Quando os sons são produzidos com vibração das pregas vocais, estes são sons vozeados ou sonoros, e esta é uma característica partilhada por todas as vogais. A ausência de vibração audível das pregas vocais, é responsável pela característica de sons não-vozeados ou surdos. As consoantes, contrariamente às vogais, podem ser vozeadas ou não vozeadas em função de serem ou não produzidas com vibração das pregas vogais (Cunha & Cintra, 1997; Mateus et al., 2005; Mateus et al., 2003).
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Em suma, no Quadro 4 é apresentada a classificação articulatória tradicional das consoantes do PE11, considerando todos os parâmetros necessários a uma classificação
articulatória completa.
Quadro 4: Classificação tradicional das consoantes do PE . Adaptado de Mateus et al. (2005, p. 83).
Ponto de articulação
Modo de articulação Oclusivas
Fricativas Líquidas
Orais Nasais Laterais Vibrantes
Bilabial Vozeada Não-vozeada Lábiodental Vozeada Não-vozeada Dental Vozeada Não-vozeada Alveolar Vozeada Não-vozeada Palatal Vozeada Não-vozeada Velar Vozeada Não-vozeada Uvular Vozeada Não-vozeada
Note-se, no entanto, que a proposta de classificação do sistema consonântico do PE apresentada por Cruz-Ferreira (1999) (cf. Quadro 5) não contemplada a vibrante uvular vozeada, mas é incluída a fricativa uvular vozeada [ʁ]. Para além disso, o termo “vibrante” é omisso, dando lugar à designação “tap”12 para se referir à vibrante simples alveolar /ɾ/ apresentada pela classificação articulatória tradicional.
É igualmente importante frisar que as propostas de atribuição de um ponto de articulação à lateral /l/ não são totalmente coincidentes. Autores como Cunha e Cintra (1997), Emiliano (2009), Freitas et al. (2013), Mateus et al. (2005), Veloso (1999) consideram o ponto articulatório alveolar, enquanto Cruz-Ferreira (1999) classifica-a como dental (cf. Quadro 5). Esta oscilação no que se refere à atribuição do ponto de articulação de /l/ é também
11 “A utilização de uma tipologia de classificação dos sons de base articulatória permite identificar grupos de
segmentos que partilham determinadas propriedades físicas.” (Duarte, 2000, p. 227).
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relatada em descrições mais antigas do PE (Barbosa, 1965, p. 170; Sá Nogueira, 1938, p. 53).
Quadro 5: Proposta de classificação das consoantes do PE de Cruz-Ferreira (1999, p. 128).
Consoantes bilabial Labio-
dental Dental Alveolar
Palato-
alveolar Palatal Velar Uvular
Oclusiva p b t d k ɡ Nasal m n ɲ Fricativa f v s z ʃ ʒ ʁ Tap ɾ Lateral aproximante l ʎ 1.3.2. Fonética Acústica
A Fonética Acústica está associada ao estudo da física do sinal de fala, desde que o som é emitido pelo falante, até que é recebido pelo ouvinte, a partir da vibração das partículas do ar. Este ramo da Fonética permite, assim, identificar, descrever e classificar os sons da fala a partir do estudo das propriedades que caracterizam a onda sonora13: duração, frequência e
intensidade (Faria et al., 1996; Freitas et al., 2013; Harrington, 2010; Ladefoged & Maddieson, 1996; Raphael et al., 2011; Real Academia Española, 2011). Estas propriedades são mensuráveis a partir de técnicas matemáticas, utilizando “software” especialmente desenvolvido para o efeito. A análise acústica da fala é mais objetiva que o método auditivo tradicional, do qual depende a confiabilidade do treino do ouvido humano (Roach, 2011). Para além disso, o sinal acústico estabelece uma ponte importante entre a produção e a perceção da fala, o que faz da análise acústica uma forma previligiada para o estudo da fala (Kent & Kim, 2008).
