Realizamos nossa coleta de dados em dois momentos distintos, com participantes de características bastante diversas. A aplicação dos questionários foi realizada com os alunos que haviam ingressado recentemente em uma instituição de ensino superior. As entrevistas, por sua vez, foram realizadas com os professores dos cursos de licenciatura. Certamente, em função das características dos sujeitos, o modo de abordagem, a faixa etária, entre outros, vivenciamos duas situações bastante particulares.
Foram aplicados 170 (cento e setenta) questionários em sala de aula, com horário previamente agendado. Primeiramente, antes do início da pesquisa, entramos em contato pessoalmente com os professores de diversas disciplinas e cursos. Nesta ocasião, explicitamos os objetivos e a metodologia do estudo que pretendíamos desenvolver, a fim de obtermos a autorização para a aplicação dos questionários. Todos os professores, que mantivemos contato, mostraram-se bastante receptivos a nossa proposta de trabalho. Neste sentido, disponibilizaram,
no horário de suas aulas, o tempo necessário para que a pesquisadora mantivesse o contato com os alunos.
Uma vez obtida à mencionada autorização dos professores, comparecíamos a sala de aula, conforme horário agendado, e aplicávamos o referido instrumento de coleta, após exaustiva explicação da sua forma e conteúdo. Não estipulamos limite de tempo para que os alunos respondessem aos questionários. Ficava a critério dos respondentes utilizarem o tempo que lhes fosse necessário. O período utilizado para o preenchimento do questionário foi em torno de 40 (quarenta) minutos.
Os alunos foram muito receptivos a proposta da nossa pesquisa e disponíveis a aplicação dos questionários, o que podemos verificar por intermédio do empenho demonstrado para respondê-los. As questões foram respondidas individualmente, evitando-se que as respostas fossem compartilhadas entre os sujeitos e ao término, os questionários foram devolvidos diretamente a pesquisadora. Com esta forma de proceder, buscamos assegurar que as respostas fossem autênticas e evitar que estas pudessem ser “construídas” em outro momento. Ao ficarmos acompanhando os sujeitos todo o tempo em que respondiam as questões, podemos controlar que todos os questionários fossem devolvidos. Para nós, interessava que os alunos respondessem as questões, sem recorrer a qualquer tipo de consulta, para que as respostas fossem as mais fidedignas possíveis. Ademais, capturamos elementos importantes ao longo da aplicação do questionário. De acordo com Hall (1986), todas as expressões e os movimentos corporais são carregados de significados específicos dentro do contexto, do tempo e do espaço em que acontecem. O corpo é um centro de mensagens que comunica informações específicas dos indivíduos como crenças, valores, tensões, entre outros. Neste sentido, observamos, por exemplo, que os sujeitos no início da aplicação do questionário ficavam bastante eufóricos sendo recorrente o aparecimento de risos e brincadeiras. No segundo momento, ficavam silenciosos e concentrados. Esta postura inicial converge com o que nos diz Werebe (1998). Para esta autora, muito frequentemente, quando os indivíduos são confrontados com questões sobre a sexualidade, por ser a sexualidade uma temática ainda cercada de pudores, os sujeitos, a priori, não a encaram com naturalidade. Ao contrário, as questões sexuais despertam reações emocionais, ligadas a temores, fantasmas e
preocupações individuais, o que vem a ser uma das dificuldades para se trabalhar com o assunto da sexualidade em sala de aula. Assim como Tiba (1994), entendemos que o assunto sexo, quando surge na sala de aula, é motivo de tensão tanto para professores como para os alunos. Os professores se protegem da ansiedade, usando de dados científicos, e os alunos, por meio das gozações.
Na compreensão da Psicanálise, este tipo de reação, a inibição causada pelos assuntos ligados à sexualidade, está relacionada ao pudor e a vergonha em virtude da sexualidade vincular-se ao proibido, ao socialmente inaceitável. Estamos afirmando que para esta área de saber há uma contradição no comportamento humano entre a sexualidade e o saber sobre seu objeto. Em função disso, por muitas vezes, o riso e os chistes surgem como mecanismos de defesa frente a um conflito psíquico que se instala. Como defende Freud (1905), a construção dessas barreiras é um produto da educação e da moral sexual civilizada, responsáveis pelas neuroses. Desse modo, o comportamento dos alunos demonstra que, embora eles tenham manifestado interesse para reponderem ao questionário, ficaram um pouco desconfortáveis para abordar um assunto que é, por si só, gerador de conflitos, pois, diz respeito a sentimentos, valores, emoções, tabus e preconceitos, bem como, posições de ordem política, religiosa e moral. Entendemos que naquilo que não é revelado explicitamente estão contidas as marcas e os significantes da cultura, os quais são condutores inexoráveis do modo como cada indivíduo particulariza o mundo.
