Atendendo à demanda do grupo de professores e da direção da instituição escolar, que solicitaram que escutássemos os adolescentes, principalmente os envolvidos em episódios violentos, realizamos encontros com os jovens escolhidos pela escola para participar do grupo, com um total inicial de vinte e cinco adolescentes. De nossa intervenção resultaram dois (trabalhos de conclusão de curso) de Psicologia, orientados por mim e pela coordenadora do projeto CNPq, Dra. Sandra Francesca Conte de Almeida.
Nosso primeiro encontro foi realizado sem que a escola tivesse dito aos alunos as razões e o objetivo do grupo. Os alunos foram chegando, em uma sala muito quente e desconfortável, sem ventiladores. Em pouco tempo se entenderam entre eles e se denominaram o “grupo da bagunça”, da escola. Estavam todos ali, se diziam os mais bagunceiros de todos, e se perguntavam o que iríamos fazer com eles. Após se apresentarem uns aos outros, iniciaram uma grande bagunça, disputando o lugar do mais bagunceiro. Cabe ressaltar que tudo isso aconteceu quando da chegada dos alunos à sala de reunião. Atiravam pedaços de carteiras, arrastavam cadeira no chão, xingavam-se mutuamente, até que intervimos, perguntando se sabiam porque estávamos ali. A resposta, sob forma de gritaria geral, foi de que não sabiam, mas lhes fora dito que seria uma reunião com uma psicóloga e que seria muito interessante.
Apresentamos a proposta de que ali fosse um espaço de escuta e de fala, onde poderiam tratar de qualquer assunto que quisessem, que nos encontraríamos uma vez por semana, sempre no mesmo horário, que a permanência no grupo era voluntária, que os assuntos seriam escolhidos por eles e que manteríamos sigilo de tudo que ali fosse dito e discutido. Imediatamente, após a nossa fala, os adolescentes, que tinham entre 13 e 17 anos de idade, começaram a fazer um círculo em torno da pesquisadora, demonstrando interesse.
Perguntaram se era mesmo verdade que escolheriam os assuntos, se “aquilo não valeria nota”, se estariam ali “apenas se quisessem”, demandando que reafirmássemos o contrato. Isso feito, de pronto se acalmaram e iniciaram a escolha dos assuntos, sendo esses: sexo, armas e drogas e violência na escola. Os assuntos escolhidos confirmaram o discurso dos professores de que eles não se
interessavam por nada a não ser por temas “alheios às disciplinas escolares”. Ficou combinado, então, que no primeiro encontro o assunto seria sexualidade, que não estávamos ali para dar aulas e que o assunto seria de todos.
Na semana da reunião seguinte, conseguimos, após muita relutância da escola, que as reuniões fossem realizadas na sala de informática, que tinha ar condicionado. A coordenadora nos havia alertado para o fato de que os alunos “roubavam” e que nos responsabilizaríamos pelos mouses e teclados da sala, o que foi por nós acordado. Os alunos, num total de 27 (vinte e sete), ficaram encantados com a sala e comentaram, com entusiasmo, “como era bom uma sala refrigerada”.
As reuniões ocorreram sempre conforme combinado, e os alunos falaram sobre os assuntos propostos. Não houve evasão, pelo contrário, foi necessário que limitássemos o número de participantes, que a cada semana aumentava.
No que se refere ao tema sexualidade, constatou-se que os participantes tinham poucas ou equivocadas informações. As questões levantadas, ainda pueris, relacionavam-se às mudanças do corpo, contrastando com a imagem do adolescente ativo e promíscuo sexualmente. Pode-se afirmar que entre os adolescentes do grupo, de acordo com Martinez (2012), circulavam “mitos, desinformação e uma prática sexual muito rara” (p.14).
O tema drogas, que inicialmente tinha sido proposto vinculado a armas, foi reavaliado pelo grupo, optando-se apenas pela discussão sobre drogas. A partir desta discussão pôde-se perceber a preocupação com os efeitos negativos sobre o corpo, bem como sobre os limites do consumo relativos a sequelas e overdose.
