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Em seu texto de 1965, “O conceito de trauma em relação ao desenvolvimento do indivíduo dentro da família”, Winnicott apresenta uma classificação geral dos traumas em consonância com sua teoria do amadurecimento. Divide-os em cinco tipos relativos às distintas etapas do amadurecimento:
A. Trauma que motiva o colapso da confiabilidade em relação ao meio ambiente, relativo ao estágio da dependência absoluta e que tem como resultado o fracasso no estabelecimento da estrutura da personalidade.
B. Trauma relativo ao fracasso da desadaptação gradual do ambiente no estágio da dependência relativa, que acarreta a impossibilidade do indivíduo ir se constituindo como uma unidade, gradativamente separada do ambiente.
C. Trauma relativo a uma quebra abrupta do cuidado ambiental que vinha se estabelecendo bem, inclusive ao ponto de o bebê já ter alcançado a separação do ambiente. Por esta condição, ele consegue reconhecer a falha como sendo do ambiente, e, desta forma, ele passa a cobrar do ambiente o prejuízo que lhe foi causado. Neste caso, há uma quebra da fé, problemática específica do distúrbio descrito por Winnicott como tendência anti-social.
D. Trauma relativo ao momento do amadurecimento em que a personalidade está suficientemente integrada, em que já existe uma pessoa total que se relaciona com pessoas totais e com sua vida instintiva. Neste tipo de trauma a criança será muito ferida, porque ela inclusive já tem capacidade de abarcar a experiência do sofrimento, o que é radicalmente distinto do caráter de trauma que gera aniquilamento. Este é um tipo de trauma relativo às neuroses.
E. Por último, Winnicott refere-se ao trauma relativo à destruição da pureza da experiência individual, em função de uma demasiada intrusão ambiental súbita e imprevisível, gerando ódio no indivíduo, que não é experienciado como tal, mas delirantemente, como sendo odiado. Dias (1998), reconhecendo o fato de este não ter sido um ponto suficientemente esclarecido pelo autor, lança uma hipótese de compreensão ao considerar como sendo um tipo especializado do trauma descrito anteriormente relativo às neuroses. Segundo a autora, a capacidade de odiar só pode ser suposta num momento posterior ao estágio do concernimento, de tal forma que poder-se-ia pensar num problema de confiabilidade numa etapa mais adiantada do amadurecimento, relativo, neste caso, às personalidades esquizóides.
Para fins deste trabalho, interessa-nos os dois primeiros sentidos de trauma descritos, uma vez que são estes que têm o caráter de uma agonia impensável e que, portanto,
estabelecem o campo para o desenvolvimento das psicoses. Por intermédio deles já se pode apreender algumas diferenças fundamentais da concepção winnicottiana de trauma em relação à psicanálise tradicional.
Segundo Dias (1998), o trauma no sentido freudiano via de regra é referido a choques endógenos, resultantes de intensidades desequilibradas de forças pulsionais. Desta forma, tem como pressuposto a idéia de que o trauma incide sobre algo inteiro (organismo ou estrutura) que se quebra sob seu impacto, e o trauma é sempre concebido como um evento positivo, capaz de ser observado e descrito.
Winnicott (1989d) descreve da seguinte forma a natureza do trauma:
A idéia de trauma envolve uma consideração de fatores externos; em outras palavras, é pertinente à dependência. O trauma é um fracasso relativo à dependência. (Winnicott, 1989d, p. 113)
Nestes termos, a noção de trauma assume necessariamente uma incidência sobre uma relação e não sobre uma entidade integrada. O evento traumático não possui intensidade ou é demasiado por si próprio. Aquilo que é considerado demasiado numa intrusão ambiental depende da capacidade atual do bebê de tolerar, ou dito de outra maneira, depende do estágio do amadurecimento que se encontra e de suas necessidades relativas a ele. Mais do que isto, nos estágios iniciais do amadurecimento, que se constituem como de importância maior para este trabalho, a relação possível não é da ordem dos relacionamentos interpessoais. Sua natureza inclui fundamentalmente a experiência do bebê de criar o mundo, sem ainda ter delimitadas as fronteiras entre o si-mesmo e o mundo externo. Neste sentido, a noção de trauma assume características de “nada acontecendo quando algo poderia proveitosamente ter ocorrido” (Winnicott, 1974, p. 75), ou seja, de algo que não pode ser abarcado pela área de onipotência e que por isto não pode ser experienciado. Tal concepção é radicalmente distinta do trauma tradicionalmente concebido como evento positivo, observável e descritível.
