Part 4: Demographics
4.1 Findings
Entre os jogos de poder, próprios da história do pensamento e dos estados de dominação (loucura, prisão, sexualidade), temos as tecnologias governamentais. Foucault propõe que as tecnologias governamentais são condições disponíveis ao próprio indivíduo no processo e no exercício mesmo das relações de força. Em princípio, entretanto, há que se compreender que, se as relações de forças decorrem da relação com o poder, só é possível um pleno exercício dessas técnicas em meio a um processo que se movimenta entre verdade, poder e sujeito, comungando esses três elementos.
Como vimos até aqui, o poder entendido como relações de poder se nos apresenta como o que não para de interrogar o sujeito. Nessa indagação, o sujeito se depara consigo nos acontecimentos que são geridos por si e pelos outros na história. É nesse aspecto que os fatos são registrados e se institucionaliza a busca da verdade, que não é universal, mas a que se apresenta nas singularidades, nos diferentes modos e formas de existência.
Assim, o poder que se instaura na sociedade, ou melhor dizendo, a tomada do poder, não pode ser compreendido tão somente como o fundamento de determinadas utopias, nem considerado a partir de uma teoria geral da produção material de objetos ou produtos que possam ser transformados em “lucro”, materializados em moeda ou nas diversas figuras do capital, estando relacionado unicamente às questões da economia e da política. Quando assim entendido, esse poder tende a fazer o indivíduo permanecer em estado de sujeição e de dominação. Foucault pensa o poder para além dessas relações meramente econômicas, uma vez que na dominação também se encontra a capacidade de revolta e a consequente oposição ao que está posto e positivado. Com isso, se quer dizer que na forma poder subsistem relações de poder. Assim, considerando desse modo, não há como neutralizar os efeitos do poder por meio de um contra-poder, uma vez que nestes estão sempre presentes, quer de forma latente ou patente, relações de poder que se interpenetream como ações e reações a esse mesmo poder. Uma vez que o poder se constitui face a algo, é próprio desse “algo” portar-se de forma oposta, resistiva àquilo que, diante de si, se porta como forma de controle.
Nesse sentido, retomando a esfera do humano, o que se tem e sempre se terá, de forma ontologicamente presente, são indivíduos em face às suas várias lutas, os quais, em meio a esse processo, buscam desenvolver “práticas de liberdade” a partir das resistências ao poder. É assim que distopias como rejeição, revolta e oposição estão como elementos próprios das relações de poder, muito embora por vezes se fragmentam em meio às relações de força. Nesse sentido, uma liberdade pronta e acabada, ligada a essências ou enquanto direito
adquirido desde sempre e outorgado inexoravelmente pela natureza, não faz sentido no pensamento de Foucault. A liberdade se dá em meio a relações, como as que foram acima citadas:
É-se livre por direito de natureza. Mas livre de quê? Em que consiste essa liberdade que nos é dada, quando praticamos esses diferentes exercícios, travamos esses diferentes combates, fixamos este objetivo, praticamos a meditação sobre a morte e aceitamos que ela aconteça? Em que consiste essa liberdade assim adquirida? O que é ser livre? - pergunta Sêneca. E ele responde: ser livre é effugere servitutem? É fugir da servidão, mas servidão a quê? Servitutem sui: a servidão a si (FOUCAULT, 2004, p. 331-332).
Foucault, na Hermenêutica do sujeito, destaca ainda, com recurso ao pensamento estóico de Sêneca, que a liberdade consiste em não ser escravo de si mesmo, destacando a necessidade de seguir o curso da natureza, afastando-se do percurso que conduz às paixões. Nesse sentido, vemos que a liberdade se apresenta por vários caminhos, a saber, os que se apresentam na esfera das relações com o poder, e os existentes na esfera do indivíduo. Entretanto, grosso modo, como não existem indivíduos fora das relações sociais nas quais são constituídos, posto que mesmo as referências a si são oriundas das formas multifacetadas da construção social, há que se pensar como se dão essas relações constitutivas do indivíduo.
Neste sentido, quando tratamos da historicidade humana: uma agonística nas relações
de poder, um dos caminhos percorridos em nossa pesquisa e tratado neste capítulo inicial
consistiu em pensar a agonística presente nas relações sociais entre os indivíduos. Por agonismo entendemos as relações que são constitutivas das relações sociais e, por consequência, do próprio indivíduo. Tanto a sociedade como o indivíduo são constituídos por relações de poder, por relações de força que, no mais das vezes, são oriundas de uma racionalidade presente na ação discursiva. Tal racionalidade, por sua vez, é o reflexo e reflete sobre outras esferas da existência.
No que diz respeito especificamente ao agonismo, assim como o faz Foucault em relação a outros temas como a sexualidade, vale a pena remontar e retomar alguns elementos presentes na tradição grega. O espaço da pólis vai ser o espaço do discurso por excelência, mas se engana quem atribui esse espaço a um monopólio das discussões democráticas. O espaço dedicado ao discurso, o Areópago45, é dedicado, na verdade, ao deus grego da guerra,
Ares. Os espaços públicos, sob muitos aspectos, principalmente aqueles que definem a
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AREÓPAGO: nome de uma colina de Atenas dedicada ao Deus Ares, que, por extensão, denomina o tribunal que tinha sua sede nessa colina. Na época clássica, era formado pelos antigos arcontes (supremo magistrado da cidade) que tinham deixado o cargo; espaço do discurso mais associado ao Deus Ares, o deus grego da guerra, um espaço em que os gregos discutiam, pelejavam com palavras, num processo erístico.
sociedade e o homem grego, são espaços voltados à disputa, à guerra. Os jogos olímpicos, os festivais de poesia, que tinham um caráter religioso, os festivais teatrais, dentre outros, trazem em si a disputa, a oposição.
