6.3 Mulige nye datakilder, spesielt fjernmåling
6.3.1 Fjernmåling som grunnlag for hovedøkosystemkart
A partir da segunda metade do século XX houve uma significativa alteração paradigmática. Não se pode afirmar de modo exato quando se deu a mudança que consistiu no enfraquecimento completo da noção de caráter nacional e o início de uma nova fase no pensamento brasileiro sobre a questão e o desenvolvimento nacional. Leite pontua que esse foi “um processo lento de afirmação de novas tendências, onde o fato mais significativo é talvez a nova posição aceita pela elite intelectual”132. Isto é, um marco de transição é o fato de que na fase considerada ideológica os intelectuais se identificavam com as elites, enquanto que, na nova fase, se eles não se identificam com as classes mais desprotegidas, pelo menos procuram considerar o conjunto da sociedade. A rigor, é possível dizer que após Manoel Bonfim, incluindo pensadores como Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, o Brasil já estaria vivenciando um lento processo de transição.
Chave para esta transição foi a figura de Caio Prado Júnior (1907-1990). Caio foi autor de muitas obras sobre a história brasileira, mas uma delas foi de fundamental importância neste momento de transição: Formação do Brasil contemporâneo. Nesta obra, Caio Prado Júnior procurou verificar os impactos da colonização e do sistema econômico do período colonial na vida do homem brasileiro. É bem verdade que este não era um objeto original de análise. Outros pensadores o fizeram anteriormente. No entanto, a análise de Caio Prado Júnior se diferencia das demais, no sentido de, que para ela, a economia colonial não é vista como mero aditivo da vida nacional, mas como causa determinante das outras características da vida brasileira.133 Enquanto os documentos sobre a população desocupada da colônia comunicavam aos pensadores anteriores decadência e degeneração do homem brasileiro, a Caio revelavam a ausência de oportunidades imposta pelo sistema econômico colonial. Tal mudança é reveladora de uma alteração paradigmática. Neste momento, a questão nacional não é mais explicada por fatores como a raça, o meio, ou características psicológicas, mas pela formação econômica do país. Nesse sentido,
132 LEITE, D. M. O caráter nacional brasileiro, p.310. 133 Ibid., p.315.
“Caio Prado Junior representaria um momento decisivo na superação do pensamento ideológico: as características da colônia não são determinadas por misteriosas forças impostas pelo clima ou trazidas pelas raças formadoras, mas resultam do tipo de colonização imposto pela economia europeia”.134
Monteiro Lobato (1882-1948) é uma típica ilustração desta mudança paradigmática. O primeiro momento literário de Monteiro Lobato reflete o momento ideológico anterior. Ele entendia que o movimento modernista havia romantizado a figura do homem brasileiro, retomando o romantismo do movimento indianista. São suas palavras:
Pobre Jéca Tatú! Como és bonito no romance e feio na realidade. Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca filosofo... Quando comparece ás feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissára, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas; ou artefatos de taquara-póca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador; ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilôesinhos, colheres de pau.135
A figura do homem nacional produzida por Monteiro Lobato neste primeiro momento era consideravelmente depreciativa. Ela o caracterizava como um parasita, preguiçoso, incapaz de produzir, usufruindo apenas do que a terra lhe entregava. Em suas palavras: “Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante.”136 A consequência de tal pensamento, segundo Monteiro Lobato, é que esse tipo de homem era inadaptável à civilização.137
A partir da década de 30, no entanto, Monteiro Lobato inicia uma nova fase de sua explicação do Brasil. Ao que tudo indica, sua estadia nos Estados Unidos como adido comercial do governo brasileiro fora de grande impacto, para que, em sua concepção, as causas do atraso do país deixassem de ser atribuídas às características do homem nacional, e fossem transferidas para as circunstâncias econômicas. Num artigo escrito nesta época, afirma Monteiro Lobato:
134 LEITE, D. M. O caráter nacional brasileiro, p.315-316.
135 LOBATO, M. A velha praga. In: Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1961. (Obras completas, v. 1),
p.281.
136 Ibid., p.282. 137 Cf. Ibid., p.282.
A pobreza, a lentidão do desenvolvimento no Brasil sempre me preocupou vivamente. Refleti comigo durante anos, com a sensação de que as causas apontadas para explicar o fenômeno eram causas secundárias; e que antes de aprendermos a causa primária, a causa das causas, nada poderia ser feito para mudar a situação.138
No mesmo texto, comparando o Brasil e os Estados Unidos, como era comum nesse período, e tendo em mente a questão férrea e petrolífera, afirma:
Enquanto esse milagre se operava ao norte do continente, um país ao sul, de igual extensão territorial e povoado com os mesmos tipos de elementos humanos, europeu, negro e índio, permanecia em profundo estado de dormência. Um pântano com quarenta milhões de rãs coaxantes, uma a botar a culpa na outra do mal-estar que todas sentiam.139
Essas palavras de Monteiro Lobato, contrastadas com suas palavras anteriormente citadas revelam-no como uma ilustração da transição paradigmática sofrida pelo pensamento brasileiro.
Apesar de toda sua a força, manifesta no fim do século XIX e início do século XX, na segunda metade deste último século, o paradigma biológico encontrava-se profundamente enfraquecido, quase saindo de cena. Neste momento, a questão nacional, antes interpretada a partir de características raciais ou psicológicas, passava a ser explicada a partir das circunstancias econômicas. É com este último paradigma, tão vivo e influente nas décadas de 50 e 60, que Mario Vieira de Mello debate em Desenvolvimento e Cultura. Apresenta-lo é o propósito do capítulo seguinte.
138 LOBATO, M. apud LEITE, D. M. O caráter nacional brasileiro, p.312. 139 Ibid., p.312.
2. A QUESTÃO BRASILEIRA E O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO: O