Buscando Charlot (2000), vê-se que ele definiu aprender como a apropriação de um objeto virtual (o saber) por meio de objetos empíricos, como por exemplo um livro, ou abrigado em locais ou pessoas que já percorreram o caminho. Aprender é “colocar coisas na cabeça”, “é uma atividade de apropriação de um saber que não se possui” (CHARLOT, 2000, p.68).
As crianças conceituaram o termo aprender nas seguintes passagens:
É fazer o que a gente não sabe ainda (JVS -3º). É melhorar muito (PSA -3º).
46Trechos de declarações das criançasparticipantes. 47Trechos de declarações das criançasparticipantes.
Escrever as palavras que a gente não sabe, e ler as palavras que a gente não entende (AVFR - 5º)
Ler, escrever, interpretar e leitura na biblioteca, pegar um livro (DCCF - 5º)48
Para as crianças da pesquisa, aprender, além de representar a apropriação de saberes, também tem sentido de necessidade, um meio de promoção de uma série para outra, ou seja, para não ter que se depararcom o fracasso.
Aprender é estudar, ler, escrever direito, fazer tudo direito para não tomar bomba (DCCF -5º).
... ganhar nota boa (PSA-3º).
Quando a gente aprende, a gente aprende tudo, lê tudo, a gente ganha tudo “A” nota boa (JEATM - 3º).49
Para aprender, os alunos valorizam a escola enquanto local aonde se vai para apropriar de um saber e para que ocorra essa apropriação é preciso dedicação e assiduidade.
Dedicar-se aos estudos (FPS -5º). Estudar bastante (MCG -5º).
Não faltar de escola todos os dias (ACM -5º).
Dedicar-se aos estudos e não ficar faltando de aula (BMS -5º). Estudar todo dia (OJCG -3º).
Ir à escola todo dia (KAS -3º). Não faltar de aula (ECS -3º).
... irà aula todos os dias, gostar de ir a escola... (PSA -3º).50
Nota-se que as criançasvalorizam a escola e sabem que é relevante frequentar as aulas para aprender o conhecimento ensinado, o que é contraditório ao que as pesquisas dizem a respeito do fracasso escolar.
Os saberes ler, escrever e calcular
A escola tem o sentido de lugar de aprender os saberes práticos. Para as crianças da pesquisa, aprender a ler, a escrever e a resolver as quatro operações matemáticas constitui forte função do aprendizado. Vemos, por exemplo, que todas as crianças disseram que na escola aprendem a ler, a escrever, enquanto nove delas mencionaram as “continhas”. Esses saberes são valorizados como habilidades básicas que constituem o êxito escolar. Dessa forma, aprender a ler, a escrever e a “fazer as continhas” passam a ser, como indica Gomes e
48Trechos de declarações das criançasparticipantes. 49Trechos de declarações das criançasparticipantes. 50Trechos de declarações das criançasparticipantes.
Sena (2006, p.24), “muito mais que adquirir habilidades básicas, é, principalmente, construir, obter, e atribuir sentido e significado à aprendizagem”.
Ler, escrever, fazer as provas (RVM-5º).
Ler, escrever, multiplicação, divisão e um tantão de continhas (MCG -5º). Continhas e ler (ECS- 3º).51
Uma criança cita que existem outros lugares além da escola para se aprender a ler.
Eu aprendi lá no Marília [a escola anterior em que estudou], eu aprendia aqui, aprendi na rua, aprendi tudo, todos os lugares que eu fui eu tentava ler, eu sempre levava um papelzinho pra mim escrever, quando eu fazia letra cursiva a minha letra saiu feia, no segundo ano é que eu aprendi a fazer letra cursiva (JEATM - 3º).52
Podemos perceber, através da fala da criança acima, que para ela é preciso esforço, ter desejo de aprender, porque é possível perceber que todos os lugares estão propícios para aprendizagem, sobretudo da leitura, já que vivemos numa cultura letrada e o contato com a escrita é incessante.
Educação se aprende em casa
As crianças também mencionaram outros saberes que não são da responsabilidade da escola ensinar, como:
Educação tem que aprender em casa, né! Educação, o jeito de comer, o modo de sentar, a postura, não lambuzar a roupa igual eu já fiz (JVS-3º).
Correr... (PSA-3º).
Não fazer bagunça, não bater, a postura de sentar (AVFR-5º).53
Essas crianças estabelecem diferenças entre os lugares específicos para as diferentes aprendizagens, a função da escola é ensinar os conteúdos escolares e as aprendizagens cotidianas ficam por conta da família.Aprender a ser educado/a, ter postura, controlar a pulsão de bater no outro, saber comer, etc., são aprendizagens extraescolares que se aprendem em casa.