Nesse sentido, a agonística traz em primeiro plano um agon, um discurso, que é encampado, em primeiro plano por um protón, primeiro, agonistés46, o protagonista47, propriamente falando. Ante esse combatente da palavra, do discurso, temos um ou vários outros, os deuterós, os dos discursos secundários, intitulados de deuteroagonistas48. Temos demarcado, ante o espaço de Ares, uma agonistiké49, cujo processo e procedimento será predominantemente diá, por meio de, através, da palavra, da logiké.
Temos então os elementos formais de um processo que é, em si mesmo, por demais complexo. O agonismo, o agonístico, possibilitado pela característica mesma do agon50, do que é ante-positivo, promove posições que se juntam, as quais, por vezes, colidem, elementos que, postos um ante o outro, geram mais que um anti-agonismo, um “ant-agonismo”, uma relação de oposição de forças, uma vez que se encontram embricadas várias posições, como os vértices criados pelo contatos das retas, o que também é trabalhado pela geometria, a saber, os gones, palavra raiz que se encontra no conceito de agon.
É nesse espaço de contatos e de relações que se constituem a sociedade e o sujeito. A sociedade moderna, com todas as suas problemáticas, apresenta a luta agonística entre seus indivíduos. Ademais, nas próprias sistematizações das instituições, do Estado, estãos os elementos que em sua representação direcionam aos jogos de verdades. Tudo isso são frutos da luta agonística do sujeito histórico. Desse processo, depreendemos ser inimaginável uma liberdade sem contatos, sem conflitos, sem resistências. Muito embora o sentimento inicial seja de uma agonia51, isso se dá em função de uma compreensão inadequada da ideia de
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AGÕNÍSTÊS (agonista): aquele que luta pela palavra ou pela ação, atleta, lutador ou presidente de jogos públicos; aquele que ama os debates e discussões.
47 PROTAGONISTA: personagem mais importante do teatro grego clássigo, em torno do qual se constrói toda a trama; interpreta e protagoniza o papel principal; ser o agente principal de um ato, um acontecimento.
48 DEUTERAGONISTA: na Grécia antiga, quem representava o segundo papel nas tragédias, segundo plano, orador de segunda ordem. No entanto, possuíam um papel importante na composição da trama.
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AGÕNISTIKÊ (agonística): ciência e prática dos combates e lutas corporais; jogos dialéticos e técnicas de argumentação para fazer valer uma opinião.
50 AGON: antepositivo, que não forma ângulos, luta nos jogos, exercício em geral, combate, do grego agôn/ônos, significa reunião, assembleia, local onde se realizam jogos, jogos de luta e contenda; agônothétês (agonóteta). 51 AGÕNIA (agonia): angústia, aflição, perturbação, ansiedade, medo, inquietação, luta em jogos, concurso, inquietude.
relação e resistência presente nos processos da existência. De fato, de uma harmonia compreendida como a condição essencial para a constituição das coisas. Aprendemos em Foucault a necessária existência de um processo agonístico na formação do indivíduo, da necessária luta e da consequente resistência. Nesse sentido, o mal-estar inicial, que é comumente dissipado pelo logro de um discurso que pretende ser universal, apaziquador e, portanto, apático, só pode ser resultado do em logro oriundo do uso inadequado e mistificado da palavra52.
Assim, lutas, estratégias e discussões próprias de uma erística 53 podem ser compreendidas como existentes nas relações de poder que desencadeiam “práticas de liberdade”, uma vez que o sujeito heterotópico – como considera Foucault – exercita, através de suas próprias forças, seu poder de posição e anteposição ao poder e, com isso, ultrapassa o limite da ordem, da aceitação tácita de algo posto e aceito sem questionamentos, ou seja, o regime da submissão.
O processo elencrático, baseado na argumentação, é uma forma de agonística por conter em si uma oposição de ideias, de concepções e de sistemas e grupos sociais. Foi nessa linha de investigação que desenvolvemos nosso primeiro caminho, Historicidade humana:
uma agonística nas relações de poder. Assim, através da agonística existente nas relações de
poder é que esclarecemos sobre os equívocos em que se pode enveredar o indivíduo na aceitação tácita da história se contrapondo ao poder. Em nossos primeiros passos percorridos, é possível compreender que é propriamente no poder que o indivíduo é capaz de constituir “práticas de liberdades” e viver de forma efetiva sua história.
Conforme Foucault, mais do que um antagonismo essencial, tem-se nessas relações e na insubmissão da liberdade um “agonismo”, no qual há elementos que provocam o indivíduo a constituir a si mesmo no poder. Assim, há nas relações de poder uma incitação, tanto na relação com o outro como na relação consigo, à luta e à criação de estratégias com vistas à constituição da liberdade.
52 APÁTE: engano, logro, fraude, traição; artifício, astúcia, ardil; sedução mentirosa através do discurso ou da oratória e que se ilude nossos verdadeiros desejos; mentira pela palavra sedutora que nos lisonjeia e nos adula; adulação.
53 ERÍSTICO: Relativo à Éris, deusa da discórdia. A erística ficou associada aos sofistas, principalmente ao período posterior desse "movimento". Entretanto, a erística, assim como a agonística, está ligada ao discurso.