA, pois também ali figurava como expositor. Tivera aulas com o professor espanhol Enrique Casanova, aguarelista, um dos estrangeiros vindos ensinar em Portugal, que também contava entre os seus discípulos Ricardo Hogan. Na exposição de Paris de 1900, incluído numa mostra nacional colocada em local inapropriado na área da nossa representação, dado os responsáveis portugueses acharem dever dar-se a prioridade, senão mesmo a exclusividade, aos produtos de provável exportação,390 o rei viu um trabalho seu ser distinguido, enquanto o director do Museu do Luxemburgo, Léonce Bénédite, afirmava que, entre os (poucos) nomes por si considerados dignos de reter, figuravam os de Sousa Pinto, Columbano e D. Carlos, que
bem tinha merecido a sua medalha.391 Como afirma José-Augusto França:
(…) Rei numa monarquia polemicamente desconsiderada na rua e na política, vivendo numa corte mesureira, a sua personalidade de pintor sofreu fatalmente ataques e elogios apaixonados ou interesseiros, que desvirtuaram a crítica da sua obra, colocando-a abaixo ou acima do seu valor real — até à veloz promoção de medalhas, da 3.ª até à honra, logo em 97, no Grémio Artístico. Tendo recebido lições do velho mestre Fonseca e de Lupi, D. Carlos foi sobretudo, desde 82, discípulo do aguarelista espanhol Casanova (…) Dez anos depois, Fialho, que ao princípio o atacara em troça, achava que ‘o curioso acabara e que então era necessário apontá-lo entre os pouquíssimos que neste país de costa verdadeiramente sentem a marinha, e entre os raros que (…) se esforçam por pintar em português’. O rei não governaria, ‘mas pintava, e muito bem; só ele valia quase todo o Grémio Artístico’, na exposição de 98 — havia ainda o cronista de dizer. D. Carlos ‘pintava em português’, fugindo de mundanidades (como acentuou Ramalho), ou imprimindo-lhe certa ironia, e representando o mar, em aguarelas e pastéis, com bom
389 - J.-A. França, A Arte em Portugal no Século XIX, vol. II, p. 87. 390 - Idem, ibidem, p. 91.
182 entendimento da quebra das águas nas arribas de Cascais. Num país sem marinhistas, ele foi-o certamente, com decência e habilidade, mas abaixo da craveira de Roque Gameiro — e melhor talento na verdade revelou ao pintar em pastel as terras e as árvores do Alentejo, com uma força serena e certa, que é plástica e pictórica ao mesmo tempo. A Campina do Museu de Arte Contemporânea, de 98, os Sobreiros do Paço de Vila Viçosa, de 905, são peças notáveis, na pintura portuguesa do tempo. Se ao contrário do que dizia Celso Hermínio em caricatura e familiares do Paço em confidência, era D. Carlos quem realizava inteiramente estas obras, que, de qualquer modo, um Casanova não seria capaz de sentir assim — pode ver-se nele um hipotético
sucessor imediato de Silva Porto, como pretendia José de Figueiredo. É na sua obra breve, de regionalista, e não na de um Carlos Reis, que realmente se aportuguesa, em estrutura e cor, a lição que a primeira geração naturalista trouxera de Barbizon — e que ao lado dela se mastigava, em meras alterações decorativas.392