O trabalho de investigação proposto à tese tem por objetivo inicial à busca de uma argamassa de reabilitação a ser aplicada nos edifícios patrimoniais da cidade de Pelotas, tendo em vista o grande conjunto edificado na cidade no período compreendido entre início do século XIX até meados do século XX. Portanto, a eleição de um conjunto arquitetônico pertencente ao patrimônio catalogado, bem como o conhecimento das anomalias instaladas e suas prováveis causas, os processos construtivos e quantitativos, bem como os materiais à época utilizados, são fundamentais às metodologias e aos objetivos da tese; pois, procurar-se-á utilizar materiais e dosagens similares às originalmente empregues nas construções, processo obrigatório à recuperação de edifícios tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Portanto, para tal, faz-se necessário a eleição de um conjunto de prédios considerados pelo patrimônio, tanto no nível federal, estadual ou municipal, para que se possa avaliá-los e definir aquele com que apresente melhores condições e possa ser utilizado, com as devidas autorizações, ao estudo pretendido. Assim, devido ao período construtivo em que o conjunto foi edificado, aos processos e aos materiais utilizados, mesmo com a eleição de um exemplar único, as soluções e as conclusões obtidas na tese poderão ser aplicadas à quase totalidade do conjunto histórico edificado.
Dentro do levantamento realizado nos edifícios da cidade, foram selecionados numa primeira fase, como elementos de estudo, parte do conjunto arquitetônico de construções ecléticas; localizado no entorno da Praça Coronel Pedro Osório, situado entre as ruas Lobo da Costa e Barão do Butuí, conjunto este constituído pelos casarões com os números 2, 6 e 8 da praça em questão, respectivamente o chamado Casarão 2, construído para o charqueador José Vieira Viana no início do século XIX e reformada em 1880 (Figura 4.1); o chamado Casarão 6, que foi construído em 1879, para o segundo Barão de São Luís, Leopoldo Antunes Maciel (Figura 4.2) e o chamado Casarão 8, construído em 1878 para o Conselheiro Francisco Antunes Maciel (Figura 4.3). Também foi analisado o edifício do Castelo João Simões Lopes Neto, onde está instalada a Casa de Cultura do mesmo nome, situado no final da Avenida Brasil na saída da cidade de Pelotas para a cidade de Rio Grande, cuja construção se desenvolveu de 1920 à 1922 (Figura 4.4); o edifício da Catedral São Francisco de Paula, localizado na zona central da cidade que ocupa área da Praça José Bonifácio, e situado entre as ruas Quinze de Novembro, Felix da Cunha, Senador Mendonça e Major Cícero, que teve sua construção iniciada em 1813 (Figura 4.5); e o edifício do Instituto Dom Antônio Zattera (Instituto de Menores de Pelotas), construído em 1850, localizado no final da Avenida Domingos de Almeida (Figura 4.6).
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Figura 4.1 –Casarão 2 Figura 4.2 –Casarão 6
Figura 4.3 –Casarão 8 Figura 4.4 –Castelo Simões Lopes Neto
Figura 4.5 –Catedral São Francisco de Paula Figura 4.6 –Instituto de Menores de Pelotas
A eleição destes prédios acima descritos deveu-se à importância dos mesmos e ao período da sua construção, além da permissão obtida, tanto do poder público como da mitra diocesana, para o
4-Seleção de edifícios para estudo e caracterização do edifício eleito 77 desenvolvimento de trabalho nessas edificações. Cabe salientar que no perímetro urbano da cidade de Pelotas existem catalogados em torno de sessenta prédios que representam as construções mais importantes compreendidas dentro do período citado. A maioria destas construções é, contudo, de propriedade privada e apresenta dificuldades para realização de estudos. E, mesmo nos edifícios públicos, são encontradas muitas restrições, determinadas basicamente por setores governamentais, como o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que controla todo e qualquer tipo de intervenção nos edifícios que constituem o conjunto patrimonial das cidades e regiões. Assim, as dificuldades para trabalhar num número maior de edificações foram bastante grandes e, na maioria dos edifícios, ocorreu uma total impossibilidade, o que acabou por restringir o estudo àquelas construções que possibilitaram as investigações e que, de certa forma, representavam uma amostra significativa. No casario da Praça Coronel Pedro Osório, localizado entre as ruas Dr. Lobo da Costa e Barão do Butuí, constituído por três edifícios, foi constatado a impossibilidade de se trabalhar nos Casarões 2 e 8. No primeiro edifício (Casarão 2), foi constatado um processo de intervenção bastante adiantado, onde os elementos mais importantes para o estudo, os revestimentos, já haviam sofrido um processo de total substituição, inviabilizando a continuidade da investigação. Já na segunda construção (Casarão 8), o estado de deterioração estava generalizado e tão avançado que acabou por comprometer a continuidade da investigação, pois impossibilitaria uma interpretação fidedigna das causas e dos efeitos e, além desta dificuldade, foi verificado, também, que muitos elementos dos revestimentos não eram mais originais.