O necessário e o impossível de educar
51Trechos de declarações das criançasparticipantes. 52Trechos de declarações das criançasparticipantes. 53Trechos de declarações das criançasparticipantes.
Outra fala que surgiu foi que o aprender está relacionado à “boa imagem” de si, que constitui condição para se apropriar dos saberes, sendo comportado, obediente e tendo respeito.
Ir à escola, não desrespeitar as mães, porque elas falam que é pra fazer, tem que fazer, escrever direito na escola, não fazer mau criação com as professoras (DCCF- 5º).
Parar de maltratar as professoras, tem que respeitar o que elas falam, porque elas são igual uma mãe pra nós (DCCF-5º).
Estudar, ler, não responder as professoras, quando a professora tiver falando alguma coisa nós temos que prestar atenção (PSA-3º).
Eu aprendo a ler, a escrever, não bater nas pessoas igual eu fazia antes, a não responder a professora, respeitar os mais velhos, também tipo, a professora está falando uma coisa, igual ela falou: cai na prova e eu não sei, aí eu erro. Eu também aprendo a respeitar, aprendo as coisas, tipo, eu não sei uma coisa que a professora pergunta, e ela já tinha falado e eu não prestei atenção, eu tiro zero, é isso que eu aprendi. Também a professora falou comigo que se eu não prestar atenção vai cair na prova e eu vou tirar zero (JVS-3º).54
Embora de imediato não seja da alçada da escola ensinar a ser comportado e educado, ela possibilita entrar em formas relacionais, isto é, dominar uma relação, obedecer,saber controlar as emoções, o comportamento.Charlot (2000) define que entrar em formas relacionais é garantir certo controle do desenvolvimento pessoal e construir uma imagem de si mesmo.
Eu era o menino mais bagunceiro da sala, mas agora eu não sou. Já mudei. (JVS – 3º ano).
... ser educado, fazer tudo que as pessoas mandarem (AVFR -5º).
E também quando a gente está na escola a gente não pode responder ninguém, não pode bater, beliscar, jogar as coisas no chão (JEATM -3º).55
O papel desempenhado pela escola tem sido também o de estabelecer regras de boa convivência. A escola contribui para a formação de novas atitudes ao exigir bom comportamento, postura correta, respeito, controle das emoções, mesmo que seja só com a crença de preparar o terreno para que ocorra aprendizagem dos conteúdos escolares como se pode observar nos fragmentos abaixo.
Saber falar com as pessoas, não ficar muda, saber falar. Quando uma pessoa tiver enchendo o saco saber deixar prá lá, mas a gente precisa saber o que é importante pra gente (JEATM-3º).
54Trechos de declarações das criançasparticipantes. 55Trechos de declarações das criançasparticipantes.
Não brigar, fazer as pazes, fazer o bem para a pessoa, mas tem gente que não faz isso não, só briga (RVM-5º).56
Cifali e Imbert (1998, p.143) afirmam que em toda classe encontram-se crianças “incontroláveis, teimosas, pretensiosas, que praticam maus atos”, que agem por forças pulsionais inconscientes, que entravam o desenvolvimento psíquico resultando em casos de “distração, desatenção, preguiça, mentira, gula, medos, timidez”. Sobre isso, Campos (2001, p. 179) discorre que o “infantil é teimoso”, enquanto Cohen (2006) nos lembra do que já fora dito por Freud, isto é, que a criança tem uma energia sexual que fora desviada de seu uso sexual para outras finalidades, a sublimação. A autora menciona que a educação também opera no recalcamento dos representantes dessa pulsão, que tenta de qualquer forma emergir em busca da satisfação. É por esse motivo que a educação atua para ensinar a criança a dominar suas pulsões, a autora atenta que o trabalho da educação pode encontrarum ponto de maleabilidade entre o necessário (as exigências da civilização) e o ineducável pulsional da criança, sem repressão, o que não é o caso das escolas pesquisadas.
Vemos que o sujeito escapa todo o tempo, as suas atitudes são imprevisíveis porque ele carrega uma energia impossível de ser controlada.Diante dessa necessidade, a escola segue desempenhando também o papel de educar. Como instituição de encontro de sujeitos, ela socializa, transmite, impõe, perpetua regras e valores importantes para a convivência social, condição para a vida em civilização. Contudo, há sempre um resto que escapa, porque é impossível educar o sujeito do inconsciente.