No tema violência na escola, a discussão partiu da reflexão sobre a violência proveniente do meio policial e familiar, identificando-a inicialmente como física, ampliando-a, no decorrer do trabalho, para a dimensão simbólica.
Os trabalhos de conclusão de curso da graduação em Psicologia, realizados pelas alunas bolsistas de Iniciação Científica do CNPq, inseridas nesta pesquisa, dão conta da evolução do grupo com os alunos, cujo acompanhamento e anotação dos relatos foram feitos por elas.
Martinez (2012) realizou uma investigação acerca das concepções de violência dos adolescentes, da presença/ausência de figuras que realizavam a função de suplência de apoio narcísico parental e com quais ideais de eu os adolescentes se identificavam. As análises foram desenvolvidas a partir de quatro categorias temáticas: apoio narcísico parental, ideal do eu e identificações, relação
transferencial e concepções de violência. Os resultados demonstraram que o grupo representou um espaço importante de fala e possibilitou ressignificações e reposicionamento dos adolescentes.
Além disso, a pesquisa apontou a relevância da função de apoio narcísico parental dentro do contexto escolar. A partir dos aspectos relacionados ao entendimento do conceito e concepções de violência, foi possível constatar, no discurso dos adolescentes, que estes identificavam a violência, inicialmente, apenas na dimensão física, principalmente aquela exercida pela polícia e pela família, como apresentado abaixo:
- Quando os policiais batem em nós (respondendo à pergunta de quando eles sofriam violência).
- Sim, dá tapa na cara.
- Já levei coronhada na cabeça. - Se você ficar calado apanha.
- Se PM vier me bater, bato neles! A PM nem bate assim. Quem bate é a Força Nacional, é a Rotam.
- Uma vez me perguntaram (policiais) onde eu morava. Aí eu disse: ‘Ali’. Aí, ele perguntou: ‘Cadê o senhor?’. Aí eu disse: ‘Oxi, e tem que ter, é?’. Aí ele, pum! Me deu tapa na cara e disse: ‘Acabou o respeito, moleque?’.
- Do pai não (apanho), mas da mãe já fui espancada.
- Meu irmão apanha com vara de goiaba (MARTINEZ, 2012, p. 20).
Embora identifiquem essas situações de violência, de acordo com a investigação as brigas entre colegas não foram consideradas violência, mas uma forma de se defender, demonstrando uma visão sobre a violência que parte da identificação de uma relação assimétrica, que inclui alguém que representa autoridade e força física. As brigas ou os atos violentos entre os adolescentes foram consideradas por eles como parte do processo de socialização.
Entretanto, a participação no grupo desencadeou um processo de re-leitura e ampliação do significado de violência. Em um dos encontros, um dos participantes perguntou: “Filho do Belzebu é xingar?” (MARTINEZ, 2012, p.21). Com essa pergunta, pôde-se identificar um inicio da reflexão acerca da ampliação da definição
de violência, identificando-a também como uma violência simbólica, ao explicar: “O P (um porteiro) chamou o M (aluno) de filho do Belzebu” (MARTINEZ, 2012, p.21).
Tais questões revelam o momento em que o grupo amplia a compreensão sobre a violência até que um dos integrantes questiona: “O que é violência psicológica?” Levados a refletir sobre a pergunta, os adolescentes definiram violência psicológica como bullying, citando diversas situações em que eles próprios ou seus amigos estiveram envolvidos.
A violência verbal, antes naturalizada pelo grupo, passa a ser significada como violência, a partir do momento em que afirma a possibilidade da palavra como “arma”, como ferramenta de agressão. Ao contrário do que aparecera incialmente, onde os adolescentes consideravam que era violência apenas a que se manifestava no âmbito físico, no corpo.
Como afirma Martinez (2012), o trabalho com os adolescentes foi possível devido à transferência estabelecida com a pesquisadora, que sustentou o discurso do não saber-tudo e que os convidou a construir junto com ela um saber sobre a verdade de cada um. Ao realizar esse convite à fala, a pesquisadora proporcionou aos adolescentes a possibilidade de ligação pela palavra, ou seja, a palavra foi apresentada como um instrumento para lidar com as rupturas presentes do período do adolescer.
