O coletivo Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial102, diferentemente dos outros coletivos analisados nesta tese, utiliza a plataforma blog para usos pontuais, a partir do registro dos seus projetos artísticos. O primeiro deles — Couve-Flor Tronco e Membros
102 O Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial é um coletivo, com número variável de integrantes, criado por artistas independentes da cidade de Curitiba, que estiveram envolvidos nas atividades da Casa Hoffmann como bolsistas e também organizadores, criadores e curadores do Ciclo de Ações Performáticas. É composto pelos seguintes integrantes: Cristiane Bourger, Elisabete Finger, Gustavo Bitencourt, Michelle Moura, Neto Machado, Cândida Monte, Ricardo Marinelli e Sthepany Mattanó. Disponível em: http://couveflor.wordpress.com/sobre-o-couve-flor/ Acesso em: 4 jan. 2012.
(figura 8) — surgiu em 2006 e inaugura um projeto utilitário com, pelo menos, cinco blogs diferentes103.
Aqui, o interesse central recai na apresentação do blog do Couve-Flor Tronco e Membros enquanto ignição da proposta de “usos pontuais” e nas possíveis relações com os demais blogs-projetos: “O rapaz e a rapariga — peça de pessoa, prego e pelúcia” (figura 21), “O que me move a mover” (figura 10) e “Quase nu” (figura 9) e “As obras dentro da obra”104.
Figura 21: Home do blog do projeto “O rapaz e a rapariga — peça de pessoa, prego e pelúcia”.
Assim, de acordo com Michelle Moura, o primeiro blog surgiu com o projeto Couve- Flor, Tronco e Membros105, objetivando ser um espaço de colaboração, no qual toda informação ficasse registrada e acessível aos componentes do Couve106 que estavam em cidades distintas. Em entrevista feita em 2010, utilizou a metáfora “caderno de anotações”
103 Ver página 44. 104 Idem á nota 43.
105 O projeto Couve-Flor, Tronco e Membros foi idealizado e desenvolvido pelo Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial, com subsídio do prêmio Klauss Vianna de fomento à dança. Caracterizou-se como uma ação coletivizada, na qual todos os integrantes contribuíram igualmente na realização da pesquisa-criação sobre o tema da territorialidade na arte. Disponível em: http://couveflor.wordpress.com/about/. Acesso em: 3 jan. 2012.
para referir-se ao modo de funcionamento da ferramenta, opinião também expressa por Neto Machado e Cândida Monte. Sobre isso, Michelle diz:
Era um projeto que movia todos os couve-flores, mas não éramos todos nós fazendo as mesmas coisas. Então era importante ter um blog, que todo mundo pudesse acompanhar o que estava acontecendo em todas as ações do projeto e, mais do que isso, porque, por exemplo, a gente pode trocar e-
mails, se a gente quer se comunicar simplesmente, assim. Mas o que era importante também era poder ter um lugar onde toda a informação ficasse registrada, como um caderno, como a gente tem um caderno que a gente anota as nossas ideias. Então, a ideia do blog como um caderno de anotações de uma criação, onde a gente pudesse registrar imagens, vídeos, todas essas informações movidas pela internet mesmo, como fotos de processo, era isso nessa época. (Trecho da entrevista com Michelle Moura/E6, em junho de 2010)
Ao comparar o blog com o caderno de anotações, Neto Machado coloca que:
O que o blog tem de melhor que meu caderno é poder ser acessado por todas as pessoas ao mesmo tempo em qualquer lugar. Tanto por mim como por outras. Se eu viajo e esqueço meu caderno, eu acesso o blog. Você reedita, põe foto, coloca vídeos que você gravou, põe o vídeo que você usou como referência... (Trecho da entrevista com Neto Machado/E7, em junho de 2010)
Mas Cândida vai além e defende a ideia de que no próprio ato de registrar reside uma possibilidade de criação de subjetividade. É o que ela chama de “poética” — uma possibilidade de criação a partir dos recursos que a ferramenta oferece. Tal argumento é formulado com o intuito de apontar a utilidade do blog, também, como um processo criativo, pois como ela mesma explica:
[...] o blog lhe dá mais possibilidade, no caderno você não pode postar um vídeo. É um processo criativo. É um lugar que você também está produzindo, também está trabalhando, criando não dentro de um estúdio, não como um texto... entende? É outra maneira de você refletir também, criar também o que você está criando, em cima do que você está trabalhando... pelas inúmeras possibilidades que eu tenho de imagem, com a tecnologia que eu tenho hoje na internet. (Trecho da entrevista com Cândida Monte/E8, em junho de 2010)
Entretanto, essa não é uma opinião unânime do coletivo. Michele Moura, por exemplo, discorda ao pontuar que esse fetiche aos poucos foi se desmontando, com o desenvolvimento do projeto. Para ela, o blog serviu como um canteiro onde as ideias foram cultivadas, e não necessariamente como o lugar da criação, pois
a gente só pôde dizer que estava trabalhando mesmo quando estávamos juntas. Stéphany foi até ao Rio de Janeiro trabalhar comigo. Eu acho que criação é um lugar muito complexo, que tem várias camadas e acho que, não acho assim que o blog resolva alguma coisa. Para mim, criação é um trabalho artesanal, vai lá com o corpo. Com algo que você dar a ver, que você experimenta. (Trecho da entrevista com Michele Moura/E6, em junho de 2010)
O que parece importante realçar é o modo como esses entendimentos acerca da funcionalidade da ferramenta traçaram um formato-padrão presente nos blogs-projetos do coletivo. De maneira geral, todos apresentam três frentes de ação que se sobrepõem: 1) registro virtual do projeto107, 2) divulgação e compartilhamento dos processos artísticos108 e 3) ferramenta de trabalho109. Todavia, é diferencial o modo como o primeiro blog do Couve se
estrutura e se apresenta, com ênfase no registro detalhado do passo a passo da execução do projeto. Um bom exemplo disso é a coluna de links no lado esquerdo do blog (figura 22) com os itens: “atas”, “burocracia”, “em que pé andam os ensaios”, “resposta ao e-mail do Gus... processo meninos”, entre outros.