Inibição diante do saber escolar
Das três saídas para o fim das pesquisas sexuais infantis, em algumas crianças essa energia pulsional vai para a via da inibição, onde a curiosidade sexual fica inibida e juntamente com ela a autonomia do pensamento intelectual. Dentro dessa perspectiva, cabe elucidar que nesta pesquisa será acrescentado o termo “diante do saber escolar” à palavra inibição,ficando estabelecido que tratamos as situações de “fracasso escolar” como inibição diante do saber escolar.
Consideramos que a inibição diante do saber escolar diz respeito ao estado em que o pensamento do sujeito fica estancado/paralisado/inerte diante do saber, o que faz com que o
sujeito recolha-se e paralise-se em situações de confronto com o saber, o que provoca em seu íntimo o não saber, não aprender, medo, impotência, como os fragmentos abaixo explicitam:
... alguns alunos da minha sala já sabem e eu não sei, aí eu fico com vergonha (BMS – 5º ano).
...Tem vez que fico gaguejando na leitura, tem vez que faço a letra muito pequena e a professora não entende (DCCF- 5º ano).
Eu sinto que eu não vou conseguir fazer (RVM – 5ºano).
Eu me sinto nervosa, toda arrepiada, parece que eu estou lá no mundo da lua... Aí fêssora[dirigiu-se à pesquisadora],eu fico sem concentração, eu fico assim, acho que vou errar aquela prova... Até quando eu vou acertar eu fico assim! (AVFR – 5º ano). Eu fico com medo de errar muito, muito, muito. Aí o que eu sei eu acabo errando. Eu fico nervosa e acabo errando uma questão que eu sei (BMS – 5º ano).57
Na inibição diante do saber, o pensamento do sujeito tem uma parada, se inibe diante do saber escolar, mas em relação com outros saberes não apresenta nenhuma questão que impeça a aprendizagem.Isso significa que não é algo patológico que causa deficiência intelectual. Sobre essa questão, Perrenoud (2001, p.25) indica que “os problemas de aprendizagem raramente se apresentam sob aspecto de dificuldades cognitivas puras”, o que ocorre é que existe todo tipo de atitudes e maneiras de ser no mundo. Uma delas, a via da inibição, o sujeito encontra-se impedido de realizar o trabalho intelectual que lhe traria satisfação pelo êxito, contudo, essa renúncia à atividade intelectual representaria outro modo de gozar (COUTO, 2012).
Não é possível aprender tudo o que se ensina na escola, “é impossível um saber igual para todos” (COHEN, 2006, p. 104). Nesse sentido, a inibição diante do saber poderá manifestar-se na função aprender a escrever e/ou a ler ou um determinado conteúdo de uma disciplina, ou até mesmo na função expressar (oral ou escrita) o que aprendeu. Na fala das crianças apuraram-se fragmentos que explicitam a impossibilidade de aprender tudo que é ensinado na escola.
Algumas coisas eu consigo (NJF-5º). Nem tudo (ACM-5º).
Não (JVS-3º).
Conseguir eu consigo, mais ou menos. Ah! Nem tanto. Tem umas coisas em matemática que estão difíceis, outras estão boas (AVFR-5º).
Talvez. A gente aprende quase tudo, né? E deixa umas (RVM-5º). Todas não, eu só não sei duas...[ler e escrever] (DCCF-5º).58
57Trechos de declarações das criançasparticipantes. 58Trechos de declarações das criançasparticipantes.
Para as crianças, o não-domínio da leitura e das operações matemáticas tem se tornado o obstáculo na aprendizagem escolar
Aquela que coloca o D em cima e os números embaixo. A Unidade, Dezena, Centena (NJF-5º).
Expressões numéricas (FPS-5º).
A tabuada eu não consigo decorar (MCG-5º). As continhas (OJCG-3º).
As contas que a professora sempre dá. Divisão, multiplicação (PSA-3º).
As coisas que eu não aprendo, tipo assim, tem multiplicação de 1.000, 1.900, aquelas coisa assim... eu tiro nota zero. Eu presto atenção, mas eu não consigo multiplicar na cabeça. De vezes eu sei, mas essas coisas de 1000 eu não consigo (JVS-3º).
Fazer aqueles deveres difíceis, né fêssora?! Conta de vezes, de menos. Ler direito eu não sei não (RVM-5º).59
Vejamos que oito crianças mencionaram que têm inibição na aprendizagem das operações matemáticas, seis em outros conteúdos da matemática e uma tem inibição em leitura e escrita. É perceptível que a inibição dessas crianças é mais intensa diante da matemática e menos intensa diante da leitura e da escrita, saberes que elas disseram, anteriormente, serem mais relevantes de aprender. Para elas, aprender ler e escrever ocupa a posição de principal função do aprendizado escolar porque são úteis para as atividades do dia- a-dia e permitem a inclusão na cultura letrada.