Os levantamentos realizados nos prédios do Castelo Simões Lopes Neto e do Instituto de Menores de Pelotas; mostraram nitidamente erros construtivos, como terraço com tratamento inadequado e canteiros junto à base das paredes exteriores, sem nenhum tipo de proteção, respectivamente no primeiro e segundo edifício e, principalmente, erros de uso, onde ficaram evidenciadas intervenções que acabaram por contribuir para o agravamento das anomalias e descaracterizaram os revestimentos originais; contribuindo assim, para a não continuidade dos trabalhos nestas edificações.
Restou, portanto, a investigação da Catedral São Francisco de Paula e do Casarão 6. O levantamento feito no edifício da Catedral evidenciou que o mesmo já havia sofrido processos de intervenção para a recuperação de danos causados pela presença de umidade e sais. A técnica utilizada, conforme relato da administração paroquial; foi a de esconder o problema. Neste caso;com o uso de placas de mármore (material compatível esteticamente com o utilizado originalmente no altar);que foram colocados aderentes às paredes; o que acabou por dificultar a ventilação e a secagem da umidade, oriunda da ascensão capilar da água do solo e também das infiltrações da água da chuva, que ocorriam por falhas da cobertura e das tubulações pluviais;
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além de fissurações nas paredes e nos detalhes arquitetônicos exteriores (saliências horizontais nos rebocos, que retêm parte da água pluvial e a conduz, através das fissurações, para o interior da construção). O edifício possui nas duas fachadas laterais; apresença de canteiros ornamentais localizados junto às paredes, onde a presença de solo vegetal, plantas e pontos abertos de recolha dos coletores pluviais permitem a constante renovação da água que acaba por penetrar no solo e contatar a fundação e as alvenarias (Figuras 4.7 e 4.8).
Figura 4.7 –Anomalias interior Catedral Figura 4.8 –Erros construtivos exterior Catedral
Além destes fatores, o referido edifício encontra-se em processo de reabilitação, tendo sofrido intervenções de impermeabilização das paredes e fundações por injeção de cristalizantes e pelo uso de membranas impermeabilizantes industrializadas, além de ter recebido revestimento exterior em reboco de argamassa de cimento e areia com aditivos. Cabe salientar que as intervenções em execução no edifício da Catedral São Francisco de Paula; quando totalmente finalizadas, irão determinar, conforme projeto da empresa executora, o isolamento da alvenaria ao contato da água, quer pela criação da barreira impermeável na base dos paramentos, quer pela eliminação dos canteiros e recondução da água pluvial; e a consequente eliminação da umidade, o que propiciará o restauro e retorno ao esplendor das pinturas internas, constituídas pelos magníficos painéis (frescos) dos pintores italianos Aldo Locatelli e Emílio Sessa. Estes procedimentos foram iniciados durante o período no qual se levantava as condições do edifício; portanto, acabaram por determinar a interrupção do trabalho investigatório, pois as áreas, alvo deste estudo, começaram a sofrer intervenção, impossibilitando o avanço técnico-científico programado à construção (Figura 4.9).
4-Seleção de edifícios para estudo e caracterização do edifício eleito 79
Figura 4.9 –Processo de recuperação da Catedral
Fica assim, o estudo limitado ao casarão nº 6, o qual atende às necessidades e possibilita a continuidade das investigações, além de um belo exemplar representante do período mais significativo do conjunto arquitetônico e histórico da cidade e região.
O casarão nº 6, conhecido como Casa Barão de São Luís, teve seu projeto desenvolvido pelo arquiteto italiano José Izella Merote; e, dentro do conjunto neoclássico da cidade, é um dos que possui características construtivas mais preservadas e um regular estado de conservação, permitindo assim um estudo mais fiel das técnicas de construção usadas na época (Figura 4.10).
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Como dito anteriormente, havia outros prédios contemporâneos a este, mas em estado de conservação lamentável, não havendo praticamente revestimentos nas paredes e os que restavam não eram mais os originais, fato que descaracterizaria o objetivo do trabalho proposto; além, é claro, da impossibilidade de acesso e intervenção nos edifícios, determinada, quer pelos órgãos públicos que ora ocupam aqueles espaços, quer pelos proprietários, que não permitem tais procedimentos.
Nas seis edificações antigas avaliadas, e mais especificamente nas duas últimas construções (Catedral São Francisco de Paula e Casarão 6), além das anomalias já mencionadas no capítulo anterior e dos fatores determinadores, encontramos outros que contribuem decisivamente para o agravamento da deterioração. Os mais importantes são: