A tessitura dessa sociedade se instaura no ambiente propício da cidade contemporânea, quando grupos juvenis, “estruturados a partir de galeras, bandos, gangues, grupos de orientação étnica, racista, musical, religiosa ou torcidas de futebol”, emergem, numa “nova apropriação do espaço urbano, que desafia o entendimento e exige uma aproximação mais sistemática para sua compreensão” (SPOSITO, 1993, P. 162).
Movendo-se da periferia ao centro urbano – “eu morava na Zona Sul, perto do Amigão, mais ou menos 2 km do Centro. Eu saí andando pro Centro e fui lá pra pirâmide, né, e, assim, né [...] Aí eu digo: bom, nunca fiz isso, vou fazer a primeira vez na pirâmide, onde todo mundo anda de skate e vai ver” (ZNOCK MORB) –, motivados por “certos impulsos e em função de certos propósitos” essa juventude gesta suas redes de sociabilidade, as quais resultam numa sociedade. Seus fluxos interacionais se caracterizam também “por um
sentimento, entre seus membros, de estarem sociados, e pela satisfação derivada disso” (SIMMEL, 1983, p. 169), constituindo-se, assim, numa relação social pura, numa “forma lúdica da sociação” (SIMMEL, 2006, p. 65).
Periferia, no discurso da sociedade “secreta”, assume sentidos muito mais amplos que os convencionais, constituindo-se não apenas como uma referência espacial, como já dissemos, mas representando um contexto no qual essas identidades juvenis se formam, se comportam e interagem. O universo das crews é organizado a partir do discurso sobre pertencer à periferia.
[...] Periferia passa não apenas a ser uma categoria espacial, como também uma categoria identitária que faz referência à pertença de classe, mas que não se restringe a esse fator. Categoria que também traz consigo modos particulares de se portar e de se relacionar com os pares da periferia. (PEREIRA, 2010, P. 158)
Fotografia: Angelina Duarte
FOTO 05 – Reação da periferia (Gorpo) – Rua Paulo de Frontin. Centro. (CUCA) – setembro de 2004
Assim, esses novos agrupamentos, tribos urbanas, no dizer de Mafesolli, passam a funcionar como elemento de identificação e de referência comportamental desses jovens, na passagem para a adolescência, período em que buscam uma maior autonomia em relação ao mundo adulto. Segundo ele, tribos urbanas como agrupamentos semi-estruturados, constituídos predominantemente de pessoas que se aproximam pela identificação comum a rituais e elementos da cultura que expressam valores e estilos de vida, moda, música e lazer típicos de um espaço-tempo (MAFFESOLI, 1998, p. 201).
(...) os espaços e tempos de lazer aparecem, de certo modo, sobrevalorizados pelos jovens porque reconhecem aí desfrutar de uma certa autonomia, em contraste com outros domínios (família, escola, trabalho) onde é predominante a autoridade adulta.” (PAIS, 1993, p. 111)
As características singulares a cada grupo – imagem, estilo, discurso e comportamento – favorecem sua inserção social, ao mesmo tempo em que sugerem as interferências das transformações socioeconômicas e culturais da sociedade contemporânea na constituição dessas características.
Nessa paisagem e apresentando tais características, brota a sociedade “secreta” de pichadores/as e grafiteiros/as. “A gente criou a MMS, e foi bem legal porque a gente achava que esse negócio de pichação era totalmente secreto. [...] A gente fez a MMS, criou. Melou a cidade todinha” (INSANA).
Eu tinha uns quatorze anos. Era de menor, mas já era mais confiante nisso. [...] Os meninos que eram de maior não queriam dar rolé com a gente que era de menor. Até porque se caso fosse preso, é um agravante a mais tá com companhia de menor, eles iam responder também por aliciamento. Aí já que
a gente não podia andar com os meninos de maior, a gente juntou as meninas e, teve uma época, assim, que era só menina. (INSANA)
Embora conectada ao movimento hip hop, e por isso, estabelecendo fronteiras internas com os demais elementos que o compõem, essa sociedade traça um perfil para se articular aos contextos micro e macro, delimitando suas especificidades e suas identidades, cujos vínculos se pautam tanto pela unidade de impulsos e propósitos em torno dos valores defendidos pelo movimento, quanto pela satisfação de pertencerem a um grupo que lhes permite “unir o útil ao agradável”: crítica, contestação, projeção, rivalidade, planejamento de intervenções, compartilhamento de experiências, lazer, afetividade, “religiosidade”, e também trabalho. “Por outro lado, seus estilos actuam frequentemente como máscaras, da mesma forma que as culturas juvenis podem representar „soluções‟ a problemas e contradições relativamente às circunstâncias que os jovens vivem” (PAIS, 2007, p.22) (grifo do autor).
O aspecto do segredo, que se esconde sob tais máscaras, é indispensável ao funcionamento do grupo, e subjaz a sua prática sociocultural na qual o coletivo, também, assume um papel relevante. Os nós que arrematam tais laços só se tornam possíveis a partir do “nós”, do sentimento gregário que inspira a emergência dessas crews. “O piche, ele é muito coletivo, ele funciona através de crews, de coletivos” (NAAH).
Essa idéia de comunidade, de estar junto, expressa-se, também, no nível vocabular do discurso desses sujeitos: organização, grupo, união, galera, máfia, facção, torcida, primeiro comando, crew (“Organização dos Pichadores do Zepa”, “União Zona Sul”, “Grupo de
Pichadores do Zepa”, “Torcida Jovem do Galo”, “Primeiro Comando do Catolé”, “Máfia Zona Leste”). Primeiro Comando e Máfia, particularmente, dizem respeito a formas específicas de organização, facções criminosas organizadas, cuja ação comprova o poder desses grupos, como é o caso, em São Paulo, do PCC (Primeiro Comando da Capital). Com o uso dessas expressões, esses/as jovens parecem querer chocar a sociedade.
Assim, a “matéria” modeladora da sua esfera social é retroalimentada por essa multiplicidade de elementos – e provavelmente por muitos outros cujo domínio pertence unicamente ao grupo, e que permanecerão secretos para nós –, a partir dos quais os vínculos
comunitários se constituem e se instalam. Mas o que seria a sociedade “secreta” de pichadores/as e grafiteiros/as? Por que e para que ela existiria?
Haveria, de fato, um segredo? Em que ele consistiria e como se manteria? Seria possível desvendá-lo? E, em sendo desvendado, não deixaria de ser segredo? Essa sociedade se abriria para a pesquisadora, ou representaria para garantir a manutenção do segredo?
É sobre ela que iremos nos debruçar agora.