O Sentido
Magicamente se transformam dados materiais em algo que é absoluta- mente distinto de qualquer materialidade: esta nunca explica isso que é o absolutamente próprio do sentido. Tudo se joga em torno da questão do sentido. Mas o sentido é irredutível a algo de diferente. O sentido é a própria presença absoluta. Nada há antes, pois não há antes do sentido; nada há depois, pois nada há depois do sentido. O sentido, é, do ponto de vista do acto de ser humano, – e não há outro –, o próprio Acto. O Acto na sua manifestação. Por isso, não é redutível nem tem oposto ou contraditório possível. A não ser, como já vimos, o nada. Mas, como também já vimos, o nada seria a absoluta impossibilidade e ausência de qualquer sentido. É esta presença do sentido e esta pre- sença como sentido que é maravilhosa, como alguns dos grandes bem
viram e afirmaram. Não a existência de coisas, – aliás, as coisas não existem, os actos de ser humano existem, as coisas têm realidade, lite- ralmente –, mas a irrecusável presença do acto, de algo que insecável e continuamente palpita e palpita como que dentro de mim, que eu sou e me é, que sinto, não como algo de sensível, mas como sentido, sentido que é indistinto, exactamente indistinto do que eu sou. Neste sentido que me ergue, tudo está presente, infinitamente, ou nada nunca teria estado presente, absolutamente. Este é o grande motivo de espanto.
Assim sendo, esta dicotomia sujeito-objecto deixa de poder ser aceite. Não há sujeito. Não há objecto. Há um acto em que emerge o ser como sentido desse mesmo acto, como o ser mesmo desse mesmo acto. Este acto não é nem sujeito nem objecto. Não é nem subjectivo nem objectivo. É absoluto. Não há outra designação possível. Isso que se designa como sujeito (e poderia não se designar, isto é, poderia nunca ter havido qualquer referência a algo como um sujeito) e isso que se refere como objecto mais não são do que duas figuras, de entre infinitas possíveis, e figuras em nada privilegiadas, que emergem com a emergência do sentido. Habitam o sentido. São criações da partici- pação. Não criam ou sequer produzem o que quer que seja. Não há um conhecimento como relação entre sujeito e objecto, mas como acto de relação entre o acto de ser que é cada homem e o acto puro, mas como participação.145 Sujeito e objecto habitam o universo de sentido criado
pela participação:
“La conscience est semblable à l’araignée placé au centre d’une toile qui la met en contact par des fils très sensibles avec tous les points de la périphérie. La connaissance est cette toile que nous cherchons à étendre sur la totalité du temps pour la tisser. Aussi la connaissance, qui nous réunit au Tout, nous donne-t-elle la joie de participer à sa perfection : l’infinité en est inséparable et il n’y a rien qui, en droit,
145C.S., p. 287: “[. . . ] il ne peut rien y avoir pour nous qui soit en dehors de notre
conscience, bien qu’elle ne cesse de s’agrandir et que notre attention ne cesse d’y faire des découvertes nouvelles.” ([..] nada pode haver para nós que esteja fora da nossa consciência, se bem que ela não cesse de aumentar e que a nossa atenção não cesse de aí fazer novas descobertas.).
puisse lui échapper. Il est même impossible d’avoir conscience de soi si l’on cherche à saisir son être isolément : se connaître, c’est s’inscrire dans le Tout, c’est multiplier avec lui des relations qui nous révèlent toutes nous puissances.”146
O acto de ser humano não é sujeito ou objecto. É um acto semân- tico. Na emergência da sua presença, eclodem todos os actos de ser que acompanham o seu acto de ser. Qualquer referência a um qualquer acto de ser não passa por uma qualquer saída do acto de ser humano em causa para um inter-acto qualquer (um inter-acto é o nada), onde se vai buscar dados ou algo de semelhante, para depois sair desse inter- acto e voltar a penetrar no acto de ser humano. Seria como que sair de um acto, em acto obviamente, para passar por algo que fosse como que uma fronteira entre esse acto em acto e algo que não fosse acto, – pois, se fosse, que estatuto teria essa mesma fronteira que os distinguiria: acto, não-acto? –, a fim de encontrar um outro acto em acto em que se buscasse e descobrisse algo que se pudesse captar e transportar de volta ao acto de ser humano, de onde se tinha inicialmente saído.
Este esquema, que assume todos os esquemas sujeito-objecto, é ma- nifestamente inválido. A saída do tal sujeito implicaria a passagem de acto a não-acto. Se assim não fosse, haveria uma continuidade em acto e uma contiguidade entre o acto do suposto sujeito e o resto, resto que seria necessariamente infinito. Segundo este esquema, o único sujeito possível seria apenas o sujeito infinito. Ora o supostamente necessário objecto da relação sujeito-objecto teria de coincidir com esse mesmo sujeito. Absolutamente. Não é possível escapar a esta conclusão.147
146C.S., p. 287 (A consciência é semelhante à aranha posta no centro de uma teia,
que a põe em contacto, por meio de fios muito sensíveis, com todos os pontos da periferia. O conhecimento é esta teia, que procuramos estender sobre a totalidade do tempo, para a tecer. Do mesmo modo, o conhecimento, que nos reúne ao Todo, dá-nos a alegria de participar da sua perfeição: a infinitude é dele inseparável e nada há que, de direito, lhe possa escapar. É mesmo impossível ter consciência de si, se se procurar apreender o seu ser isoladamente: conhecer-se é inscrever-se no Todo, é multiplicar com ele as relações que nos revelam todas as nossas potências.).
147E, neste caso, mais vale ser corajoso e consequente e, como Espinosa, assumir