Eventualmente, nos deparamos com a indagação de alguns alunos sobre a possibilidade de devolver o questionário posteriormente. Aqueles que assim procederam, alegaram que precisavam de maiores conhecimentos para atender a nossa demanda. Percebemos que alguns alunos se mostraram inseguros e preocupados com aquilo que iriam responder, pois havia uma inquietação de cunho avaliativo. A fala de um dos entrevistados revela bem esta situação: Professora, eu
posso responder em casa e entregar depois? Estou vendo que tem umas coisas aqui que eu preciso me fundamentar melhor para responder. Não quero falar bobagens. Explicamos que não se tratava de avaliarmos o conteúdo das respostas
em termos de erros e acertos, sobretudo porque, não havia respostas certas e erradas. Para nós, interessava identificar no conteúdo das respostas o que eles compreendiam a respeito da sexualidade. Além de explicarmos que não se tratava
de um procedimento de avaliação, asseguramos que não havia como identificá-los em função do anonimato que iríamos preservar.
Com relação às questões, de modo geral, os alunos não demonstraram dificuldade de compreensão, tampouco ofereceram resistência para respondê-las. No entanto, a questão número 2 (Na sua compreensão o que é sexualidade?) em particular, gerou certa apreensão e dificuldade. Muito provavelmente, por esta razão, 15,29% dos alunos entrevistados não a responderam, sendo esta a indagação com maior índice de rejeição. Aqueles que o fizeram, que corresponde a 84,71% dos sujeitos, demonstraram insegurança, sendo esta a questão que lhes demandou o maior tempo para resposta.
Dissemos anteriormente que mantivemos contato com os professores para solicitar a autorização para a aplicação dos questionários junto aos alunos. Embora esses professores não tenham sido formalmente entrevistados naquele momento, aproveitamos o tempo em que falávamos, sobre a aplicação dos questionários, para conversarmos livremente sobre o que pensavam sobre a abordagem da sexualidade. Com este procedimento objetivamos iniciar o diagnóstico da compreensão dos professores acerca da temática do nosso estudo.
Perguntamos a esses professores se questões inerentes à sexualidade surgiam na sala de aula. Em caso afirmativo, pedíamos que nos relatasse qual a postura que adotavam frente ao referido questionamento. Além destas, interessava- nos saber se os cursos dispunham de uma disciplina específica, na qual os temas inerentes à sexualidade eram abordados.
Os resultados demonstram que os alunos concebem a sexualidade de maneira reducionista, associando-a a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. É inegável que a sexualidade faz parte do contexto escolar. Sendo assim, é imprescindível e inadiável que as instituições formadoras tomem para si a responsabilidade pela transmissão de conteúdos acerca dessa questão, de modo a ampliar e enriquecer o conhecimento dos futuros educadores. Entretanto como nos adverte Louro (2001), a educação sexual não pode se limitar apenas a passar informações aos alunos, pois, sendo assim, transmitir-se-iam apenas conhecimentos que podem ou não ser seguidos pelos adolescentes. É preciso educar no sentido de preparar o adolescente para a vida. Para tanto, é necessário subsidiar a formação dos professores que irão desempenhar esta tarefa. Pelo que podemos observar ao
longo do nosso estudo, é indiscutível que os cursos de licenciatura não asseguram o acesso à formação específica para tratar de sexualidade com crianças e jovens na escola, possibilitando aos professores a construção de uma postura profissional e consciente no trato desse tema. Entendemos que a referida formação é uma questão crucial, sobretudo se considerarmos que os desafios que se insurgem no trabalho com a sexualidade na escola exigem do trabalho educativo outro patamar profissional, bastante superior ao que hoje identificamos. Desse modo, é importante que os professores tenham, por exemplo, a oportunidade de uma formação continuada. Por esta via é possível promover avanços no seu desenvolvimento profissional por intermédio de uma intervenção substantiva em sua prática pedagógica.