Figura 22: Home do blog Couve-Flor Tronco e Membros e coluna de links no lado esquerdo da
página. [Extraída de: http://couveflor.wordpress.com/]
107 E-mail escrito por Stéphany Mattanó em 26/10/2006. Disponível em: http://couveflor.wordpress.com/. Acesso em: 7 jan. 2012.
108 Post “1ª abertura de estúdio em 24/3/2008”. Disponível em: http://www.nudezmentiracumplicidade.blogspot.com/. Acesso em: 7 jan. 2012.
109Post “Primeiro esboço sobre o meu (inha) personagem”. Disponível em: http://orapazearapariga.blogspot.com/. Acesso em: 7 jan. 2012.
Nota-se que em todos os blogs-projetos existe uma fusão entre os gêneros — blog
grupal autorreflexivo, blog grupal informativo-interno, blog grupal informativo e blog grupal reflexivo, de acordo com a tipologia de blog apresentada por Alex Primo (2008a). Porém, essa categorização mais ampliada não impede de apontar um ou outro gênero mais sublinhado no decorrer da escrita do blog. Há, assim, por exemplo, uma ênfase dos gêneros grupal informativo-interno e grupal reflexivo no blog-projeto “O rapaz e a rapariga — peça de pessoa, prego e pelúcia”, como se pode ver na colocação de Neto Machado.
Agora a gente fez o Projeto do Rapaz e a Rapariga, por exemplo. Escrever sobre meu trabalho para que ele possa ser compartilhado, para que ele possa se comunicar com os outros, para que eu possa registrar... eu estou trabalhando. Por isso eu falo que ele é ferramenta de trabalho também. Para eu cumprir esses tópicos que são necessários para mim, eu preciso trabalhar: escrever sobre o que estou fazendo, pensar sobre o que estou fazendo e isso me faz trabalhar. (Trecho da entrevista com Neto Machado/E7, em junho de 2010 — grifo nosso)
Partindo desse entendimento do blog como ferramenta de trabalho, volta-se ao que parece ser o traço diferencial do Couve-Flor : o uso pontual do blog para a execução de projetos específicos. Uma funcionalidade não habitual aos demais blogs desta tese. Certa aproximação ocorre apenas com o blog do Dimenti, na medida em que este surge vinculado ao Projeto Dimenti Plano Piloto.
Curiosamente, a dinâmica adotada pelo Couve privilegia a coexistência de vários
blogs-projetos no espaço virtual, em vez do uso de um único blog como espaço agregador das ações do coletivo. O mais inusitado dessa escolha é que os blogs em desuso permanecem disponíveis na rede, tal como um HD virtual, mesmo após o término do projeto.
