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Flaskehalser i forhold til enkeltfaktorer

4. Resultater og diskusjon

4.4 Flaskehalser i forhold til enkeltfaktorer

Cuidadosamente apresentei ao professorado, direção, corpo técnico - administrativo e funcionários em geral da escola a intenção de pesquisa que defendo e seus desdobramentos desejáveis. Antes de eu conhecer mais profundamente os campos empíricos de investigação, Quilombo do Cria-ú e escola da comunidade, fiz o planejamento de fazer o acompanhamento do professorado dentro da sala de aula com o objetivo de analisar como a cultura afroamapaense estava presente nos conteúdos escolares por eles (as) ministrados.

O planejamento foi reformulado porque as entrevistas prévias com as professoras de artes, geografia, história e ensino religioso e uma pessoa do corpo técnico da escola em

2008, especificamente, em primeiro momento e em seguida com toda a comunidade escolar, mostraram que grande parte destes não trabalhavam as expressões culturais afroamapaenses em âmbito escolar ao longo do ano letivo como conhecimento relevante para a formação dos educandos.

As atividades educacionais sobre esse tema adentrava a escola no mês de novembro em comemoração ao aniversário de morte do maior líder negro da história do Brasil, Zumbi dos Palmares e nos conteúdos escolares trabalhados pelas professoras de Artes no projeto Canto de Casa com duas horas semanais e a professora de História. Ambas participaram até o final do curso de formação oferecido em parceria MEC/SECAD e SEED/AP aos professores do Estado do Amapá para a Implementação da Lei nº 10.639/03. Mesmo assim, as professoras realizavam sua práxis pedagógica isoladamente na escola.

Então dentro desses projetos, trabalhados pela Prof. Irene Bonfim, quando chega no mês de novembro tudo é direcionado a cultura afrodescendente. (PROFESSORA DE ENSINO RELIGIOSO).

Eu acho que na verdade, falta a gente sentar para estudarmos a lei. Como professores, nos juntarmos para falarmos uma mesma linguagem na escola. Eu acho isso muito interessante. Por exemplo, eu sou muito procurada (pelos colegas) quando eles tem dúvida sobre a comunidade. As vezes nem vão com os professores da comunidade (nascidas no Quilombo) que trabalham aqui. Eles vem comigo perguntar. Se vem um aluno da universidade eles mandam lá comigo. Então assim, eu vejo essa necessidade de também preparar atividades sobre o assunto. Então eu estou pretendendo fazer uma oficina, no sentido de colocar um pouco daquilo que eu pesquisei, os meus conhecimentos para eles também. E já justamente usarmos a lei eu acho muito interessante a gente aprofundar isso aqui. É assim, esse a gente também vai trabalhar juntamente com a professora de história. Até então a gente trabalhou muito isolada. Eu um projeto na arte e ela especificamente na história. Na verdade a gente não tem assim uma interação para trabalharmos juntas. Então esse ano a gente combinou de sentarmos e vermos os conteúdos, para trabalharmos mais juntas. Eu sempre trabalho não só com a parte prática, mas eu trabalho também a história do negro, a chegada do negro no Brasil, o porquê do racismo, discriminação eu faço todo enfoque histórico. Acho que eu poderia deixar essa parte para ela (riso), para ela enfatizar. Vê também o que está faltando nós vermos a nível de secretaria, o que é que eles têm. Que conteúdo. Porque esse conteúdo nunca foi repassado pra gente. Até por exemplo o ano passado a gente reuniu pra ver os conteúdos de arte e não tinha nada. (PROFESSORA DE ARTES E PROJETOS).

Diante das revelações das professoras e demais professores, corpo-técnico e direção da escola e, levando-as em consideração, propus o diálogo com os profissionais da educação ali assentados para que desenvolvêssemos coletivamente estudos e aplicação prática do conhecimento apreendido sobre as histórias e culturas africanas e afrodescendentes tendo

como ponto de partida as múltiplas expressões da cultura do próprio Quilombo do Cria-ú e afroamapaense.

Utilizei dois procedimentos de pesquisa: iniciei com a observação participante realizando entrevistas no Cria-ú. Em seguida, com o material analisado, promovi uma pesquisa-intervenção, incluindo a formação da comunidade escolar na perspectiva da valorização da história e cultura local como material didático-pedagógico. Utilizei as festas de Batuques e Marabaixos e cotidiano da comunidade para dialogarmos sobre os sentidos ancestrais presentes na tradição oral afrobrasileira que representa o modus vivendi de nossos ancestrais africanos, afrodescendentes e afroamapaenses.

