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Nas últimas décadas, os debates em torno da relação educação e trabalho, evoluíram de forma significativa. Diversos pesquisadores têm contribuído para o avanço destas discussões. A competência, neste ínterim, é fator central dos discursos mais atuais. No entanto, há uma tendência em se opor “qualificação” e “competência”. Segundo Zarifian (2003, p. 35), todas as organizações sindicais da atualidade, defendem que é necessário fazer a abordagem da competência, associada à qualificação.

O autor destaca que a mística oposição entre os termos, além de absurda,impõe uma barreira capaz de retardar qualquer negociação em torno das conquistas coletivas. Neste sentido, o fim desse bloqueio representa um progresso considerável. Para reforçar a questão, o Movimento de Empresas Francesas - Medef6 reconheceu a impossibilidade de haver qualquer avanço no campo da competência sem que houvesse uma abertura quanto às garantias no terreno da qualificação.

Após três anos de intensas discussões entre representantes de diversas categorias sociais, definiu-se o que se poderia chamar de conceitos livres do ranço da oposição. É fato, que qualificação e competências negociam o mesmo espaço. Igualmente, no campo conceitual, existe a necessidade de se definir com maior clareza estes termos. Zarifian (2003, p. 35)reforça a existência da relação entre os mesmo,

Chama-se de “qualificação” o que sobressai dos recursos (em conhecimento, habilidades, comportamento...) adquiridos por um indivíduo, seja por formação ou por exercício de diversas atividades profissionais. E de “competência”, a utilização desses recursos na prática. A qualificação é a ‘caixa de ferramentas que o assalariado tem. A competência diz respeito à maneira de utilizar concretamente essa caixa de ferramenta, de empregá-la.

Para o autor, sempre haverá problemas pragmáticos oriundos desta distinção entre competência e qualificação. Principalmente, se for levado em consideração o caráter salarial. Tal distinção poderia implicar num entendimento controverso e tendencioso à seleção de recursos de sua utilização. Isto se for considerada,a compreensão quanto ao nível de importância dos temas.

Mesmo que a competência ainda dispute espaço com a noção de qualificação, a qualificação profissional, como um ato social, emerge no cenário atual. Arruda (2000, p. 25) ressalta o tema “como um elemento importante na composição dos fatores que regem a competitividade dos países, das organizações e dos indivíduos”. De acordo com Zarifian (2003, p. 37), não há necessidade de se fazer qualquer distinção conceitual entre os termos qualificação e competência. A não ser, para reforçar que o modelo da competência simplesmente especifica de outra forma a construção da qualificação. Atualmente, as organizações não buscam apenas a qualificação para o trabalho em si, mas principalmente, para a vida na qual se insere o trabalho (PAIVA, 1995, p. 91-92).

Para aplicação do modelo da competência, adotado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional, Zarifian (2003, p. 161-171) apresenta uma proposta de abordagem em seis etapas:

1. explicitar a estratégia, em termos de assegurar um atendimento de qualidade ao cliente e de otimizar o uso dos recursos;

2. explicitar as grandes escolhas da organização;

3. definir princípios simples, que caracterizem o que se entende por competência; 4. elaborar uma primeira definição das áreas de competência, em termos de

competência técnica (da profissão), competências organizacionais, competências de inovações e relacionadas, orientadas aos clientes (ou ao público);

5. fazer uma análise das situações com os interessados, em termos de situações de base (o domínio básico da profissão), situações ocasionais (que acontecem de maneira imprevista), situações de inovação (permitem desenvolver e explicita a inventividade), situações de balanço (que formalizam os tempos de descanso e a reflexibilidade) e situações formadoras (de orientação das pessoas menos competentes); e

6. validar as áreas de competência e hierarquizar os níveis, em função de quatro critérios: nível de iniciativa, nível de ampliação do campo de responsabilidade, nível de implicação na cooperação e nível de rigor.

O autor apresenta alguns indicativos a partir de cinco situações para generalização do modelo da competência. Ele destaca a situação profissional de base; a situação ocasional; a situação de inovação; a situação de balanço; e a situação formativa em torno de quatro temas. Dessa maneira, destacam-se: a tomada de iniciativa; a tomada de responsabilidade; o poder da cooperação; e a exigência de rigor.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Profissional de Nível Técnico estão alicerçadas no modelo de competências por área profissional. Assim, espera-se do profissional, não somente uma escolaridade básica sólida, mas também, uma Educação Profissional consolidada. Observa-se assim, a necessidade de ampla revisão dos currículos, uma vez que é exigida dos profissionais, maior capacidade de raciocínio, autonomia intelectual, pensamento crítico, iniciativa própria e espírito empreendedor (ZARIFIAN, 2003, p. 27).

Para o autor, um dos elementos importantes para difusão do modelo da competência e, particularmente, para prover o reconhecimento das competências adquiridas e facilitar e mobilidade externa, reside na validação das conquistas profissionais dos indivíduos (ZARIFIAN, 2003, p. 181). Ele reforça que esta é uma resposta direta do modelo àqueles engajados na vida profissional ativa e que desejam obter o seu diploma. Dessa maneira, é necessário que as instituições de EPT consolidem os processos de avaliação e acompanhamento dos egressos.

O novo paradigma que orienta a Educação Profissional, dispensa ao currículo, o papel central no desenvolvimento das competências, com crescente grau de autonomia intelectual e profissional por parte dos alunos. Para tanto, as instituições e seus currículos devem estar adequados e comprometidos, com o perfil profissional de conclusão. Ou seja, este perfil precisa estar claramente descrito e posto como coluna dorsal da organização curricular.