[...] eu acho que o blog para o projeto, para mim, funciona muito como um HD, essa ideia para mim é muito clara. Ele é pontual nesse sentido. Ele funciona para mim agora. Se eu vou voltar a trabalhar com o Rapaz e a Rapariga, eu volto no blog, releio o blog. [...] Como se fosse um registro. Só que a ideia de registro para a gente não é só histórico-arquivo, é uma coisa viva, que você volta, refaz, reedita. [...] Eu acho legal essa ideia. Porque agora a gente apresentou, aqui no festival, o Rapaz e a rapariga e o
Infiltrações. Antes de vir para cá, eu li o blog dos dois. Eu peguei os textos postados em Infiltrações e falei: esses textos, daquela vez, a gente leu para isso e, talvez para residência, sirva. (Trechos de entrevista com Neto Machado/E7, em junho de 2010)
E prossegue:
[...] por isso que para gente é fácil, é mais fácil, a gente fazer blogs por projeto. Nenhum de nós tem um blog, tipo o blog da Cândida, o blog do
Neto... Porque isso a gente faz por e-mail, faz por Skype. Eu converso com a Michele por Skype... Como ela está organizando as coisas dela lá, o que ela está fazendo... Mas para falar do projeto Rapaz e Rapariga, eu posso conversar com ela pelo Skype, mas depois pela conversa do Skype, a gente vai dizer: eu posso postar isso no blog, para garantir o que a gente faz. (Trechos da entrevista com Neto Machado/E7, em junho de 2010)
Aqui, é imperativo pensar na tensão existente entre o proponente da ação e a representação midiática. A pergunta a fazer é: a quem se referenciam os blogs-projetos? São representações espectrais110 do Couve? Ou recortes individuais de um coletivo? O fato é que a
recusa por blogs pessoais, como explicita Neto Machado na colocação acima, não ajuda a minimizar a tensão percebida, pelo contrário, reforça mais ainda, na medida em que o blog- projeto destaca uma “proposta artística individual”111, em colaboração com outros artistas.
Finalmente, parece que, pouco a pouco, os modos de existir no espaço virtual, para o coletivo Couve-Flor, foi ganhando outros formatos e significados. Após os blogs-projetos, houve a tentativa, sem êxito, de agregar as informações em um site112 (figura 23), seguida da criação de um perfil na rede social Facebook. Essa reconfiguração, nesse contexto, aponta apenas para uma migração de suporte, sem a possibilidade de convergência entre as mídias. Afinal, os blogs, ainda que ativos, encontram-se em desuso, e o site está em reformulação, restando apenas o perfil na rede social, que cumpre efetivamente as demandas atuais do grupo.
110 O termo espectral é cunhado por Jacques Derrida e utilizado por Slavoj Zizek (1996) para referir-se a fugidia pseudo-materialidade. Com relação ao contexto do Couve-Flor emprega-se no sentido de relacionar o blog como uma representação ficcional do coletivo.
111 “No Couve-Flor, as propostas artísticas são individuais: cada artista desenvolve suas pesquisas, em que os demais (ou pessoas de fora da minicomunidade) se envolvem de acordo com os interesses e necessidades, criando configurações estruturais móveis e hierárquicas momentâneas — segundo a demanda de cada projeto”.
Disponível em:
http://www.wikidanca.net/wiki/index.php/Minicomunidade_art%C3%ADstica_mundial_Couve-Flor. Acesso em: 5 fev. 2012.
Figura 23: Home do site do coletivo Couve-Flor. [Extraída de: http://www.couve-flor.org/]
Pois bem, no que se refere ao perfil na rede social Facebook (figura 24), este parece ser uma solução para a ausência de representação ativa do Couve-Flor na internet. Nele se encontram não apenas a agenda do grupo, mas também convocatórias para as proposições artísticas, mensagens entre os “couves”113 e parceiros externos, fotos, vídeos, newsletter, entrevistas, matérias de jornais etc. Não à toa, foi escolhido, recentemente, em dezembro de 2011, como o canal de comunicação para o anúncio do fim do coletivo ao final deste ano , com a conclusão das atividades do projeto “Couve-Flor Manutenção Coletiva”, patrocinado pela Petrobras.
Figura 24: Página do perfil do Couve-Flor na rede social Facebook e carta postada por Cândida
Monte sobre sua versão do fim do coletivo. [Extraída de: https://www.facebook.com/couveflorminicomunidade]
O formato do anúncio foi feito via publicação de sete cartas, nas quais cada um dos integrantes do coletivo compartilhava sua versão do fim (figura 24). O tom das cartas abriga um consenso na escolha da separação, um fim como ponto de seguimento para trilhas individuais. Segue abaixo um trecho da carta114 escrita postada por Cristiane Bourger:
Penso que oficializar o fim do Couve-Flor com uma carta (ou sete) é apenas uma maneira de dizer aos amigos, colaboradores e instituições que nos acompanharam nestes anos de intensa existência, que o que morre é o nome e a constância das nossas colaborações. A influência que propagamos uns entre os outros nos acompanhará. Em nossas diferenças encontramos o que nos aproximava. Agora, o que temos encontrado não cabe mais na estrutura e nas relações que criamos. Crescemos para além do coletivo e precisamos respirar para além dele. Seguimos como artistas independentes.
Teremos um ano para celebrar a morte do coletivo, realizando os projetos já programados para 2012. Será um ano de festividades e de passagem. Temos — todos os sete — a certeza de que este fim é necessário. Como o Gustavo disse em sua carta, nestes anos de parceria, talvez esta tenha sido a única decisão unânime do Couve-Flor. Brindemos então, sem apego, ao que se transforma em cada um de nós.
Com Amor, Cristiane Bouger
114 Disponível em: https://www.facebook.com/notes/cristiane-bouger/o-fim-do-couve-flor-segundo-cristiane- bouger/10150559898281424.