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É possível que o crescente mal-estar na corte de Fernando VII tenha levado Goya a comprar a casa de campo, nas margens do Rio Manzanares, que adquiriu em fevereiro de 1819. A casa com 25 acres, cercada de árvores, foi apelidada de La

Quinta del Sordo. Quando se mudou para a Quinta, Goya estava com 73 anos e

Josefa havia morrido há sete anos. Fez-se acompanhar por Leocádia Zorrilla Weiss, que se tornou sua última companheira, junto com os dois filhos dela: Guillermo e Maria do Rosário.

De acordo com Hughes (2004), análises dos painéis feitas com raios X revelaram que, originalmente, Goya havia planejado uma série de pinturas-murais com cenas pastoris que, de modo algum, assemelhavam-se às imagens pessimistas e escuras que pintou. Portanto, para compreendermos melhor a série de pinturas que faria nas paredes da sua Quinta, As Pinturas Negras, é preciso esclarecer os eventos que ocorreram nesse período.

No final de 1819, Goya adoeceu, mais uma vez, gravemente. Em 1820, um golpe militar depôs Fernando VII e recuperou os direitos civis estabelecidos pela Constituição de 1812. Esse governo durou apenas três anos, sendo, novamente, derrubado por Fernando VII, em 1823, com auxílio de tropas estrangeiras. Ao

recuperar o poder, Fernando VII voltou mais cruel e vingativo do que nunca, revogando os direitos civis e, literalmente, massacrando os liberais.

Figura 15 – La Quinta del Sordo, bico de pena Saint-Elme Gautier.

Fonte: Gassier e Wilson, The Life and Complete Work of Goya, p. 313

A Quinta del Surdo não foi capaz de fornecer a Goya a paz que ele, aos 77 anos, almejava, ao contrário, foi mais um período de incertezas e medo que foram registrados nas sombrias pinturas realizadas nas paredes. As Pinturas Negras formavam um grupo de 14 pinturas, feitas a óleo, diretamente sobre as paredes da sala de jantar e do escritório de Goya. Os quadros não se destinavam ao olhar do público e foram criados com a máxima liberdade, dando vazão a um espaço imaginário assombroso. Para Gassier e Wilson (1981), as imagens representariam as visões e os fantasmas de Goya.

Quando Fernando VII voltou ao poder, Goya percebeu que o país não se libertaria do absolutismo tão cedo e tomou providências para se proteger e proteger seu patrimônio. Transferiu a Quinta del Surdo para seu neto, Mariano, e providenciou a ida de sua companheira Leocádia e dos filhos para Bordéus. Durante

três meses, permaneceu escondido na casa do cônego Don José Duaso y Latre. Seus amigos já estavam no exílio há algum tempo, mas Goya hesitava, pois não queria deixar seu país, seus privilégios e seu patrimônio. Com a sagacidade que lhe era costumeira, conseguiu uma licença médica para cuidar da sua saúde em Plombiéres, na França, onde havia uma estação termal, conservando o título de pintor da corte e a pensão anual.

Goya chegou a Bordéus com 79 anos e, após uma semana de descanso, partiu para Paris para ver o Salão de 1824. De volta a Bordéus, reuniu-se com a família de Leocádia e fixou residência. Renovou sua licença de saúde mais duas vezes, sem nunca ter ido de fato a Plombiéres. Em Bordéus, cercado de amigos e da família de Leocádia, entregou-se novamente ao trabalho. Retratou os amigos, fez inúmeros desenhos, e descobriu a litogravura, produzindo novas séries de gravuras:

Os Touros de Bordéus, O Amor, O Ciúme, A Canção Andaluza, que revelavam total

domínio da técnica.

Em março de 1828, Goya emocionou-se com a notícia da vinda do filho Javier e caiu no ateliê, adoecendo gravemente. Morreu na noite de 14 para 15 de março, quinze dias antes de completar 82 anos, tendo trabalhado, praticamente, até o fim de seus dias.

Quem melhor sintetiza a arte de Goya é seu biógrafo Chabrun (1974, p. 230): “[...] pode considerar-se o primeiro dos pintores a ter defendido e provado que a pintura podia e devia ser, simultaneamente, estado de sensação, estado de consciência e estado de alma”.

4. LOS CAPRICHOS

O artista, ao submergir em sua experiência psíquica individual, permite também uma reflexão sobre os complexos culturais e os fenômenos coletivos do momento (Wahba, 2008, p. 47).

Los Caprichos é uma série de 80 gravuras criadas e publicadas por

Francisco Goya, em 1799, quando este contava com 53 anos, que aborda de forma caricata e satírica os costumes e vícios da sociedade, do clero e da aristocracia espanhola. Do ponto de vista estético, são tecnicamente inovadoras, combinando magistralmente água-forte, água-tinta e buril. Do ponto de vista formal, Los

Caprichos inova ao mostrar uma percepção de mundo ambígua, que contempla os

aspectos irracionais e sombrios como realidades inescapáveis do homem.

Segundo Hughes (2007), Licht (2001), Chabrun (1974) e Helman (1963), Los

Caprichos resultou do amadurecimento pessoal e artístico de Goya e tudo indica que

esse amadurecimento foi uma decorrência do sério adoecimento que o acometeu em 1793, uma doença gravíssima, de natureza nunca esclarecida, que o confrontou com a possibilidade iminente da morte ou incapacitação permanente. Goya recuperou-se com uma única sequela física, a surdez, mas pensamos que foi profundamente transformado do ponto de vista psíquico.

Quando Goya colocou à venda Los Caprichos, as gravuras relacionadas à sátira social e política já eram bastante populares em diversos países europeus, embora fossem consideradas menos importantes no contexto artístico espanhol. Com sua produção gráfica, Goya escreveu seu nome entre os mais importantes gravuristas de todos os tempos, embora a superioridade artística de Los Caprichos tenha sido reconhecida, primeiramente, na França e só posteriormente na Espanha.

A criação de Los Caprichos parece ter derivado, portanto, de uma necessidade interna do artista de expressar sua percepção de um mundo que passava por uma profunda transformação. As gravuras foram criadas em um momento particular da vida do artista e da história espanhola, de grandes

instabilidades políticas e sociais, o que explica que tenham sido precocemente retiradas de circulação. As gravuras atacavam instituições poderosas, como a aristocracia e o clero e, se no momento em que foram elaboradas sopravam ventos liberais, logo em seguida, as forças conservadoras da aristocracia e do clero contra- atacaram, cerceando as liberdades. O espectro da Inquisição rondava a sociedade, sobretudo na forma de censura às produções literárias e artísticas e aos ideais liberais.