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4   Methodology

4.4   Final Questionnaire Development

Almada Negreiros entusiasmou-se pelas ideias futuristas de Marinetti logo que as conheceu. E tratou logo de tomá-las como fundamento para o que já era o seu desejo: renovar as artes e a cultura e, de modo mais abrangente, o pensamento português. Não por acaso, autointitula-se "poeta d'Orpheu futurista e tudo" no Manifesto Anti-Dantas. A bandeira do futurismo vem a calhar para os seus projetos de renovação cultural. Mais do que isso, vem casar perfeitamente com as suas ideias a respeito da estagnação do pensamento burguês, no repetitivo culto aos grandes feitos da história do País. Por isso é que cabe tão bem às suas intenções de revolucionar o momento por que Portugal passava no que concerne às suas atividades culturais e aos seus costumes sociais. Guilherme de Santa Rita, ou Santa-Rita Pintor, e Almada Negreiros são, assim, os futuristas portugueses, os representantes da novidade que foi a postura defendida por Marinetti no seu Manifesto Futurista, de 1909. Mas entre o Futurismo italiano e o que Almada Negreiros propôs que se fizesse em Portugal houve muita diferença, principalmente a partir da evolução das ideias futuristas nas ideias que Almada Negreiros defendia, não só naquilo que produziu em arte, como nas conferências que proferiu, quando às teorias sobre o fazer artístico se somavam a graça e a poesia, compondo textos híbridos, aos quais já não cabiam mais a classificação como gênero conferência ou poesia.

“A Cena do Ódio” é um texto cuja fúria tem a mesma força que encontramos nos estatutos do Manifesto do Futurismo, de Marinetti. Nada neste poema, como no Anti-Dantas, está ali para sugerir ou propor uma mudança de forma direta. Não. Definitivamente, o que se faz, em um como em outro, é lançar um grito de guerra, impaciente e irritado, contra o marasmo político, social, cultural e artístico. O mesmo tom irritado do Manifesto pode ser encontrado no poema. Tomando alguns de seus versos como sinais da acolhida das teorias futuristas a respeito da composição poética, é possível conferir a total identificação do poema

com o futurismo. Mesmo nas questões estéticas que o Manifesto do Futurismo prega, é possível ver e conferir no texto de Almada Negreiros alguns dos princípios da corrente futurista.

Mas o que é surpreendente é que Almada Negreiros desenvolveu um Futurismo muito particular. E, assim, mesmo com os olhos bem abertos para o futuro, o artista pôde trabalhar sempre, fosse no ato criativo, fosse nos estudos que fariam florir as suas teorias e as suas conferências, com o pensamento no que de melhor havia no passado. Temos, assim, um futurista sui generis, um futurista cujos olhos não estão menos abertos para o passado do que para o presente ou mesmo, e principalmente, para o futuro. Quando o Manifesto de Marinetti prega que se devem queimar todos os museus e as bibliotecas, o futurismo de Almada Negreiros busca lá nas origens do conhecimento, nos estudos do pensamento grego, a fonte, a base para o que se desenvolverá em arte moderna e revolucionária, em arte que só muitos anos depois se fará compreender. Era de se esperar que um artista que mostrou sempre que a autenticidade era a sua marca, que a sua criação artística estava engajada no momento histórico em que surgiu mas que de modo algum isso poderia significar a sua conformação em modelos e padrões artísticos, era de se esperar mesmo desse artista, que sua produção tomasse os rumos de sua originalidade e de seu comportamento excêntrico, e a partir daí se estampasse como produto artístico de natureza futurista mas que carrega consigo a marca da criação original, espontânea e bem humorada do artista e, naturalmente, o seu “portuguesismo”.

Tal como aconteceu no modernismo brasileiro, Portugal tem um Futurismo temperado de elementos da sua cultura. A proposta do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, não foi apresentada aos portugueses nos mesmos termos desse Manifesto, mas não se pode dizer que o que se aprendeu dessa, que foi uma das primeiras correntes da vanguarda europeia foi repassado a esse povo tal e qual foi lançado nos demais países da Europa por Marinetti. Também em Portugal se combateu, desse modo, o gesto macaqueador, da simples repetição. E também no Brasil, o Futurismo foi primeiramente recebido com entusiamo. Tudo o que a geração do Orpheu, em Portugal, e a geração dos manifestos modernistas, no Brasil,

pretendiam era inovar. E a brusca ruptura com o passado, de que melhor expressão não há senão no Manifesto de Marinetti, parecia ser a chave para tais mudanças. Importa considerar ainda uma diferença entre a postura de Almada Negreiros e de Santa Rita Pintor, os futuristas portugueses, por assim dizer, e a de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, para citar dois dos nomes que bem podem representar o desejo de renovação nas artes, no pensamento e, mais abrangentemente, na cultura brasileira. Essa diferença está em que Almada Negreiros e Santa Rita Pintor não só aceitavam ser considerados futuristas como também eles próprios se diziam futuristas. Oswald de Andrade e Mário de Andrade rejeitavam esse rótulo e, embora admitissem que, a princípio, houve da parte deles um certo encantamento pelas ideias futuristas, em pouco tempo, com a identificação dessa corrente com o Fascismo, já tomavam como ofensa qualquer aproximação que fizessem de sua obra e de suas ideias de renovação cultural com a corrente futurista.