Os sons da fala podem ser representados e analisados instrumentalmente a partir, por exemplo, do espectrograma e respetiva forma de onda14. O espectrograma consiste numa representação visual, resultante de um registo tridimensional de um enunciado, em que o
13 “Las ondas sonoras se producen cuando la fuente de sonido entre em vibración y las partículas de aire se
vem sometidas alternativamente a FASES DE COMPRESIÓN – tiempo durante el cual la presión soportada es máxima – y a FASES DE RAREFACCIÓN - tiempo em el cual la presión es mínima -. Así, una onda sonora consiste en una serie de movimentos de compresión y de rarefacción que se expanden por al aire de forma concêntrica a partir de la fuente de sonido.” (Real Academia Española, 2011, p. 32)
14 Para uma revisão detalhada sobre estas e outras técnicas de análise fonética, consulte-se Ladefoged (1996,
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tempo/duração (em s) se encontra representado no eixo horizontal, a frequência (em Hz) no eixo vertical e as diferenças de amplitude são representadas por diferentes tonalidades de cinza ou cores. A forma de onda é também uma representação gráfica, que fornece informação quanto à amplitude do sinal acústico contínuo, como é o caso da fala, em função do tempo (Crystal, 2008; Johnson, 2012; Kent & Read, 2002; Ladefoged & Johnson, 2011; Ladefoged, 1996; Ogden, 2009).
As características articulatórias tradicionais dos sons da fala, manifestadas por meio de propriedades físicas, podem assumir padrões acústicos típicos, característicos de sons complexos15: i) som periódico; ii) som aperiódico; iii) sons de excitação mista (Raphael et
al., 2011; Roach, 2010). Kent e Kim (2008) e Roach (2010) consideram ainda que o silêncio é um padrão acústico que deve ser considerado, pois fornece informações relevantes para a interpretação fonética, nomeadamente no caso das consoantes oclusivas.
Por definição, ondas sonoras periódicas correspondem a um padrão de vibração regular que se repete exatamente da mesma forma ao longo do tempo. Por oposição a estas ondas, existem as ondas aperiódicas, cuja forma de onda é irregular e não há repetição do ciclo vibratório (Crystal, 2008; Davenport & Hannahs, 2005; Fujimura & Erickson, 1999; Johnson, 2012; Raphael et al., 2011).
No Quadro 6, encontram-se as características da onda sonora associada aos diferentes segmentos.
Quadro 6: Características das ondas sonoras dos sons da fala. Adaptado de Raphael, Borden e Harris (2011, p. 116) Roach (2010, pp. 42–45).
Fonte(s) Ressoador Onda sonora Segmentos
Pregas vocais Trato vocal Periódica Vogais Semivogais Nasais
Trato vocal Aperiódica Oclusivas não vozeadas
Fricativas não vozeadas Pregas vocais + trato vocal Sons de excitação mista Oclusivas vozeadas
Fricativas vozeadas
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“A pure tone is produced by a waveform whose pattern of vibration repeats itself at a constant rate; such tones are typically produced by electronic sources or tuning forks. When two or more tones of different frequencies combine, the result is a complex tone. Most sounds, including those of speech, involve complex tones, with different periodic patterns.” (Crystal, 2008, p. 486)
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As consoantes líquidas são semelhantes às vogais e semivogais quer em termos articulatórios, quer em termos acústicos, razão pela qual lhes é atribuía a designação de sons periódicos (Proctor, 2009; Raphael et al., 2011; Real Academia Española, 2011; Roach, 2010). Roach (2010, p. 45-46) apresenta especificações relativamente aos róticos: i) “Taps and flaps (…) are usually voiced, and are therefore to be seen as being very brief voiced plosives” e ii) “Trills, too, such as the tongue tip trill [r] and the uvular trill [ʀ], are usually voiced (…) they are periodic as a result of the vocal fold vibration, and also periodic because of the regular (though much slower) vibration of one of the articulators, such as the tongue-tip”.