Para compreender a natureza do trauma em Winnicott é preciso apreender seu caráter temporal. A temporalidade é o fundamento da existência humana em Winnicott, sobre o qual se assenta a continuidade de ser na direção da integração, já que se estabelece um ambiente previsível que, por isto, seja confiável. O trauma provoca a interrupção desta continuidade, justamente porque contém elementos extemporâneos (Dias, 1998), que se relacionam à imprevisibilidade do ambiente.
No artigo “O medo do colapso”, de 1963, Winnicott apresenta a tese de que a experiência traumática ocorrida nos estágios iniciais do amadurecimento não pode ser vivida como tal. A experiência é traumática exatamente porque está fora da área de onipotência do bebê, único modo de acesso neste momento a uma experiência real, e, deste modo, o que ela produz é uma interrupção do viver. Com isso, o evento não pode ser temporalizado, não pode cair no passado porque não existe ali um ego capaz de integrá-lo dentro de uma experiência pessoal de tempo, que depende da experiência de ilusão de onipotência. Assim, afirma Winnicott:
O intuito deste artigo é chamar a atenção para a possibilidade de que o colapso já tenha acontecido. O paciente precisa “lembrar” isto, mas não é possível lembrar algo que ainda não aconteceu, e esta coisa do passado não aconteceu ainda, porque o paciente não estava lá para que ela lhe acontecesse. (Winnicott, 1974, p. 74)
Um exemplo que ilustra esta questão vem de um paciente atendido no contexto de um Centro de Atenção Psicossocial. Ele tinha uma grande dificuldade em repousar, que se apresentava por meio de insônia intensa, agitação, recusa de qualquer tipo de ajuda, e no curioso comportamento de testar meticulosamente qualquer cadeira antes de se sentar. Embora não tivéssemos acesso à história detalhada de sua primeira infância, em função de suas condições atuais de vida, havia elementos suficientes da condução do caso para supor que ele havia passado pela experiência traumática de não sentir-se sustentado e de ter quebrada a confiabilidade no ambiente num estágio muito inicial. Poderíamos nos perguntar por qual motivo, depois de ter se sentado em inúmeras cadeiras que não despencaram, ele ainda continua sentindo necessidade de testá-las. O fato é que tal experiência traumática não pode ser temporalizada e sua necessidade continua sendo atual. Ele precisa e busca um ambiente confiável.
Este exemplo ajuda a esclarecer o efeito de uma agonia impensável sobre o processo de amadurecimento, a que Winnicott (1955d) se refere como congelamento da situação da falha ambiental. Constitui-se numa parada no tempo no que tange à continuidade dos processos integrativos, com intuito de defender-se de novas possíveis falhas. Este ponto será examinado com profundidade mais adiante neste capítulo, assim como a concepção de que há um bom grau de saúde envolvido nesta estratégia defensiva, já que traz consigo uma esperança inconsciente de que haverá uma nova experiência na qual a situação da falha poderá ser
descongelada e revivida. Esta concepção coloca em debate a idéia da psicose como uma doença.
É importante salientar que, a partir destas formulações, Winnicott concebe um inconsciente que não é da ordem do reprimido da neurose. O inconsciente relativo à (não-) experiência da agonia impensável não é algo a ser revivido ou recordado, é, como dissemos, da ordem do não-acontecido:
Neste contexto especial, o inconsciente quer dizer que a integração do ego não é capaz de abranger algo. O ego é imaturo demais para reunir todos os fenômenos dentro da área de onipotência pessoal. (Winnicott, 1974, p.73)
Tendo exposto os elementos fundamentais que compõem a natureza do trauma em Winnicott, estamos em condições de apresentar a classificação das agonias impensáveis, tal qual o autor propõe. Para tanto, tomamos como base o texto de Dias (1998), que traz uma sistematização destes aspectos e que, de maneira geral, foram tratados por Winnicott com referências ao longo de toda a sua obra. As agonias impensáveis podem ser assim classificadas:
A. Retorno a um estado de não-integração
Havendo um colapso da confiabilidade, o bebê teme que o estado de não-integração seja irremissível. A tendência à integração perde seu sentido de continuidade.