Não foi o foco analisar o modo como se dá a transmissão desses conteúdos, os quais se mostram objeto de muitos estudos, evidenciando a dificuldade das professoras com o ensino da matemática.
As crianças também acreditam que o motivo pelo qual não conseguem aprender é que são desatentas ou não se esforçam o suficiente. Todas se culpabilizaram pelo suposto fracasso.
Eu acho que eu não estudo bem (MCG-5º).
Talvez eu não aprendo porque eu não presto atenção (NJF-5º). Porque eu não presto atenção na aula (OJCG-3º).
Porque as vezes quando as outras pessoas ficam fazendo uns negócios, eu largo e fico olhando, depois eu volto a fazer meu dever (JEATM-3º).
Tem vez que a gente tem que esforçar e aprender sozinho (RVM-5º).
Porque eu sou muito burra na escola, porque lá no Pequeno Príncipe, no 1º ano, era muito fácil e eu errava todas de preguiça mesmo, eu fazia bagunça, não aprendia quase nada. A professora passava eu pra frente sem eu aprender (DCCF-5º).60
59Trechos de declarações das criançasparticipantes. 60Trechos de declarações das criançasparticipantes.
Cordié (1996) mostra que “Os atrasados não existem”! Para ela há uma inércia que controla o sujeito impedindo-o de realizar o seu desejo, deixando-o impossibilitado de exercer algum controle (CORDIÉ, 1996). É o que podemos perceber nas falas abaixo:
Eu aprendia muitas coisas lá no Marilia, a professora me dava muitas coisas para ler e escrever, mas só ler que eu não conseguia [...] quando eu tentava ler a minha boca não conseguia, era gostoso ler, mas eu não conseguia (JEATM-3º).
Se uma pessoa falar uma palavra, presta atenção, e se eu não presto atenção e quando cai na prova, aí eu não sei mais (AVFR-5º).
[...] Escrever um texto, até que eu escrevo eu demoro muito, aí quando chega o final da aula, eu tenho que ficar (DCCF-5º).61
Não conseguir acompanhar os colegas ou não ter bom desempenho na aprendizagem engendra um sentimento de inferioridade, vergonha e culpa que leva a criança a acreditar que não é capaz de aprender, então ela continua inibida. Elas acreditam nos significantes “desatento, não esforçam e burrice”, e se fixam neles, pois “o sintoma é fundamentalmente uma criação particular, única de cada sujeito” (PUIG, 1997apud MRECH, 2002, p. 59).
O sintoma é uma espécie de mecanismo de defesa criado pelo sujeito para tamponar a falta inerente que há em si. A inibição também funciona como um mecanismo de defesa que protege o sujeito da exposição diante do saber, por isso o sujeito se recolhe na sua inibição, apresentando-se tímido e retraído.
Behares (2010) cita que os estudos sobre o tema, já nos anos 1980, sobretudo os de Chevallard (1985-1991[1998]), mostram que o ensino e a aprendizagem ocorrem em momentos diferentes, o tempo de processamento não coincide com o que o/a professor/a ensina, o/a aluno/a às vezes não aprende o que é ensinado, ou aprende mais ou menos. E quanto a inibição diante do saber, o tempo cronológico não é o mesmo para todas as crianças.A criança com inibição precisa de mais tempo, ela precisa vencer primeiramente o obstáculo criado pela inibição, e esse passa pelo tempo lógico.
O Outro no lugar de saber
Para aprender, o Outro é colocado no lugar de saber. Mas quem é esse Outro?
Seria a “Lei, o Sistema, o Bicho-Papão, Deus? Há uma crença de que seria necessário um Outro para regular o comportamento dos sujeitos (MRECH, 2002, p. 49).
O texto “O Futuro de uma Ilusão”, escrito por Freud em 1927, mostra que para a vida em civilização foi necessáriaa renúncia de pulsões, como canibalismo, incesto, ânsia de matar, atitudes de violência. Para isso foi necessáriaa invenção de um Deus-todo-poderoso, um Outro, um pai justo, forte, sábio, poderoso que castiga se não for obedecido.Assim, “nem ordem mundial divina, nem vida futura, se sentirão isentos de toda e qualquer obrigação de obedecer aos preceitos da civilização” (FREUD, 1927, p.43).
Esse Outro não é concreto externo ao sujeito, é simbólico. É um Outro internalizado que os sujeitos passam a acreditar na sua existência como um ser que sabe muito, que censura e critica. Esse Outro inconsciente é transferido pelo sujeito para a figura de um outro62que está mais próximo, isto é, que exerce autoridade para o sujeito(COSTARDI, 2010).