Essa marca do Futurismo em Portugal e, sobretudo, na obra de Almada Negreiros está fortemente vinculada a um outro princípio seu, o nacionalismo, que está em toda a sua obra artística bem como em suas conferências e em outros pronunciamentos seus. Sua obra e sua atuação como militante da renovação da cultura estão a todo tempo, a serviço das ideias que levam a sociedade portuguesa a reconsiderar os seus valores, a resgatar a sua identidade e construir uma identidade nacional e a buscar se afirmar em relação aos demais países da Europa. E, para tanto, não poupa o povo português, de acusações tais como aquela com que encerra o seu Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX: “O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades.”21

O seu entusiasmo pela modernidade, não somente artística mas também aquela que leva ao avanço das ciências e das tecnologias, ou que é atestada por ele, está confirmado no incidente dos foguetes à porta do Café “A Brasileira”. Tendo os aviadores Gago Coutinho e o Sacadura Cabral conseguido a façanha de atravessar o Atlântico e, partindo de Lisboa, chegar ao Rio de Janeiro, Almada Negreiros

21

registra o seu contentamento pelo feito dos dois aventureiros soltando foguetes à porta do Café e causando espanto a todos. A primeira travessia aérea do Atlântico Sul foi um fato bastante comemorado não só no Brasil como em Portugal, que parecia necessitado de novas conquistas que reafirmassem o seu espírito desbravador e renovassem os seus feitos de expansão ultramarina. Assim que foi dada em Portugal a notícia da chegada dos aviadores ao Brasil, as escolas encerraram as suas atividades, liberando os alunos mais cedo das aulas e houve comemorações por todo lado. A viagem dos aviadores foi feita em condições rudimentares se comparadas aos recursos de comunicação com que o sistema aeroviário conta hoje, e nisso está o grande feito deles. Isso se passou em 1922, por ocasião das comemorações do centenário da Independência do Brasil, e tinham apenas um astrolábio adaptado para o avião e muita coragem para atravessar o oceano com destino à costa brasileira. Os nomes de Gago Coutinho e Sacadura Cabral serão lembrados mais uma vez por Almada Negreiros no seu Histoire du Portugal par Coeur, escrito em Paris, em 1919, mas publicado em 1922, a tempo de a homenagem aos aviadores vir no texto preliminar à obra:

Mas, inesperadamente, (porque os Portugueses nunca se denunciam na maneira de melhor servir a sua terra), dois Portugueses acabam de provar que eles serão o melhor júri do valor nacional da minha Histoire du Portugal par Coeur.

Esses dois Portugueses chamam-se Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A eles dois venho pedir para que me digam se a minha Histoire du Portugal par Coeur deve ser, na verdade, espalhada por todas as partes ou rasgada para sempre, comigo próprio.

Aguardo de joelhos a sua resposta, com a Histoire du Portugal par Coeur sobre o meu peito, onde guardo quotidianamente a ambição que não cedo a ninguém – de querer ser eu o melhor de todos os Portugueses!

Abril de 1922

Almada

Do mesmo entusiasmo com os ousados projetos e inventos na área da ciência e da tecnologia, vem o seu desejo de homenagear Bartolomeu de Gusmão, o chamado “padre voador”, que criou, em 1709, a Passarola, e mais tarde foi perseguido pela Inquisição. O selo criado por Almada Negreiros, por encomenda

dos Correios, instituição para a qual trabalhava em 1939, estampa o invento do padre e passa a ser o motivo da ruptura do contrato de trabalho com essa instituição. Vendo rejeitado o seu manifesto desejo de homenagear o padre inventor, Almada Negreiros abre mão do contrato com os Correios para não ver abortada a sua homenagem ao grande feito que ele viu na invenção da Passarola. Era época em que a manutenção de sua casa e o sustento da família dependia desses rendimentos mas o artista preferiu ter que se arranjar de outra maneira para cumprir a sua função de provedor da casa a ver a sua liberdade de criação cerceada por imposições externas e censuradoras.

É com o olhar voltado para o passado também que Almada Negreiros homenageia em sua obra Francisco de Holanda, Homero, Pitágoras, Leonardo da Vinci, dentre outros. Confirma-se nele, assim, um futurista sui generis, um futurista que lança o seu olhar para o futuro das invenções, das ciências e artes, mas que sabe buscar no passado os pontos altos do conhecimento, trazê-los para o seu tempo e lançá-los como modelo para outros avanços e outras conquistas de que o conhecimento e a cultura do povo português tanto carecia naquele início de século.

Sem o propósito de, neste momento, propor mais uma análise sobre a relação entre a obra de Almada Negreiros e a arte e a cultura portuguesas, mas, antes, com o propósito de tentar levar a uma reflexão sobre essas relações, consideremos o que disse o próprio artista sobre sua história de vida a partir de um episódio da infância, que marcou toda a sua existência, em relação com o que foi o movimento modernista em Portugal.

Almada Negreiros disse, certa vez, que a falta de sua mãe era a única coisa que fazia com que ele olhasse para o passado e que sua história teria sido outra se não fosse a falta dela. Podemos pensar, em uma perspectiva não mais da falta mas sim da presença, que a história do modernismo português teria sido outra sem a atuação e a agitação de Almada Negreiros. Teria sido outra sem a sua marca e a sua intensa participação no processo de renovação dos moldes da literatura, da arte, enfim, da cultura portuguesa do século XX. Ele é, no mínimo, o mentor da alegria e do bom humor nesse movimento literário e cultural. A poética de Sá-Carneiro

representou a melancolia e, por vezes, o desespero; a de Fernando Pessoa oscilou entre o bom humor de versos como os do poema “Liberdade”, por exemplo, a angústia de versos como os do poema “Aniversário”, e a dolorosa consciência da realidade como em “Tabacaria”, de Álvaro de Campos; e a de Almada Negreiros, embora tenha representado a fúria da contestação no seu Manifesto Anti-Dantas e no seu clássico “A Cena do ódio”, legou-nos, e até mesmo nesses dois textos de fúria, o que há de mais bem humorado na poesia e na cultura do século XX em Portugal.

ALMADA NEGREIROS E A SUA REJEIÇÃO