Ao se depararem com o interesse da pesquisadora de escutar o que eles tinham a dizer, os adolescentes puderam falar de si. O grupo ainda funcionou como um espaço onde os participantes puderam realizar ressignificações, de forma a se reposicionarem frente aos assuntos escolhidos. A investigação realizada por Martinez (2012) conclui que o desenvolvimento de um trabalho com os adolescentes torna-se possível na medida em que são compreendidos como alguém que tem algo a dizer e, assim, na condição de sujeitos, são tomados como participantes de sua própria história e sabedores de si mesmos. Entretanto, isso não significa que sejam deixados a mercê de si mesmos, frente ao que se apresenta como novo e que se propõem a desbravar. Nesse sentido, é fundamental que o adulto, no caso a pesquisadora/animadora do grupo, “exerça a função de apoio junto a este, ora funcionando como suporte e continente, ora como guia” (MARTINEZ, 2012, p.23)
O outro trabalho, que teve como objetivo suscitar reflexões acerca dos processos de mudança corporal e psíquica na adolescência e suas relações com a passagem ao ato, concluiu que a escola, enquanto instituição social, serve como
modelo, em conjunto “com as figuras parentais, dos ideais do mundo adulto” (BENIGNO, 2012, p. 25).
Na investigação, Benigno (2012) constatou que a escuta clínica e o espaço de fala foram catalizadores que proporcionaram aos adolescentes um significativo processo de ressignificação das concepções sobre violência, bem como das razões que levam ao uso da violência como recurso. Assim, eles mesmos reconheceram que as manifestações contra os professores e a direção da escola (via rede web), ocorreram por se sentirem agredidos e violentados. Da mesma forma, reconheceram que se excederam ao dirigir xingamentos à diretora e, por isso, foram penalizados.
Um dos indicadores da legitimação do espaço de fala, segundo a pesquisa, pôde ser visto no ato dos participantes em propalar as sessões do grupo, atraindo um número muito maior de alunos do que havia sido acordado inicialmente com a equipe pedagógica da escola. Outro indicador foi demonstrado pelo relato dos adolescentes, ao indicar que a possibilidade de falar e ser escutado foi identificada por eles como a melhor contribuição da participação no grupo:
- Gostei, porque teve alguém que nos ouviu.
- Foi massa, mas também não muito, porque tem umas coisas que não dá pra falar. É de boa, não tem lado certo nem lado errado.
- Cada um dá a opinião que quer.
- Eu gostei. Foi legal. Eu já sabia da maioria dos assuntos, mas foi legal ouvir algumas coisas que eu não sabia.
- Eu gostei, porque sim.
- Gostei. Porque não assistia aula. - Eu gostei da conversa, dos assuntos.
- Gostei muito, porque aprendi um monte de coisas.
- Gostei. Foi bom. Porque a gente ficou sabendo de coisa que não sabia. - Porque eu pude conhecer todo mundo, porque eu não conhecia ninguém e ainda me livrei da aula.
Segundo a análise de Benigno (2012), a fala dirigida a um Outro que está no lugar da escuta, suportando o lugar da castração, produz “efeitos na economia psíquica dos adolescentes e possibilita maior riqueza nos processos simbólicos,
diminuindo a necessidade do recurso ao ato para o escoamento da tensão pulsional” ( p. 25).
Desse modo, o estudo confirmou a ideia de que o ato violento decorre do desamparo narcísico característico da adolescência, agravado, na contemporaneidade, pela falta de referenciais adultos e pobreza simbólica, sintoma dos laços sociais atuais e da compreensão acerca do lugar do adolescente no mundo.
Assim, pode-se afirmar, a partir dos encontros com os adolescentes, que a escuta clínica e o espaço de fala tornaram possível uma ressignificação de suas experiências com a violência e dos sentidos do ato violento como recurso, nos contextos familiar, social e escolar, produzindo efeitos na economia psíquica dos adolescentes e possibilitando maior riqueza nos processos simbólicos.