Essa dinâmica transferencial é definida por Freud (1910 [1909]) como transferência, sentimento direcionado à figura do outro que ocupa lugar de saber.Esse sentimento provavelmente é ressurgido de algum trecho da vida primordial que havia se alojado no inconsciente. A transferência está presente em qualquer relação, assim, na relação professor e aluno/a, como podemos perceber, duas das crianças pesquisadas mencionaram em suas falas que atribuem o “lugar” de saber à professora.
As professoras, porque elas já estudaram e são inteligentes e sabem tudo quanto é conta de subtração e divisão, e a gente ainda não sabe e tem que aprender.
A minha professora e a professora que me ensina todos os dias para mim ler [a professora particular], porque elas já sabem de tudo, conta de vezes, todas as coisas, português, matemática,geografia, história... (PSA-3º).
As duas professoras, porque são inteligentes, mas essa professora [a professora particular] é mais inteligente que a outra (AVFR-5º).63
Achamos conveniente observar nas falas das crianças, assim como Miranda (2002) observou em sua pesquisa com adolescentes, partículas do discurso que apareceram e se traduzem no que os/as alunos/as valorizam no ato da transmissão do conhecimento. Extraímos as características “inteligentes” e “sabem todas as contas e coisas” das falas das crianças que mencionaram as professoras como pessoas mais indicadas para ensinar. Assim, observamos que a pessoa que realiza o ato de transmitir o conhecimento deve dominar os conteúdos programáticos, deve “saber-tudo”, no entender das crianças. E lembrando que a inibição é maior no âmbito da matemática, as crianças estão preocupadas em apropriar-se desse conhecimento, por isso valorizam as pessoas que “sabem tudo quanto é conta”.
62Note-se que há diferença: outro – é o semelhante. Ex.: pai, mãe, amigo...; Outro – é simbólico, está na
linguagem (MRECH, 2002).
Ainda é transferido para a figura da professora o lugar do Outro possuidor de saber.Notemos bem na fala de outras duas crianças quando dizem que a função de ensinar é da professora mesmo. Sua única atividade é ensinar.
A professora, porque ela está lá é pra ensinar (ECS-3º).
Eu acho que é a professora, porque ela está ali é para ensinar (FPS-5º).64
Outras pessoas também foram colocadas nesse lugar representante do discurso.
Eu acho a Viviane e a Geovana[as colegas da classe], porque são muito inteligentes (NJF-5º).
A minha mãe, porque ela explica melhor (BMS-5º). A minha irmã, porque ela é muito inteligente (OJCG -3º).
Minha mãe e meu irmão, porque eles me ajudam. O meu irmão estuda a noite e pode me ajudar mais, a minha mãe porque me ajuda com carinho (ACM-5º).
A mãe, porque é mais paciente (UFAG-5º).
A minha mãe, porque quando eu não consigo, ela sempre me ajuda, ela está sempre comigo (KAS-3º).
Eu acho o meu irmão mais velho, porque ele estuda a noite (MCG -5º).
Minha tia Teté, porque às vezes ela grita comigo, apaga quando eu faço errado, mas com bom sentimento pra mim aprender. Quando eu não quero escrever uma coisa, ela me força, mas é para bom motivo, pra mim aprender (JVS-3º).
O namorado da minha mãe, porque o dever de para casa, quase todos é ele que me ensina e está tudo certo (RVM-5º).
É a minha prima que estuda no sétimo ano, porque ela já sabe tudo, porque ela do 1º ano no Padre Faria até o 7º ano ela nunca tomou bomba e eu já tomei uma no 5º ano, era pra eu estar no 6º (DCCF-5º).65
Já nestas últimas falas, capturamos as características: - inteligência, - transmissão clara - disponibilidade de tempo - carinho - paciência - companheirismo
- rigorosidade com carinho - detentor de conhecimento
Todas estas características representam condições para que ocorra a aprendizagem66, mas não estão sendo encontradas dentro da escola. A princípio, poderíamos supor que as professoras não podem perder tempo com particularidades, precisam atender à demanda do universal, pois estão sendo pressionadas pelo sistema educacional por produção de resultados. Na escola, todas as atividades estão voltadas para isso. Calderano, Barbacovi e Pereira (2013,
64Trechos de declarações das crianças participantes. 65Trechos de declarações das crianças participantes.
p.136) relatam que o processo de avaliações sistêmicas exerce pressão sobre as professoras e alunos/as e é o que causa motivo de tensão geral.Há um desgaste que sentem pela busca de bons resultados na tentativa de atender às demandas do “tem que fazer, tem que fazer [...] Aí nós treinamos tudo”.