• No results found

A Câmara dos Vereadores, antigo Conselho Deliberativo, estava necessitando urgentemente de um maior espaço para que os vereadores pudessem fazer suas deliberações. A Biblioteca Pública de Belo Horizonte, naquele momento, ocupava este espaço, o que incomodava bastante os membros da Câmara. Esse problema aguardava uma medida administrativa por parte da Prefeitura de Belo Horizonte, no entanto, a Administração não se manifestou, atitude essa que descontentava ainda mais aos vereadores. Segundo o Jornal Correio de Minas (1964)74, esse problema perdurava há algum tempo:

“O caso da Biblioteca Municipal e Câmara de Vereadores surgiu há dois anos, depois de frustrados os planos para a construção do novo edifício da Câmara. Nos últimos dias da presidência de Rui da Costa Val, a parte de baixo, onde estava instalada a biblioteca, começou a receber amplas reformas por conta do Departamento de Educação e Cultura ... “

Os cuidados necessários a uma instituição cultural da cidade não estavam sendo considerados importantes pelos representantes legislativos de Belo Horizonte. Então, segundo artigos da época, o presidente da Câmara, Nilson Gontijo, em 03 de agosto de 1963, não esperando alguma atitude do prefeito, acabou despejando o acervo da Biblioteca nos bancos do Parque Municipal:

74

As notícias a respeito do despejo do acervo da Biblioteca Pública de Belo Horizonte foram retiradas de cópias de artigos de jornais, arquivadas na Biblioteca do IMACO. Naquelas cópias, não se encontram os números das páginas.

“A Biblioteca Municipal foi despejada, ontem à tarde, e seus livros colocados nos fundos da Escola Técnica do Comércio, pois a Câmara Municipal não a deseja mais no prédio que ocupava há vários anos. O Presidente da Câmara Municipal, sr. Nilson Gontijo, deu ordem a um grupo de homens com um caminhão, para tirar todos os livros e armários do prédio da rua da Bahia e colocá-los em qualquer prédio da Prefeitura. Disso que desejava forçar a Municipalidade a tomar uma providência definitiva.” (Diário da Tarde, 1963)

“Despejada nas alamedas e bancos do Parque Municipal no domingo 3 de agosto de 1963, por ordem do então presidente Nilson Gontijo, da Câmara Municipal, há seis meses que a Biblioteca Pública Municipal vem dando trabalho, dia e noite, estando longe ainda de ficar organizado.” (Correio de Minas, 1964).

Segundo o Jornal Diário de Minas (1963), por sua vez, os vereadores apresentavam algumas justificativas para tal ato:

“Os 30 mil livros da Biblioteca Municipal foram levados para o IMACO porque os vereadores reclamavam mais espaço para as suas atividades, e a Biblioteca que funcionava no prédio da Câmra, ocupava três grandes salas que, agora, estão sendo remodeladas. Justificam a mudança, afirmando que, assim diminuem o perigo de incêndio na Câmara, que era grande devido aos livros serem velhos.

Além disso, disseram que a mudança da Biblioteca só iria beneficiar a ela mesma, porque as consultas estavam rareando cada vez mais. O prefeito Jorge Carone prometeu melhores instalações e se interessar pelo aumento de suas verbas, anunciando que a Biblioteca ficaria instalada em salas do IMACO. Enquanto isso, os livros não podem ser consultados porque estão perdidos em dois grandes montes.”

Essa atitude, obviamente, provocou um forte sentimento de indignação por parte do público de Belo Horizonte, e que foi expresso, muitas vezes com sarcasmo, em vários artigos de jornais:

“...o que foi feito com a biblioteca Municipal foi estúpido, um ato vagamente semelhante ao de Fidel Castro nas Igrejas de Cuba. Defender o Sr. Gontijo o fato das poucas acomodações para a Câmara dos Vereadores e que o espaço ocupado pela biblioteca era indispensável. Até aí tudo certo, o espaço era necessário à Câmara. O errado foi despejar a biblioteca apressadamente, ‘JOGANDO’ os livros no Parque como é do testemunho de muita gente...” (Maurício, 1963) “Esta brilhante iniciativa que certamente demonstra um grande amor pela cultura, partiu do pres. da Câmara dos Vereadores... Esta biblioteca era uma das poucas coisas que ‘funcionavam’ na cidade... Esta atitude do sr. Gontijo é um verdadeiro atentado à cidade, e nos faz ter grandes

dúvidas a respeito da inteligência e da cultura do pres. da C. Municipal...” (Gomes, 1963)

“E tudo isso apenas para que os senhores vereadores não perdessem o sossego amedrontados de que a presença tão próxima de livros pudesse contaminá-los com o grande mal da alfabetização.” (Aulicus, 1963)

“... somos contra, e protestamos, o modo pelo qual se fez o despejo da Biblioteca para nôvo local, local que, aliás, ainda não existe para ela, indo ainda construir-se o prédio que abrigará os livros...

Esse despejo extemporâneo é, pois, uma coisa lamentável e censurável...” (Mendes, 1963)

“E a Biblioteca Municipal acabou mesmo ... e a cidade foi quem perdeu nesta brilhante iniciativa da Câmara dos Vereadores, cujos membros são eleitos para dar ao povo aquilo que ele precisa. Até certo ponto, ironia. De resto falta de muita coisa no que diz respeito a caráter...” (Diário da Tarde, 1963)

“Várias reclamações contra a atitude da Câmara já se fizeram ouvir por parte dos frequentadores habituais da biblioteca Municipal...

O tipo popular de Belo Horizonte, ‘Seu Geraldo’, que todos conhecem como professor, chorou quando viu o despejo da biblioteca. Era frequentador assíduo e chegou até o 3º ano da escola de Filosofia, estudando nos livros daquela casa.

Uma mulher telefonou para a redação, pedindo que o jornal tomasse uma providência, porque seus cinco filhos e de muitas outras mães, que não podiam comprar livros, vão ser obrigados a parar de estudar.”(Diário da Tarde, 1963).

É inegável a importância que a Biblioteca tinha para Belo Horizonte e que sua remoção do edifício da Câmara foi bastante prejudicial para a população da cidade. O acervo era bastante consultado por um público variado e possuía um valor cultural bastante considerável pelos usuários. No entanto, as reclamações não foram suficientes, já que não conseguiram impedir mais uma medida que refletiu o descaso e a negligência das autoridades públicas municipais em relação à Biblioteca e ao conhecimento e à cultura proporcionados por ela.