B. Cair para sempre
Agonia relativa à falha do segurar, que é o protótipo do cuidado ambiental no estágio da dependência absoluta. Ao nascer, o bebê encontra-se pela primeira vez submetido aos efeitos da gravidade, e isto pode ser extremamente aflitivo se não houver alguém que possa segurar- lhe de modo firme e consistente. Note-se que há um fator temporal envolvido, que se refere ao fato de que, sem este chão ou esta base que é fornecida pelo segurar, não há continuidade possível, de modo que o bebê se vê lançado para fora de um tempo e de um espaço sem os quais se torna impossível experimentar a realidade das coisas.
C. Perda da residência no corpo: cisão psicossomática
Winnicott utilizou a palavra personalização para se referir à capacidade do bebê de juntar psique e soma, como um contraponto ao fenômeno da despersonalização utilizado com freqüência pela psiquiatria, que se refere a um sentimento de irrealidade, estranhamento com relação ao próprio corpo e sensação de que ele não diz respeito à própria pessoa.
Esta problemática está relacionada com falhas maternas especialmente no que concerne ao manejo e tem como conseqüência a incapacidade de integrar impulsos instintuais ao ego. Neste caso, aspectos do funcionamento corporal, não sendo elaborados imaginativamente, permanecem como externos ao si-mesmo.
D. Perda do sentido de real
Refere-se a uma perda muito inicial do sentido de realidade, tanto no que concerne ao si-mesmo, quanto aos objetos subjetivos. Relaciona-se ao ambiente que apresenta o mundo de maneira caótica e que, por isto, não contribui para que o bebê estabeleça um sentido de previsibilidade e de ‘acreditar em...’
E. Perda da capacidade para relacionar-se com objetos
Este ponto inclui tanto a capacidade de relacionar-se mais inicial da primeira mamada teórica, que se relaciona ao item anterior, quanto aquela relativa ao estágio da transicionalidade, que pressupõe a aquisição de um certo grau de sentido de externalidade e de separação da mãe. Neste momento a mãe falha se não falhar. É preciso que ela introduza algum distanciamento, inclusive para que seja possível a experiência de criação própria a este estágio. Por outro lado, o distanciamento muito prolongado pode fazer esmaecer o sentimento de presença da mãe e o objeto transicional perde seu sentido.
F. O completo isolamento devido à ausência de qualquer forma de comunicação
Neste caso, em função de uma total descrença na possibilidade de uma relação pessoal, o indivíduo teme chegar a um estado de isolamento total, onde não há encontro ou comunicação possível, tampouco, um gesto ou esperança.
Outro critério de classificação aparece no texto de 1967 “O conceito de regressão clínica comparado ao de organização defensiva” da seguinte forma:
A. Nenhuma integração conservada: desintegração B. Alguma integração conservada:
cair para sempre
espalhar-se em todas as direções
perder a residência no corpo: cisão psicossomática ausência de orientação
perda da relação direta com objetos
Neste texto, Winnicott refere-se ao critério que utiliza para classificação como o critério “em termos da quantidade de integração que sobrevive à catástrofe” (Winnicott, 1968c, p. 155). Dias (1998), tendo em vista o fato da classificação ser pensada segundo o estágio de amadurecimento que ocorre, propõe que este critério também seja descrito em termos do grau e da qualidade da integração que havia na ocasião da situação traumática.
Nesta classificação, conforme aponta Dias (1998), Winnicott acrescentou duas formas de agonias impensáveis: ausência de orientação e espalhar-se em todas as direções, que segundo a autora podem ser vistas como uma repetição, em outros termos, da agonia de perder a coesão psicossomática.
Outro ponto examinado por Dias (1998) é o fato de Winnicott acrescentar um terceiro tipo de agonia, onde a integração é conservada e o meio se apresenta imprevisível. Este parece ser correspondente ao quinto significado que aparece na classificação geral dos traumas, e que se refere às personalidades esquizóides.
Entretanto, para caracterizar as psicoses não é suficiente, segundo Winnicott, apresentá- la em termos de agonias impensáveis. Uma vez que são impensáveis, sempre estão subjacentes a uma organização defensiva, que é como se apresenta clinicamente a psicose (Winnicott, 1974). Este tema será desenvolvido a seguir.