As festas acontecem no Cria-ú praticamente ao longo de todos os meses do ano, detalhadas no terceiro capítulo desta tese, com o objetivo da comunidade manter a tradição que herdou de seus antepassados e celebrar alguns santos e santas da religiosidade católica com muita fé, devoção e distribuição de bastante comida e bebida, seguindo a tradição do

“Catolicismo de Preto” (CUNHA JR. 2001). Nessa tradição a festa é uma comemoração

pública, dedicada aos santos, orixás e entidades espirituais que é realizada com danças, tambores e simbologias que materializam os rituais religiosos presentes na cultura afrobrasileira que representam o modus vivendi da população negra.

Portanto, a festa dentro do Quilombo do Cria-ú não é somente a reunião de pessoas para celebrarem seus santos e entidades espirituais. Trata-se de uma forma de pensamento e prática social que serve para reafirmar a ancestralidade negra como estratégia de sobrevivência e manutenção de sua cultura.

A festa é uma prática social que reflete não somente as crenças, mas também a trama de relações cotidianas no Quilombo-hierarquias familiares, comerciais, afetivas e outras. Como ponto de encontro e espaço de lazer, a festa congrega os membros da comunidade e também um número cada vez maior de visitantes (PINTO, 2007,p.16)

Segundo a autora Inaicyra Falcão dos Santos (1996):

O africano através da música, do canto, da pantomima capta o sobrenatural, é a própria vida, com seus ritmos e ciclos, vida expressa em termos dramáticos. Assim, todos os importantes acontecimentos na comunidade são acompanhados pela dança e música acentuando seu significado.

A festa afro, que congrega vários elementos das africanidades dentro do Cria-ú, representa parte relevante do continuum cultural da comunidade. A denomino festa e ou

dança afro por ser constituída de Marabaixo e Batuque, e por incorporar ao patrimônio de danças afrodescendentes, os modos de vida, filosofia, misticismo, religiões e maneiras de reverenciar seus deuses e santos negros e não negros, mas de devoção da população negra, como importante legado afrodescendente materializado na cultura afrobrasileira. As festas realizadas dentro do Quilombo do Cria-ú foram umas das possibilidades exemplificadas que analisei como recurso didático-pedagógico na escola do Quilombo.

Ressaltei a relevância de cada pessoa dentro do processo de formação e da pesquisa-intervenção e que apesar da função que hora eu exercia, não elevava-me a condição de “dona da verdade” e única sabedora sobre o campo complexo de conhecimento que alicerçava a pesquisa. Disse-lhes que todos (as) possuem algum conhecimento, mesmo incipiente, sobre a cultura local que precisavam rememorar e utilizar em seus planejamentos e potencialiá-lo como conteúdo escolar. A socialização desses conhecimentos no grupo, dúvidas, verificações, estratégias adotadas, metodologias, dentre outros, teríamos a oportunidade de ampliá-los e repensarmos o fazer - pedagógico coletivo dos professores, direção e corpo técnico da escola.

Enfatizei também que não cabia a mim julgar e sentenciar nenhum profissional pela maneira que estavam desenvolvendo sua prática escolar e porque não trabalhavam a cultura do Cria-ú em seus conteúdos didático - pedagógicos. O objetivo primeiro era a partir do que já estava sendo trabalhado, por poucos professores sobre a cultura do Cria-ú, expandirmos para a totalidade da comunidade escolar, sempre dando destaque a cultura do Quilombo do Cria-ú dentro do processo de formação dos (as) educandos (as).

A comunidade escolar foi o tempo todo estimulada a olhar e perceber o Quilombo do Cria-ú em toda a sua multiplicidade. Ver o Quilombo como ele é e se apresenta diante das pessoas. E a pensar como o conjunto amplo de conhecimentos que ele possui poderia ser trabalhado metodologicamente, ou seja, valorizado no universo escolar e de que maneira esses conhecimentos poderiam ser desdobrados na formação cognitiva, humana, de valores, princípios e espiritualidade dos (as) educandos (as) em sala de aula. A estratégia metodológica adotada para a coleta de informações na pesquisa, baseada na afrodescendência, favoreceu-nos no desenvolvimento desta pesquisa-intervenção.